Tentativas atribuladas de traduzir a literatura marginal

Rafa Lombardino

Durante o 56º Congresso Anual organizado entre os dias 4 e 7 de novembro de 2015 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Miami, fui a uma palestra da Divisão Literária cujo título era "Tentativas atribuladas de traduzir a literatura marginal." As palestrantes foram Vivan Steemers, professora associada de Francês na Universidade de Western Michigan que publicou Le (néo)colonialisme littéraire ("O [neo-]colonialismo literário"), livro sobre traduções em inglês da literatura subsaariana em francês, e Faiza Sultan, tradutora e intérprete de árabe e curdo e fundadora da editora DarSafi, que se especializa na traudução e publicação de obras literárias e criativas.

Vivan deu início à palestra falando que, para os escritores da África Subsaariana, o ato de escrever em si já implica a tradução porque, em vez de escreverem em seus idiomas nativos, eles escrevem em francês, o idioma dos seus antigos colonizadores, a fim de ganhar mais exposição.

Ela destacou que, apesar de a publicação de escritores subsaarianos continuar sendo modesta, a quantidade de livros provenientes da região que são traduzidos para o inglês tem aumentado desde a década de 1950. Dois dos principais livros que deram início à essa tendência foram The African Child ("A criança africana"), de Camara Laye (que originalmente havia sido pubicado como The Dark Child ou "A criança escura"), e Cruel City ("Cidade cruel") de Mongo Beti.

De acordo com ela, esse aumento ocorre principalmente graças à Série escritores africanos publicada pela editora Heinemann Educational Books entre 1962 e 2000 e, mais recentemente, graças à criação de editoras menores e independentes. Mesmo assim, ela disse que "editoras cínicas e comerciais" na França atuam como "filtros de ideias" por não estarem cientes da existência desses escritores em francês e não promoverem mais a tradução deles para o inglês. "Esses escritores ficam à mercê do estabelecimento literário parisiense", Vivan escreveu em seu livro.

Logo foi a vez de Faiza Sultan falar sobre outro grupo de escritores que vivem à margem, mais especificamente procuzindo literatura árabe sobre os curdos, e como poucos deles são traduzidos para o inglês.

Ela destacou que as editoras no Iraque não estão autorizadas a publicar nada antes de receber a aprovação do governo iraquiano. "Eles dizem que isso é editar; eu chamo isso de censurar", ela completou.

Igualmente, os leitores iraquianos não têm acesso a alguns livros vindos de diferentes partes do mundo, pois o conteúdo é proibido por motivos políticos, culturais, sociais e morais; aqueles que contrabandeiam tais livros enfrentam punições impostas pelo governo e até mesmo correm o risco de serem executados. Por causa dessa censura, Faiza explica que fica mais fácil para os exilados publicarem seus livros e, consequentemente, a maioria das obras sobre o povo curdo é escrita em árabe ou persa.

Faiza falou então sobre a sua iniciativa própria de criar uma pequena editora para fechar a lacuna entre o oriente e o ocidente e contar histórias desconhecidas sobre o seu povo. O título que ela apresentou a quem estava presente na palestra foi In the Depths of Hell ("Nas profundezas do inferno") de Salam Ibrahim, a história tocante de um homem que sobreviveu a uma guerra química no Iraque.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.