Pesquisa em tradução literária: seleção de fontes e entrevistas

Rafa Lombardino

Nos dias 5 a 7 de junho de 2015, participei do VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento esse realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. No primeiro dia de palestras (sábado, 6 de junho) passei grande parte do dia na Sala 5, onde se apresentaram diversos palestrantes que falaram sobre tradução literária.

A segunda palestra da qual participei, Pesquisa em tradução literária: a contribuição das técnicas de jornalismo para seleção de fontes e entrevistas, foi a da tradutora e jornalista Candice Soldatelli, que traduziu o livro “Ghost Rider: a estrada da cura” (Ghost Rider: Travels on the Healing Road), escrito por Neil Peart, baterista aclamado da banda Rush. Ela falou como a tradução desse livro foi, ao mesmo tempo, uma realização pessoal (ela é fã de carteirinha da banda canadense) e também um verdadeiro pesadelo (considerando a quantidade de pesquisa necessária para concluir a tradução).

Ela destacou algumas das semelhanças entre a tradução e o jornalismo: fidelidade ao depoimento e/ou texto original, cuidados para não impor o próprio ponto de vista do jornalista e/ou tradutor e a seleção de fontes confiáveis de pesquisa e consulta. “A notícia ou reportagem não deixa de ser uma tradução da realidade”, ela afirmou. “Entre as muitas qualidades de um bom tradutor, saber pesquisar é fundamental.”

Antes de entrar em detalhes e contar de maneira bastante divertida como foi o processo completo até o livro ser publicado em português, Candice lançou um desafio para a plateia: quantos dos presentes conhecia a maior parte dos profissionais aos quais ela teve que recorrer a fim de compreender melhor a variedade de assuntos retratados no livro? A lista, bastante extensa por sinal, incluía desde motociclistas e bateristas ―algo já esperado, considerando a profissão do autor e o fato de ele ter embarcado em uma viagem solitária em sua moto pelas estradas do Canadá―até um ornitólogo, que é especialista em aves.

Na qualidade de observador amador de pássaros, durante as suas viagens o escritor mencionou várias espécies e características que precisavam ser traduzidas de maneira precisa a fim de não atrair as críticas de leitores que entendem do tema. “Quando li o livro em inglês por prazer, até pensei: 'Coitado do tradutor que vai ter que achar o nome de todos esses passarinhos!'”, ela lembra, contando que recomendou o título em inglês para a Editora Belas Letras e acabou sendo contratada para traduzi-lo depois de passar em um teste.

Primeiramente, ela tentou procurar o nome dos pássaros mencionados usando a Wikipédia, visitando as páginas em inglês na esperança de encontrar uma correlação com páginas já existentes em português. Candice conta que, muitas vezes, torcia para uma página em espanhol lhe “dar uma luz” e ela poder encontrar o nome de cada espécie. Porém, depois de não encontrar fontes confiáveis nem mesmo com base no nome científico dos animais, ela decidiu recorrer à ajuda de um especialista.

“Vai que um ornitólogo lê aquilo e não bate?! É a maior vergonha!” ela explicou, dizendo que fez uma pesquisa preliminar antes de encontrar um profissional da área e conversar durante mais de uma hora sobre o assunto. Mas ela adverte: “Na pesquisa com especialistas, você não pode esperar receber uma aula sobre o assunto, mas sim chegar com algumas soluções para poder conversar a respeito.” Depois da conversa, ela e o ornitólogo acabaram cunhando um nome para um pássaro que só existe no Canadá e, até então, não havia sido catalogado em português. Tomada a decisão, o especialista até incluiu o nome do pássaro no site Wiki Aves, a enciclopédia de aves do Brasil.

Candice conta que seguiu o mesmo tipo de pesquisa em campo com motociclistas e um baterista. “Por que eu pude argumentar com o meu preparador? Porque eu pesquisei”, ela conta, dizendo que precisava de termos exatos para peças de motocicletas e para os movimentos usados por quem toca bateria. Ela lembra que foi um processo total de imersão para poder compreender o que havia sido escrito pelo autor e poder interpretar, adaptar e indicar aquilo com exatidão para o público brasileiro.

Concluído o livro, a tradutora teve a oportunidade única de participar de uma entrevista de lançamento ao lado do autor. “É o melhor livro sobre luto que eu li em toda a minha vida”, ela resumiu a impressão deixada pela história de um astro do rock que se viu à beira do abismo e decidiu refletir sobre a vida e se encontrar em cima de sua moto depois de perder a única filha e, poucos meses depois, a esposa.

Leia mais:
Entrevista com Candice Soldatelli no portal musical Whiplash.Net


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Ela é a autora do livro "Tools and Technology in Translation", baseado na sua aula, que faz parte do curso de extensão para tradutor e intérprete de inglês e espanhol disponível pela Universidade da California em San Diego. Rafa atua como tradutora desde 1997 e, em 2011, passou a trabalhar lado a lado com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, ela também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literature brasileira em todo o mundo.