Pensando a tradução de variantes linguísticas

Rafa Lombardino

Nos dias 5 a 7 de junho de 2015, participei do VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento esse realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. No primeiro dia de palestras (sábado, 6 de junho) passei grande parte do dia na Sala 5, onde se apresentaram diversos palestrantes que falaram sobre tradução literária.

A quarta palestra da qual participei foi Pensando a tradução de variantes linguísticas, apresentada por Solange Pinheiro Carvalho. Ela falou sobre a sua pesquisa acadêmica da obra de Andrea Camilleri, escritor italiano nascido em 1925, quando poucos italianos eram bilíngues e a maioria só falava a língua regional.

Solange explicou que, para o autor, o siciliano era a “língua de afeto”, enquanto o italiano era a “língua da autoridade”. Naquela época, não era possível falar italiano com os mais velhos, que só compreendiam o seu próprio dialeto. Quanto aos jovens, eles passaram a aprender italiano na escola, acabavam se mudando da terra natal e, ao regressar, já não conseguiam mais compreender o dialeto local. Essa realidade italiana transparece nos escritos de Camilleri, principalmente como forma de indicar o registro linguístico dos personagens, assim como a relação ―até socioeconômica e hierárquica― existente entre eles.

A palestrante estudou as abordagem dos estudiosos Pym, Lane-Mercier, Morvan e Eco para embasar a sua pesquisa, mas advertiu: “Não é possível pensar em uma teoria geral da tradução, mas sim, analisar cada caso separadamente”. Para elucidar essa realidade linguística, a pesquisadora fez então um paralelo entre a evolução da língua nacional na Itália e no Brasil. Enquanto no território italiano imperava o plurilinguismo, onde línguas minoritárias ou regionais diferiam do italiano padrão, no território brasileiro sempre houve uma multiplicidade de dialetos mutuamente inteligíveis.

Porém, ela enfatizou que é necessário evitar uma criação indevida de sentido e uma localização errônea ao traduzir dialetos associando os personagens aos sotaques característicos de diferentes estados brasileiros, ou seja, transformando um personagem siciliano em nordestino, por exemplo.

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Solange disse que esse plurilinguismo italiano causa conflitos tanto na escrita como na tradução de obras como a de Camilleri, pois a norma considerada culta bate de frente com a tradução das variantes linguísticas. “No consenso geral, há uma correspondência entre diferentes normas linguísticas”, ela declarou sobre a tradução de um idioma padrão para outro. “Mas o que fazer com as variantes dentro de um mesmo idioma?”

Como exemplo, Solange citou alguns fragmentos de um livro de Camilleri em que o personagem principal conversa com a namorada e acaba misturando um pouco de siciliano, o que a irrita, já que ela só fala italiano. A palestrante refletiu, então, sobre como transpor esse conflito na tradução para o português. Pensando nisso, em vez de traduzir tudo para o português, o que mudaria a interação entre os personagens, ela diz que seria necessário fazer adaptações.

“Às vezes é necessário buscar outra língua para causar o estranhamento, principalmente quando um dos personagens vai acabar resolvendo o conflito durante o diálogo”, ela deu uma ideia, mencionando que se inspirou em línguas da Península Ibérica, onde línguas minoritárias como galego, aragonês, mirandês e asturiano têm certa relação com o português ―o suficiente para serem compreendidas na leitura, mas surtindo o mesmo efeito do original por causa dos termos fora de lugar, incompreensíveis.

Outras vezes, ela optou por introduzir erros ortográficos para causar tal estranhamento. Durante a explicação, ela destacou uma fala de um livro de Camilleri em que a palavra signora havia sido escrita como signura e, para manter a intenção do autor e causar o mesmo estranhamento no leitor, ela traduziria “senhora” como “sinhora”, que vem da língua falada na Galicia.

“Com a introdução do galego, foi possível demonstrar que o personagem não fala a língua padrão no original, mantendo a estranheza na tradução”, ela afirmou. “Não sei até que ponto esse recurso seria aceito em uma publicação tradicional, porque sabemos que há uma resistência às variantes regionais”, ela lembrou, dizendo que a recepção de Camilleri até mesmo na Itália ainda não é tão grande quanto poderia, porque os leitores italianos acham a sua escrita “muito difícil”.

“Se eu fosse traduzir e a editora publicasse assim, tenho certeza de que eles receberiam várias reclamações de que o livro estava mal escrito”, lamenta.


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RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Ela é a autora do livro "Tools and Technology in Translation", baseado na sua aula, que faz parte do curso de extensão para tradutor e intérprete de inglês e espanhol disponível pela Universidade da California em San Diego. Rafa atua como tradutora desde 1997 e, em 2011, passou a trabalhar lado a lado com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, ela também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literature brasileira em todo o mundo.