“Dad is Cool” de Marcos Piangers

Podem me corrigir se eu estiver errada, mas o sonho de todo tradutor é traduzir um livro como se as palavras lhe estivessem sendo sussuradas ao ouvido, sem fazer muito esforço. Um livro que o próprio tradutor poderia ter escrito, considerando a familiaridade com o assunto. Um livro sobre algo que faz parte do seu universo, tanto que parece que você já sabe o que a próxima linha vai dizer.

Por meio da recomendação de uma querida amiga e tradutora super profissional, a Editora Belas Letras entrou em contato comigo solicitando uma amostra da tradução de “O papai é pop”, de Marcos Piangers, personalidade da mídia e do rádio. Não conhecia o trabalho dele e, até o momento, não nos conhecemos pessoalmente, mas depois de traduzir seu livro tenho a impressão de que nos sentamos a uma mesa de bar, tomamos uma ou duas cervejas com alguns petiscos e falamos sobre como é criar flhos.

Ele tem duas filhas, uma de 10 e uma de 3; eu tenho uma filha de 7 e um filho de 3. Ele é pai pra toda obra: troca fraldas, faz aviãozinho com a colher, lê histórias na hora de dormir, leva as filhas para o parquinho e o shopping e se irrita se alguém pergunta se ele “tá de babá”. Eu tenho um desses em casa ―um pai pra toda obra― e é algo realmente emocionante quando você se dá conta de que não poderia ter escolhido pessoa melhor para embarcar nessa aventura chamada “criar filhos”. Tenho certeza de que a Dona Piangers sabe do que eu estou falando.

Desde o início, quando comecei a traduzir a amostra (dois dos 32 contos que fazem parte do livro), as palavras vieram facilmente. E essa sensação continuou durante o restante do projeto: a escrita de Piangers é sincera, flui naturalmente. Além disso, temos praticamente a mesma idade (ele é 12 dias mais novo do que eu) e crescemos nos anos 1980 e 1990 no Brasil, então temos as mesmas referências culturais. Os leitores vão sentir que estão conversando com ele e, na verdade, a maioria das conversas que você tem com outros adultos que também têm filhos envolve como é ser pai ou mãe.

No entanto, ele não é teórico sobre o tema; ele não recomenda este ou aquele método ou uma técnica que garante o sucesso. Ele sabe que o fracasso faz parte e, às vezes, são os filhos que têm alguma coisa para nos ensinar. Piangers é um observador que selecionou verdadeiras preciosidades da sua interação com as filhas, de forma que torna essas experiências universais. E ele não fala só dos momentos perfeitos… Entra bastante culpa e cocô na história.

Cheguei à conclusão de que este assunto universal, escrito num tom de conversa, merecia uma tradução fiel aos conceitos e às imagens, não só às palavras escritas originalmente em português. Só posso torcer para ter feito um bom trabalho. Sempre que o meu cérebro de tradutora se sobrepôs ao cérebro de mãe durante a tradução, busquei inspiração na minha vida real. “Como eu explicaria isso se estivesse contando o caso para uma amiga americana?” ou “O que o meu marido diria (ou já disse) em inglês nesta situação?”

Para os tradutores ou amantes da língua escrita que estão lendo esta resenha, aqui vão alguns exemplos de frases que, se traduzidas literalmente, palavra por palavra, teriam tirado o leitor do encantamento da leitura para trazê-los de volta à dura realidade. A minha intenção era manter os leitores da língua inglesa no mesmo tipo de transe em que eu fiquei, preferivelmente lendo o livro sem interrupções (enquanto os filhos estivessem na escola ou dormindo).

  • “Período de adaptação” = period of adjustment (período de ajuste)
  • “Pra verem o que é bom pra tosse” = Isto se perderia completamente na tradução, então virou That should teach them a lesson (isso é para eles aprenderem uma boa lição)

  • “comida industrializada” = criaria uma imagem na cabeça do leitor completamente diferente de processed food, o jargão que todo novo pai e mãe ouve quando quer ter cuidado com a alimentação dos seus filhos

  • “enquanto abraçamos nossos filhos no sofá” = while we embrace/hug our children on the sofa ficaria muito forçado, então mudei para while cuddling with the children on the couch

  • “Não quero ser saudosista” = I don't want to be nostalgic funcionaria, mas aí teríamos aquela velha discussão sobre como “saudade” é a palavra do português que ninguém consegue traduzir de verdade, o time da “Nostalgia” brigaria com o time do “Longing Feeling” e nada funcionou melhor do que I'm not into talking about the good old days (“não estou tentando falar dos bons e velhos tempos”)

  • “O fato de a maioria do meu almoço cair na minha roupa” = traduzi como The fact that I’m wearing most of my lunch (“O fato de eu estar vestindo grande parte do meu almoço”) o que é uma piada comum envolvendo pessoas que não comem com cuidado e acabam sujando a roupa durante a refeição

Aqui vai o link para a entrevista e palestra TEDx
às quais assisti enquanto tentava encontrar
o tom certo para a escrita de Piangers'
(a tradução deste livro foi uma verdadeira experiência sensorial!)

Não querendo parecer piegas, mas já sendo, este livro é ideal para os pais lerem para os filhos na hora de dormir. Os contos são curtos, mas têm muito a dizer, e as crianças com certeza vão se identificar com as meninas descritas no livro. Além disso, a versão impressa parece ser linda, com vários desenhos para as crianças pintarem e até um espaço especial para fazerem um desenho do papai.

Resumindo, o meu objetivo foi não deixar nada soar estranho e fora de lugar na tradução em inglês, mas guiar naturalmente os leitores por estes contos. Pensei nos meus amigos americanos, canadenses, ingleses e australianos para quem gostaria de dar uma cópia do livro. Pensei em como gostaria que eles se sentissem da mesma maneira que eu me senti ao ler as palavras de Piangers em português: aquela sensação de “Eu também poderia ter escrito este livro!”

Mas, será que a gente poderia mesmo? Talvez a grande habilidade de Piangers foi nos fazer imaginar que poderíamos ter escrito isso tudo quando, na verdade, muitos poucos de nós têm o talento necessário para fazê-lo e, ainda por cima, tendo tempo para criar os nossos filhos. E, por causa de todos os sentimentos de alegria e tristeza descritos no livro, as mamães e os papais que lerem estes contos não poderão evitar o pieguismo e vão mesmo rir e chorar com “Dad is Cool”.

P.S. Escrevi esta resenha enquanto ensinava o meu filho a largar as fraldas e a minha filha andava pela casa, tablet em mãos, escutando músicas do Justin Bieber.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.