Como encontrar a voz do autor nas traduções literárias (e silenciar a sua)

Rafa Lombardino

Durante o 56º Congresso Anual organizado entre os dias 4 e 7 de novembro de 2015 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Miami, fui a uma palestra da Divisão Literária cujo título era "Como encontrar a voz do autor nas traduções literárias (e silenciar a sua)". A palestrante foi Mercedes Guhl, administradora da Divisão Literária da ATA e a mente por detrás de Traduzco, luego escribo, blog totalmente em espanhol que fala sobre leitura, escrita e tradução.

Mercedes nasceu na Colômbia e começou a traduzir livros infantis em 1990, enquanto concluía seu bacharelato em filosofia e literatura, antes de receber o título de mestre em estudos da tradução pela Universidade de Warwick, do Reino Unido. Recentemente, enquanto falava com o seu marido, que também é tradutor, ele perguntou para ela se todos os livros traduzidos pela mesma pessoa acabam tendo a mesma voz.

Equanto ponderava a pergunta, ela se deu conta de que (a) Nem todos os livros traduzidos pela mesma pessoa deveriam ter a mesma "voz" porque os tradutores representam ou criam a voz do autor na língua de chegada e (b) Sim, os livros traduzidos podem parecer ter a mesma voz às vezes se os originais são parecidos por fazerem parte da mesma série, serem do mesmo gênero ou terem sido escritos mal e porcamente. "Os editores não compreendem que, às vezes, o mesmo livro poderia ser traduzido de maneiras diferentes", ela completou, indicando que a pergunta feita pelo marido não é tão incomum.

Parafraseando Umberto Eco, Mercedes disse que, na melhor dos hipóteses, os tradutores de livros precisam ser os leitores ideais, mas traduzir com o leitor comum em mente. Como um consenso geral, ao ler como leitores ideais, os tradutores podem aprender a emular a voz dos autores, já que eles "proporcionam uma base" para que o texto final seja produzido.

Ela também mencionou os contrastes entre os tradutores da antiguidade, que traduziam livros para compreender e adquirir conhecimentos, e os tradutores modernos, cujo trabalho tem como objetivo ser publicado e distribuído. Assim sendo, como os livros de hoje em dia têm o objetivo de serem consumidos em massa, os tradutores precisam exercitar a sua escrita para "ter as ferramentas e os recursos necessários para imitar, inovar e criar quando necessário".

A fim de aprender mais sobre os processos seguidos por outros tradutores editoriais e como esses processos são diferentes ou semelhantes quando comparados ao seu próprio método, ela decidiu fazer uma pesquisa. Uma das principais perguntas que ela incluiu no dicionário foi se os colegas de profissão preferiam ler o livro inteiro antes de traduzi-lo, como ela faz, ou se leem à medida em que traduzem.

Mercedes se surpreendeu ao descobrir que muitos não leem antes de traduzir, pois ela acredita que alguns textos "devem ser compreendidos como um todo" depois de uma leitura atenta, pois podem conter "minas explosivas que precisam ser estudadas". Uma das visões opostas que ela destacou foi a de um tradutor que disse que "ler enquanto traduzo rende uma versão mais vívida e espontânea".

Outra curiosidade que Mercedes tinha era sobre como os tradutores abordam um projeto, o que ela chamada de "a luta das dez primeiras páginas". Como ela traduz principalmente livros infantis e infantojuvenis, ela diz que "é mais fácil recorrer à adolescente que vive dentro de você e seguir em frente... Depois das dez primeiras páginas, tudo se encaixa e dá liga. Você acaba seguindo o curso", ela completou.

Quando aos padrões que qualidade ―o que sempre é um assunto polêmico na tradução literária, considerando a exposição do material― ela queria saber dos colegas o que eles consideram uma boa ou má tradução.

"Eu sou meio destemida", ela admite. "Fui treinada para ser editora, então sempre penso no pobre leitor. É como um menage a trois e você precisa ser fiel tanto ao escritor do original como ao leitor da tradução". As suas perguntas que ela faz para si mesma a fim de garantir a qualidade das suas traduções são: "Está coerente internamente?" e "É adequado para o mercado?"

Entre outras perguntas feitas aos colegas estavam:

  • O livro é uma tarefa que consome 100% a mente? Em outras palavras, os tradutores leem ou trabalham com mais de um livro de cada vez?

  • Quando e como você lê? Ou seja, você lê para compreender ou traduz para compreender?

  • Você consulta críticas e resenhas sobre o livro que está traduzindo?

  • Você fala com os editores sobre as suas escolhas na tradução?

  • Você segue algum método ou "deixa tudo fluir"? Ou seja, cria glossários, faz anotações durante a leitura ou vê como sai o primeiro esboço?

  • Como você lida com expressões antigas? Pesquisa equivalentes ou inventa alguma coisa no idioma de chegada para parecer mais contemporâneo?

  • E as palavras carregadas de sentido? Faz uma tradução direta, usa um substituto ou cria um termo novo?

  • Ao lidar com a voz de um autor/personagem do sexo oposto, você geralmente encontra problemas?

  • Como você traduz diálogos?

  • Qual é a sua opinião sobre as notas de tradução? Você as considera uma forma de "manipular" os leitores ou prefere permanecer em silêncio?

  • Durante os estágios finais do projeto, você faz alterações em menor ou maior escala?

  • Você sempre tem a chance de revisar a sua tradução depois de passar pelo editor? E se faz isso, fica com a última palavra?

As conclusões a que Mercedes chegou com a sua pesquisa foram as seguintes:

  1. Não existe método infalível ou caminho já traçado quando o assunto é a tradução de livros.

  2. Cada indivíduo tem um perfil, conjunto de habilidades e experiências que exigem um método individual.

  3. Da mesma forma, certos projetos exigem abordagens diferentes.

  4. A criatividade impera, não só em um método geral, mas da maneira como um projeto é encarado.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.