Vamos fugir do tradutês?

Rafa Lombardino

Nos dias 5 a 7 de junho de 2015, participei do VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento esse realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. No primeiro dia de palestras (sábado, 6 de junho) passei grande parte do dia na Sala 5, onde se apresentaram diversos palestrantes que falaram sobre tradução literária.

A terceira palestra da qual participei foi Vamos fugir do tradutês, do Ponte de Letras, grupo formado por Petê Rissatti, Carolina Caires Coelho, Flávia Souto Maior e Débora Guimarães Isidoro, quatro tradutores editoriais (e bons amigos) que se reuniram para escrever um blog sobre o assunto.

Eles deram início à palestra com Petê lendo uma nota de agradecimento à ABRATES, que a princípio soou bastante estranha para muitos dos presentes. Com o fim da leitura, descobriu-se que aquele linguajar e comportamento foram intencionais: os palestrantes desejavam mesmo causar estranhamento na plateia por causa do tom pouco natural do texto. Afinal, o “tradutês” era o ponto central da apresentação do grupo.

Petê então recomendou o livro “A tradução literária”, de Paulo Henriques Brito, como referência para aqueles que desejam aprofundar os seus conhecimentos na área editorial. Porém, ele deixou um lembrete: “Você traduz para a editora, mas o cliente é o leitor.” Com isso, o tradutor retomou a ideia da naturalidade na tradução de livros como forma de prender a atenção do leitor.

Aqui vão outros lembretes do grupo:

  • A melhor tradução é aquela que não parece ser algo traduzido.

  • Quando o tradutor é lembrado, em geral é porque algo deu errado.

  • Quanto maior o trabalho do tradutor num texto ―seu esmero para entregar um texto que respeita o original e, ao mesmo tempo, soa como bom português― menor a sua presença no texto.

  • Quanto menos o tradutor aparece, mais ele vai aparecer.

Ainda sobre naturalidade, Flávia contou sobre um livro que traduziu e no qual tentou encontrar um equilíbrio entre uma leitura que fluísse bem, mas também mantivesse o “clima” do tempo e espaço criados pelo autor. Neste caso, ela falava da tradução de um livro estilo noir, que se passa na década de 1940 em Los Angeles, e foi escrito por James Elroy. Para tanto, ela teve de adaptar gírias e o linguajar daquele local e daquela época. A dica de Flávia para situações como essa foi a seguinte: “Aproximar o que pode ser dito do que realmente se diz”.

Petê logo mencionou a “analogia da tapeçaria”: segundo Miguel de Cervantes, a tradução é como uma tapeçaria ao contrário, ou seja, o observador enxerga os nós da trama, os fiapos soltos pelo lado avesso, mas não consegue contemplar a beleza da imagem verdadeiramente estampada. “Devemos nos empenhar para que a trama dessa tapeçaria não fique solta, folgada, mas sim bem feita, sem nós ou remendos”, Petê explicou.

Carolina disse que o tradutês acontece porque o tradutor pode acabar entrando no “piloto automático” durante a tradução, porque o prazo ficou apertado ou até porque o editor mudou alguma coisa durante o processo de revisão do material.

Débora completou a linha de pensamento dizendo que é necessário ler e reler a tradução para garantir que o produto final ficará o mais natural possível. Ela, por exemplo, gosta de ler o que traduziu em voz alta para confirmar se a tradução “cai bem” aos ouvidos. “Não existem regras; cada um encontro o seu caminho”, ela garantiu.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Ela é a autora do livro "Tools and Technology in Translation", baseado na sua aula, que faz parte do curso de extensão para tradutor e intérprete de inglês e espanhol disponível pela Universidade da California em San Diego. Rafa atua como tradutora desde 1997 e, em 2011, passou a trabalhar lado a lado com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, ela também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literature brasileira em todo o mundo.