O tradutor sob os holofotes

Rafa Lombardino

Nos dias 5 a 7 de junho de 2015, participei do VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento esse realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. No primeiro dia de palestras (sábado, 6 de junho) passei grande parte do dia na Sala 5, onde se apresentaram diversos palestrantes que falaram sobre tradução literária.

A quinta palestra a que assisti foi o painel O tradutor sob os holofotes, moderado pelo tradutor Petê Rissati e que contou com a presença das tradutoras Carolina Caires Coelho e Candice Soldatelli e as editoras Alyne Azuma e Alessandra Ruiz. O assunto da conversa? A interação entre tradutores editoriais e as casas editoriais brasileiras.

A primeira pergunta de Petê foi na lata: É verdade que existe uma panelinha no ramo das traduções editoriais?

A coordenadora editorial Alyne confirmou que sim, mas que as coisas não são bem assim. “Existir, existe, mas é muito menos afetiva do que se imagina”, ela explicou, dizendo que se um editor encontra uma equipe boa e todos os integrantes se dão bem e o trabalho flui, não há porque mexer em time que está ganhando.

Alessandra disse que as panelinhas acabem se formando, mas sempre existe um ponto de partida: “A questão é fazer um bom teste ou receber uma boa indicação, porque existem sim editoras mais herméticas, com a equipe já formada”.

Petê completou com a seguinte sugestão: Por isso é importante ir a eventos literários, lançamento de livros, conhecer pessoas...”

Carolina confirmou essa ideia, dizendo que não foi fácil dar início à sua carreira na área, mas que as recomendações acabam ajudando no desenvolvimento do currículo e, quando um editor gosta do trabalho do tradutor em um determinado gênero editorial, fica mais simples dar continuidade à parceria.

O segundo tópico colocado para discussão foi direcionado às tradutoras: O que vocês esperam das editoras?

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Carolina disse que gostaria que mais atenção fosse dispensada aos tradutores, apontando para o fato de que os editores às vezes demoram em responder perguntas e esclarecerem alguma preferência ou convenção durante a etapa de tradução, ou mesmo na troca de comentários e sugestões durante a rodada de revisões.

Alyne concordou, dizendo que a comunicação é fundamental, sendo necessário estabelecer um diálogo, a troca de feedback e a realização de um briefing adequado.

Alessandra completou dizendo que, na verdade, “não existe nada pronto; não existe nem autor pronto” e que a relação entre tradutor e editor precisa ser construída.

Candice corroborou, mas lembrou que o tradutor também precisa se esforçar e estudar o catálogo da editora com a qual deseja trabalhar a fim saber mais sobre a linha editorial da empresa. De acordo com as suas experiências pessoais, ela disse que, uma vez estabelecida essa relação entre ela e a editora com a qual trabalha, a colaboração ficou muito mais fluída. “A partir dali, ele [o editor] me viu não só como uma tradutora, mas como uma profissional que entende a empresa dele”, explicou.

Aproveitando esse gancho, Petê pediu para as editoras da mesa falarem mais sobre o assunto: Como é o procedimento por parte das editoras brasileiras?

Alessandra disse que, primeiramente, os tradutores assinam um contrato para abrir mão dos direitos autorais. Ela justifica esse passo como uma forma de as editoras minimizarem as suas despesas, pagando somente pelos serviços prestados e evitando pagamentos em longo prazo com base no resultado das vendas.

“As editoras tentam pagar o mínimo para lucrar o máximo com o mínimo esforço”, ela explicou. “As editoras são empresas; por mais que tenha o glamour da literatura, elas são empresas e não casas de caridade. Querem obter o melhor trabalho e lucro ―o melhor para o leitor e o melhor para o chefe.” Porém, ela adverte que pagando muito pouco, a editora não vai atrair bons profissionais e, consequentemente, não vai receber um trabalho bem feito, confirmando que às vezes um editor descarta um bom tradutor por falta de tempo e feedback.

Colocados esses problemas e obstáculos, Petê então perguntou: Como a relação com a editora pode melhorar?

Candice falou da sua própria experiência, dizendo que o tradutor também pode indicar colaboradores competentes para desempenharem outros papeis durante o processo. “A nossa equipe trabalhou junta: editor, tradutor e preparador fizeram uma reunião de briefing”, ela lembra. “Deu problema com o revisor, que não havia feito parte do processo. Desde então, trabalhamos de forma diferente.”

Além disso ela disse que, por saberem os dois idiomas envolvidos em uma tradução e poderem fazer uma avaliação melhor do conteúdo que pode vir a ser traduzido, os tradutores são os profissionais ideais para ajudar as editoras no papel de scout, uma espécie de olheiros no ramo editorial. Foi isso que ela fez na Feira Frankfurt in 2013 ―quando o Brasil foi o convidado de honra― participando do processo editorial dos bastidores a fim de selecionar autores e títulos, negociar com os detentores de direitos autorais e trazer o material para a editora que estava representando.

