"Ficções" de Jorge Luis Borges

Resenha de Martha Angelo

Título: Ficções
Autor: Jorge Luis Borges
Publicado em: 1962
Lido em: Português
Traduzido por: Davi Arrigucci Jr. (do espanhol)

 

Eu me lembro da primeira vez que li José Luis Borges. Lembro-me do meu espanto, de uma sensação de estranhamento e admiração semelhante a dos viajantes que chegam a novos territórios depois de longo percurso. Aliás, quiçá, o meu espanto fosse mais próximo àquele do astronauta que chega a um novo planeta. E, foi mesmo, um longo percurso até Borges.

Eu sempre gostei muito de ler, desde a infância. Devorei livros de todos os gêneros com voracidade e muitos deles deixaram suas marcas na minha forma de encarar a vida e seus mistérios, mas nenhum como os deste autor. Até aquele dia fatídico, eu diria tranquilamente que, em se tratando de fantasia, dos caminhos do fantástico e da imaginação, nada poderia me surpreender, porque a fantasia era a minha segunda casa (segunda?) desde que, junto com Alice, eu segui aquele coelho branco. Assisti ao casamento de Narizinho com o Príncipe Escamado, viajei até o centro da Terra, dei a volta ao mundo num balão em oitenta dias, passei por Paris, me apaixonei por um corcunda horrendo que vivia em sua catedral e deixei-me seduzir por um vampiro sombrio num castelo da Transilvânia.

Muitos outros livros me proporcionaram outras tantas viagens para fora e para dentro, mas nenhum dos autores causou em mim o mesmo efeito que Borges. E, afinal, por quê? 

Deixando de lado o aspecto inescrutável dessa fascinação, creio que ler Borges é mais ou menos como entrar numa casa de espelhos mágicos; espelhos que conseguissem reproduzir uma enorme tradição literária e filosófica, multiplicando-a, transformando-a, distorcendo-a, criando e recriando novos-velhos personagens e histórias, não sem antes nos causar vertigem ―uma vertigem enorme, como se estivéssemos num sonho em que tentássemos encontrar a saída de um labirinto de espelhos, onde personagens de livros de todas as épocas viessem nos visitar, onde livros conversassem com livros em línguas estranhas, antigas, inexistentes, uma verdadeira torre de babel numa biblioteca infinita, ou seja:

“Biblioteca febril, cujos volumes fortuitos correm o incessante risco de se transformar em outros e que afirmam, negam e confundem tudo como uma divindade que delira”   [A biblioteca de Babel, Ficções]
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Para um apaixonado por livros, nenhum reino jamais pode ser tão maravilhoso e encantador quanto à ideia de uma biblioteca infinita! E Borges compreendeu isso como ninguém porque, por trás de todas as suas narrativas fantásticas, está lá o lembrete de que todo escritor é antes de tudo um leitor. Por mais intrigantes e misteriosas que elas sejam e ainda que nos deixem sempre com uma ponta de dúvida e perplexidade, ainda assim lá está o lembrete que nos traz uma sensação de pertencimento, de identificação...

Bem, entrar nesse labirinto vertiginoso, nessa floresta de referências literárias e filosóficas, onde sempre poderemos encontrar um tigre sem conhecer o idioma do mapa, pelo menos seria impossível, além de no mínimo perigoso e frustrante. Por isso, foi uma imensa felicidade poder ler Ficções em português, traduzido por Davi Arriguci Jr., um dos mais renomados estudiosos de literatura do país, professor aposentado de teoria literária e literatura comparada na USP, crítico literário e autor de livros fundamentais sobre poesia, ficção brasileira e hispano-americana.

Desejo poder ler Borges no original, um dia, mas fico feliz de poder ter sido apresentada à sua obra em português, a minha língua materna, até porque como o próprio autor afirmou “cada idioma é um modo de sentir o universo e de perceber o universo”.

E, certamente, a tradução foi um tema recorrente da obra borgiana. Ela aparece em muitos textos do autor, despertando inúmeras reflexões sobre autoria, relações entre língua e cultura, complexidade dos idiomas, enfim, muitas reflexões interessantes. Mas para concluir esta minha homenagem à tradução em português dos livros de Borges, gostaria de citar um trecho do conto “O Imortal” em que o personagem Marco Flamínio Rufo fica sabendo da existência de uma cidade dos Imortais, onde existe um rio que traz imortalidade àquele que se banhar em suas águas. Ele parte, então, em busca desta cidade. Durante o percurso, encontra Homero e lhe pergunta o que poderia lhe falar sobre a Odisseia:

“Muito pouco, menos que o mais pobre dos rapsodos. Já terão passado mil e cem anos desde que a inventei”...  [Imortal, em Ficções ]

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 MARTHA ANGELO nasceu em São Paulo em 1967. Formou-se em Letras na Universidade de São Paulo University e trabalha com projetos que promovem a leitura entre crianças e adolescentes. Seu primeiro livroO guardião da floresta foi publicado pela Editora Biblioteca 24 horas. Escreve também contos, crônicas e histórias infantis em seu blog Mistura de letra, além de colaborar com A suprema arte escrevendo crônicas e resenhas de filmes.

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