CAT Tools na tradução literária: para quê?

Rafa Lombardino

Nos dias 5 a 7 de junho de 2015, participei do VI Congresso Internacional da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES), evento esse realizado no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. No primeiro dia de palestras (sábado, 6 de junho) passei grande parte do dia na Sala 5, onde se apresentaram diversos palestrantes que falaram sobre tradução literária.

A primeira palestra da qual participei foi a do tradutor Reginaldo Francisco, que falou sobre CAT Tools na tradução literária: para quê? Reginaldo destacou os benefícios gerais trazidos pelas ferramentas de assistência à tradução, como o conforto e a ergonomia, pois o tradutor não precisa utilizar duas telas ou, pior, ler o original diretamente do papel durante a tradução. 

Outra facilidade é a consulta a traduções anteriores, pois todo o trabalho do tradutor é gravado em um banco de dados e pode ser reaproveitado posteriormente. Glossários também podem ser compilados para que os termos-chave sejam sugeridos automaticamente, sempre que aparecem no original. Além disso, muitos desses programas auxiliam na digitação, pois apresentam opções como auto complete ou auto suggest, que tentam adivinhar o que o tradutor pretende escrever com base nas primeiras letras digitadas e nas palavras mais usadas no seu projeto.

Reginaldo falou um pouco sobre algumas das ferramentas mais populares, como Trados e Wordfast, e explicou que a versão clássica de ambas funcionava dentro do programa Microsoft Word, isolando frases em segmentos e apresentando uma caixa para o tradutor digitar a respectiva tradução. Essa combinação do segmento original e o traduzido é então armazenada no banco de dados para alimentar a memória de tradução. 

“Esses são um bom ponto de partida, porque a curva de aprendizado é menos acentuada”, ele destacou, referindo-se ao fato de muitos profissionais já estarem familiarizados com o ambiente do Word e precisarem somente se acostumar com os menus e atalhos adicionais, que são particulares a cada ferramenta. Porém, ele fez um alerta: “O fato de ser dentro do Word é a maior vantagem e desvantagem. Você já tem o hábito de usar o Word, mas também tem todos os erros do programa.”

Ao demonstrar o Wordfast Classic, Reginaldo fez uma comparação com a régua que muitos de nós já usamos alguma vez em cima do papel para marcar a linha a ser traduzida. Com uma ferramenta dessa natureza, melhoramos a ergonomia porque evita-se o torcicolo e desconforto de olhar do papel para a tela.

Logo ele demonstrou o Wordfast Pro, que é uma versão independente (stand alone) dessa ferramenta e funciona dentro da própria janela, sem precisar de outro programa adicional. Reginaldo falou sobre a consulta a traduções anteriores, sejam em nível de frases ou vocabulário, e como funcionam as memória de tradução.

Abordando a tradução literária mais especificamente, ele reconhece que são poucas as vezes em que um tradutor encontrará repetições ou correspondências dentro do banco de dados da memória durante a tradução de um livro. Um exemplo citado foi de um livro que ele traduziu de italiano para português e que foi escrito no formato de um diário, então as datas parecidas eram identificadas como correspondências, pois foi necessário apenas traduzir a primeira data indicada para a ferramenta compreender a sintaxe e alterar somente o número, mantendo a tradução usada para o mês.

Mesmo assim, ele diz que estas ferramentas são úteis para fins de coerência e controle de qualidade, incluindo a grafia do nome de personagens, por exemplo. Há também a facilidade na consulta de terminologia porque, mediante uma simples busca, muitas dessas ferramentas apresentam todos os segmentos onde uma palavra determinada foi usada para que o tradutor, assim, possa se lembrar de como a traduziu no decorrer do livro.

Finalmente, criar o hábito de traduzir livros usando ferramentas de auxílio à tradução é algo saudável para o tradutor também no controle da produção, pois esse tipo de programa gera relatórios que indicam a quantidade de palavras traduzidas e que ainda faltam traduzir, auxiliando assim na organização da agenda profissional.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira que mora na Califórnia. Ela é a autora do livro "Tools and Technology in Translation", baseado na sua aula, que faz parte do curso de extensão para tradutor e intérprete de inglês e espanhol disponível pela Universidade da California em San Diego. Rafa atua como tradutora desde 1997 e, em 2011, passou a trabalhar lado a lado com escritores autopublicados para traduzir os seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo do blog eWordNews, ela também administra a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena um projeto chamado Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicado a promover a literature brasileira em todo o mundo.