O tradutor como autor

Durante o 56º Congresso Anual organizado entre os dias 4 e 7 de novembro de 2015 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Miami, fui a uma palestra da Divisão Literária cujo título era “O tradutor como autor”. O painel foi composto por Mercedes Guhl (administradora da Divisão Literária da ATA), Abe Haak (tradutor de árabe, francês e alemão para inglês) e Faiza Sultan (tradutora e intérprete de árabe e curdo).

Abe Haak fez uma introdução do material, que se concentrou na teoria e prática apresentada em “Tradutor como autor: perspectivas sobre tradução literária e procedimentos do congresso internacional”, um evento realizado na Itália em 2009 para debater a autoria em tradução.

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O primeiro assunto debatido pelo painel foi quando é aceitável que os tradutores apaguem ou substituam conteúdos do livro que estão traduzindo. Alguns exemplos incluem informações complementares que apóiam a ideia central, mas tornam-se inúteis quando retiradas do contexto original: referências a locais históricos, personagens e rituais, além de números e estatísticas. A fim de apoiar esse argumento, foi mencionado um fragmento de “How the García Girls Lost Their Accent” [Como as meninas Garcia perderam o sotaque], de Julia Alvarez, no qual uma parte do diálogo foi omitida na tradução para o espanhol porque se referia ao sotaque da personagem, o que foi transformado então em uma explicação:

“Stop!” Carla cried. “Please stop.”
“Eh-stop!” they mimicked her. “Plees eh-stop.”

“¡Paren!”, lloró Carla. “Por favor, ¡paren!”
Los muchachos la remendaron, burlándose de su acento hispano en inglés.

(Os meninos a imitaram, fazendo piada com o sotaque hispânico dela em inglês.)

Outro assunto abordado pelo painel foi quando uma explicação ou adição é bem-vinda ou até mesmo necessária. As situações apresentadas incluíram quando a ideia principal poderia se tornar confusa, contraditória ou simplemente perder o sentido quando retirada do contexto. Esse também seria o caso quando diferenças culturais ou referências históricas fazem mais sentido quando apoiadas por uma breve explicação. Da mesma maneira, substituições podem ser apresentadas por um tradutor quando uma declaração ou um exemplo se perde na tradução e existem referências, situações ou circunstâncias equivalentes que podem servir de substituto.

Outros tópicos incluíram adaptação (quando as informações centrais do texto não podem ser traduzidas diretamente ou substituídas por um equivalente) e supressão (quando não há problema ao remover passagens consideradas inapopriadas ―e quando isso se torna censura).

Finalmente, Abe falou sobre os graus de intimidade, quando tradutores vão do literal para o criativo, e os graus de separação, ou seja, o nível de interferência aos quais eles podem recorrer ao interferir nos textos que estão traduzindo:

  • Separação de noção = inspirado por

  • Separação esquemática = com base em

  • Separação textual = traduzido de

"Quanto mais você se aproxima da criatividade, parece que menos dinheiro você ganha", Abe brincou. "Livros de interesse geral; é aí que você exercita mais a sua criatividade", Mercedes sugeriu.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.