A nova normalidade: Cuba e o poder da tradução

Rafa Lombardino

Durante o 56º Congresso Anual organizado entre os dias 4 e 7 de novembro de 2015 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Miami, fui a uma palestra cujo título era “A nova normalidade: Cuba e o poder da tradução”, apresentada por Esther Allen, escritora e tradutora que leciona na Baruch College e foi selecionada como palestrante ilustre da Divisão Literária.

Esther recebeu por duas vezes a bolsa de tradução pelo Fundo Americano de Artes e foi bolsista convidada pelo Cullman Center for Scholars and Writers da Biblioteca Pública de Nova Iorque. Ela foi uma das co-fundadoras do PEN World Voices Festival em 2005 e orientou o trabalho do fundo PEN/Heim de tradução entre 2003 e 2010. Em 2006, o governo francês a nomeou Chevalier de l’ordre des arts et des lettres e, em 2012, ela recebeu o Prêmio Feliks Gross Award da City University of New York Academy for the Arts and Sciences.

A palestra de Esther na ATA se baseou em um artigo com o mesmo título que ela escreveu para a Words Without Borders apenas dois dias após a normalização das relações entre EUA e Cuba ter sido anunciada em 17 de dezembro de 2014. Ela mencionou que muitos comentáristas norte-americanos fizeram previsões de uma "invasão de turistas, comerciantes e investidores". "A mentalidade é que Cuba existia em um vácuo e, agora, será americanizada do dia para a noite", ela discordou, explicando que o país não desconhece a globalização, pois o fundador cubano José Martí já havia escrito bastante sobre as origens diversas de Cuba.

Leitura Recomendada: Cuba: We Never Left (em inglês)
Escrito por Esther Allen para The New York Review of Books

A palestrante nos controu que Martí passou grande parte da vida adulta na Cidade de Nova Iorque, onde escreveu sobre os EUA e teve os seus textos publicados em toda a América Latina quando Cuba ainda era colônia da Espanha. Martí foi morto pelas forças espanholas no início da ressurreição que ele havia iniciado, o que resultou na Guerra Hispano-Americana, que por sua vez levou à ocupação de Cuba pelos Estados Unidos, que estabeleceram uma base naval na Baía de Guantánamo. O resto entrou para a história, como já sabemos.

Na qualidade de tradutora dos ensaios de José Martí reunidos em "Selected Writings" e atual Bolsista de Biografia do Leon Levy Center for Biography, onde trabalha em um livro sobre a vida de Martí, Esther analisou como o presidente Barack Obama mencionou o patrono de Cuba em seu discurso. "Obama se dirigiu ao povo cubano diretamente. Ele abriu o discurso atribundo a seguinte frase a José Martí: 'Liberty is the right of every man to be honest' [Liberdade é o direito que todo homem tem de ser honesto]".

Ela logo quis saber como Obama havia chegado àquela citação de Martí e se ele havia tomado uma decisão conscientemente de deixar a segunda parte de fora do discurso.

Libertad es el derecho que todo hombre tiene a ser honrado y a pensar y hablar sin hipocresia.
― MARTÍ, José. Tres héroes: Bolívar, San Martín, Hidalgo. “La edad de oro” (1889), parte de uma série de livros infantis bastante popular em Cuba.

As possíveis fontes encontradas foram:

“Freedom is the right of every man to be honored, and to think and speak without hypocrisy”
― Guia em inglês do Monumento a José Martí em La Habana, Cuba, em fevereiro de 2015.

“Liberty is the right of every man to be honest, to think and to speak without hypocrisy” 
― Exercício de tradução de alunos cubanos, citada em Enseñar inglés básico a partir de textos de José Martí (estudo pedagódico realizado em Santa Clara, Cuba, em 2011.)

“‘Liberty,’ Martí wrote, ‘is the right of every man to be honest, to think and to speak without hypocrisy.’”
― Carlos Ripoli em carta enviada para The New York Review of Books ao reprovar a "marxificação de Martí” em julho de 1988.

Esther continuou dizendo que, no fim do século 19, Martí escrevia para Patria, publicação cuja sede ficava em 120 Front Street, que hoje é conhecida como Wall Street. "Ele escrevia em inglês como um espanhol", ela explicou, "porque os americanos estavam mais interessados no que os europeus tinham a dizer dos EUA, em vez de um latino-americano de um país que ainda nem existia". Ele também escreveu uma carta reprovando um jornal de grande circulação, que publicara um artigo sobre como a anexação de Cuba aos Estados Unidos não seria nada desejável.

Curiosidade: José Martí identificou a falta de livros infantis seculares. Ele estava escrevendo material sobre o assunto, mas o patrocinador brasileiro cortou o financiamento depois de se dar conta de que o conteúdo não seria religioso.

A palestrante disse que o trabalho de Martí como jornalista era pago, mas não pagava tão bem, então ele se voltou para a tradução. Martí traduziu "Ramona" de Helen Hunt Jackson, que foi publicado cerca de trinta anos depois de "A cabana do Pai Tomás" de Harriet Beecher Stowe, ao qual é comparado, pois aquele promoveu a conscientização das dificuldades enfrentadas pelos mexicanos-americanos, assim como este promoveu a conscientização das dificuldades enfrentadas pelos escravos nos Estados Unidos. Martí decidiu autopublicar a sua tradução de "Ramona" e distribuir a versão em espanhol principalmente no México. Esther disse que ele chamava o livro de nuestra novela (nosso romance), pois acreditava que o livro falava sobre a verdadeira luta dos latinos dentro do contexto dos anos que se seguiram após a Guerra Mexicano-Americana.

Voltando à normalização das relações entre EUA e Cuba, Esther nos lembrou que, no início do século 20, o antropólogo cubano Fernando Ortíz cunhou o termo "transculturação" para descrever as características culturais distintas da história cubana. "Essa história contém lições consideráveis sobre os papéis que a tradução pode desempenhar no processo de globalização", ela garantiu. Vamos esperar para ver se agora a nova geração de tradutores americanos poderá entrar em contato com a cultura cubana para aprender mais sobre a sua literatura. "Os canadenses que visitam Cuba todos os anos não têm medo de pegar sapinho comunista", ela concluiu, dando a entender que os vizinhos dos EUA, assim como os ingleses e australianos, podem estar melhor equipados para tentar trazer a literatura de Cuba para os países de língua inglesa no momento.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.