Entrevista com autor e tradutora esclarece o processo de tradução literária

O escritor Rafael Castellar (que já falou com o eWordNews sobre produção literária independente) acaba de lançar a versão em inglês do seu livro "Diário de um Zé Ninguém" como "Diary of a John Doe". Ele e a tradutora Paula Bortoletto falam sobre a colaboração durante o processo.

Qual foi a motivação de preparar a tradução para o inglês?
Rafael ― Uma vez que meus livros já estão disponíveis em formato eletrônico, resolvi aproveitar os benefícios deste tipo de mídia para extrapolar as fronteiras da nossa língua, tentando atingir novos leitores pelo mundo.
Paula  Mesmo ciente de que o autor tenha seus próprios motivos, me alegra muito poder dizer que eu mesma tive uma motivação muito grande para aceitar esse projeto. Como estudante de Letras, minha conexão com Humanas é algo muito forte e assuntos sociais sempre me apeteceram. Ao me dar conta do que a obra se tratava, aceitei não só como desafio, mas também como uma chance de poder levar um pouco de uma realidade muito específica (porém, infelizmente, comum) que vejo no meu dia a dia. 

Como foi selecionada a tradutora?
Rafael  Dois critérios foram considerados: valor e qualidade. O valor foi fácil de resolver, bastou comparar orçamentos, mas e a qualidade? Eu não tinha condições técnicas para identificar a qualidade deste ou daquele tradutor, então, busquei indicações, avaliei os custos e, principalmente, conversei com os tradutores para “sentir” a abordagem de cada um. Fui muito feliz na minha escolha!

Quais foram os obstáculos linguísticos enfrentados durante a tradução?
Paula ― Encontrar termos compatíveis na língua de chegada foi um grande trabalho de pesquisa, mas também algo muito recompensador. O personagem pertence a uma geração um tanto quanto definida (mesmo sem datas) por suas gírias, que ora eram descontraídas, ora mostravam que este teve acesso a níveis superiores de educação do que muitos de seus iguais. Isso dificultou um pouco o processo de versão, uma vez que a linguagem errada provavelmente o englobaria numa geração muito mais nova (ou velha) do que a dele.

Houve adaptação/esclarecimento durante a tradução?
Rafael ― Notei várias notas de rodapé esclarecendo pontos específicos à nossa geografia e cultura. Achei formidável, não teria pensado nisso ou entendido isso como algo importante.
Paula ― Alguns termos foram definidos em notas de rodapé e fiz questão de informar ao autor sobre eles, principalmente os neologismos criados para representar algo típico do Brasil (como "média", ou "doutor", por exemplo). Os trechos de músicas mencionados que não conhecia também tinham de ser igualmente creditados, então não me acanhei em tirar dúvidas.

O original acabou sendo alterado depois de o tradutor fazer algum comentário?
Rafael ― Com exceção das notas explicativas que foram adicionadas não houve alterações, mas por não haver necessidade, estávamos abertos caso fossem necessárias. Mas houve muita conversa entender autor e tradutor para garantir o entendimento comum e garantir a fidelidade às intenções da obra.
Paula ― Não. O serviço contratado foi de tradução exclusivamente, não me senti no direito de nem sequer olhar o texto com uma visão mais crítica, de revisão. Acho que autores escolhem a linguagem e a estrutura que melhor lhes cabe para expressar o conceito que tem em mente e só devem ser aconselhados se assim for pedido. Caso contrário, acho indevido fazer sugestões no texto assim, sem ser consultada.

Como foi a comunicação entre autor e tradutor durante o processo?
Rafael ―
 Tratamos tudo por e-mails. Estivemos sempre em contato para esclarecer e alinhar os entendimentos e intenções, tanto de um lado como de outro. As entregas foram parciais para que eu pudesse acompanhar a evolução e também opinar no trabalho de tradução. Em vários momentos a comunicação extrapolou o profissional e, por isso, ao término, nos encontramos para um café para nos conhecermos pessoalmente.
Paula ― Honestamente, nunca me senti tão em contato com meu e-mail quanto durante esse processo! Era uma preocupação constante em responder e verificar se fui respondida logo. Não sei quanto ao Rafael, mas pelo menos da minha parte só tenho a elogiar a prontidão com a qual ele me respondia e tolerava meus problemas durante o processo.

Quais foram os obstáculos logísticos entrentados pelo autor quanto à publicação da tradução?
Rafael ―
Por tratarmos tudo por e-mail, não encontramos este tipo de problema. Fomos em um ritmo tranquilo para as duas partes. 

Quais os planos para a parceria entre escritor e tradutor?
Rafael ―
Estou lutando para continuar e expandir a divulgação desta tradução. Ela está disponível na maioria das grandes livrarias eletrônicas, mas sei que ainda há muito o que fazer. Neste meio tempo, ainda estou trabalhando na elaboração de outras obras, as quais, espero, tê-las traduzidas também. Só não será feito com a Paula se ela não tiver disponibilidade!
Paula ― Por partilhar de muitos pontos ideológicos em comum e ter construído uma confiança muito grande no Rafael, aceitaria cegamente quaisquer projetos que ele venha a me propor. Não só pela seriedade e compreensão que ele mostrou para comigo durante todo o processo, mas especialmente pelo carinho que tenho pelo Zé Ninguém e que sei que teria por outros personagens. Acho importante que obras que tem um alcance limitado expandam sua presença no mercado para variar a oferta, ao invés de simplesmente vermos as mesmas coisas, as mesmas modas. Se um livro de vampiros faz sucesso, logo temos mais 15 sendo publicados. Templários? Também tiveram sua onda. Enfim... Alguns temas nunca deveriam sair de moda, na minha opinião, e penso que o Rafael é bem ciente deles e tem todo o potencial para banhar o mercado com uma perspectiva nova sobre as coisas!


RAFAEL CASTELLAR nasceu em Santa Gertrudes, interior de São Paulo, e é formado em Engenharia de Computação. Como entusiasta da literatura, busca nela formas de expressão por meio de crônicas, poesias, contos, ensaios e romances. Lançou recentemente um projeto de captação de recursos para a publicação de "Nanodicionário de relacionamentos", que obteve 120% de arrecadação pelo site Bookstart.

PAULA BORTOLETTO nasceu em 1992 e é estudante de Letras na Universidade de São Paulo. É tradutora e idealizadora social nas horas vagas. Por cinco anos seguiu carreira como professora de inglês, até se desprender da área para abrir novos caminhos no campo linguístico. Está em constante processo de descobrimento e exploração da língua e de suas peculiaridades.