Para os iniciantes, Candice deixou a seguinte dica: “Fiquem de olho nessas editoras pequenas, porque elas estão fazendo as coisas de maneira diferente e crescendo muito rápido”.

Mudando de assunto, Petê pediu para as participantes falarem um pouco mais sobre o fluxo editorial.

Alessandra respondeu dizendo que ninguém faz um livro sozinho ―e, mesmo que fizesse, precisaria desempenhar vários papeis. “Se alguém tiver um ego muito grande... A gente corre de vaidade! Se o tradutor, revisor, capista e editor quiserem ser melhor do que os demais, alguém vai estragar projeto”, ela adverte. “O legal é você ter um bom produto final. O melhor profissional não é o de maior prestígio; é o mais humilde e que se comunica melhor. Às vezes o texto está bem traduzido, mas existem várias perguntas e dúvidas por causa de falta de pesquisa.”

Carolina concordou que o tradutor deve ser humilde e manter a comunicação aberta. “Essa troca [entre tradutor e revisor] é um exercício de humildade. Quando o tradutor recebe o texto de volta, ele aprende”, ela concluiu.

Na qualidade de tradutor, Petê completou: “É um exercício de empatia. Qual texto você gostaria de traduzir, revisar, ou preparar? Quanto menos trabalho você der para o preparador, melhor. Entregue o texto que você gostaria de ler”, ele sugeriu. “É preciso lembrar que todos estão trabalhando juntos, com um objetivo em comum.”

A última pergunta para o painel foi: Depois que o livro é lançado, você se preocupa em saber o que está sendo dito a respeito do seu trabalho?

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Candice disse que não teve muita escolha: “Eu tive um batismo de fogo e participei do lançamento do livro”, ela lembra, contando que ficou frente a frente com os leitores da sua primeira tradução. “Eles fizeram perguntas muito pertinentes e eu precisei me sentir preparada para responder. Parece que os leitores estão mais conscientes sobre os tradutores. A editora adquire os direitos autorais e anuncia no site os livros que logo serão traduzidos e os leitores perguntam: 'Mas quem é que vai traduzir?'”

Carolina disse que cada livro que traduziu é como se fosse um filho, já que o tradutor participa desde o início do período da criação, mas já sabendo que o livro é criado para o mundo. “A gente sempre acompanha, inclusive nas redes sociais, entra nos blogs para saber a opinião dos leitores... Passamos para o próximo projeto, mas ficamos de olho para saber como foi a repercussão.”

Como editora, Alessandra compartilha do mesmo sentimento: “É para sempre. A gente vai na livraria, coloca o nosso livro por cima dos outros... A gente muda de empresa, veste outra camisa, mas os filhos continuam: os livros são sempre nossos”, confessa.

Ela também concorda com a perspectiva de Candice sobre a reação dos leitores. “Os brasileiros, principalmente os jovens, estão ficando bastante profissionais. Eles sabem o que está acontecendo lá fora e, antes do lançamento do livro, já perguntam: 'Vai ficar a mesma capa? Vai mudar nome de personagem?'”

Alyne também é adepta da comparação entre pais e filhos. “Sempre tem aquele momento em que a gente pensa que poderia ter ficado melhor. Mas, em outros momentos é assim: Esse é o meu filho, ele é como ele é.” E, sobre os leitores, ela vai além: “Hoje em dia tem interação nas redes sociais, as pessoas vão atrás de você, mas a troca é maior e o leitor se torna um parceiro”.

Depois de uma conversa tão animada, só havia tempo suficiente para uma única pergunta, mas que foi bastante interessante e muito bem aproveitada: Como fica o mundo editorial além dos livros escritos em inglês?

Candice se manifestou primeiro, dizendo que até os americanos estão aprendendo que existe literatura em outras línguas, mas os editores nos EUA ainda são muito inexperientes em questão de tradução literária. “Eles tinham muitas perguntas”, ela lembra das suas interações em Frankfurt. “E eu pensei: Nossa, os brasileiros poderiam dar aula para eles sobre isso!” Consequentemente, ela diz que os editores brasileiros perceberam que os americanos estão prestando atenção em outros idiomas, então resolveram ficar antenados na literatura internacional também.

A mesma pessoa na plateia que fez a pergunta deu continuidade ao assunto dizendo que seria necessário investir mais e dar valor às traduções feitas diretamente do idioma estrangeiro para o português.

Candice reconheceu que muitas editoras brasileiras geralmente esperam sair a versão em inglês, para usá-la como intermediária, em vez de traduzir diretamente do idioma original. E Alessandra completou dando uma ideia aos tradutores presentes que trabalham com outros idiomas: “Pega um livro muito ruim, traduzido por meio de um idioma ponte, dá uma editada em um capítulo que seja e tenta conversar com uma editora.”


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Ela é a autora do livro "Tools and Technology in Translation", baseado na sua aula, que faz parte do curso de extensão para tradutor e intérprete de inglês e espanhol disponível pela Universidade da California em San Diego. Rafa atua como tradutora desde 1997 e, em 2011, passou a trabalhar lado a lado com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, ela também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literature brasileira em todo o mundo.