Cuidado com o filtro falível e o narrador pouco confiável: Como aumentar a sua lealdade profissional

Rafa Lombardino

 

Durante o 56º Congresso Anual organizado entre os dias 4 e 7 de novembro de 2015 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Miami, fui a uma palestra da Divisão Literária cujo título era "Cuidado com o filtro falível e o narrador pouco confiável: Como aumentar a sua lealdade profissional", apresentada por Susan Xu, palestrante sênior do programa de tradutor e intérprete da Escola de Artes e Ciências Sociais da Universidade SIM em Cingapura. Ela concluiu recentemente sua tese de doutorado na Universidade Nacional de Cingapura, na qual falou sobre traduções de autobiografias, e o tema da sua palestra se baseou nas suas descobertas.

Susan explicou que o "filtro falível" e o "narrador pouco confiável" são duas formas de falta de lealdade em narrativas literárias. No primeiro, o narrador convida os leitores a divertirem-se com ironia às custas do personagem. No segundo, o autor comunica aos leitores uma mensagem irônica secreta por meio do narrador.

Ela também esclareceu a diferença entre "autor implícito" (que demonstra os pontos de vista psicológicos e ideológicos da consciência do personagem) e o "autor real" (que demonstra o estilo visual e linguístico da consciência do narrador). "Personagem e narrador não são a mesma pessoa. O personagem vive no passado; o narrador é mais velho, avaliatório e mais experiente", ela resumiu, indicando que também há diferenças entre o "tradutor implícito" (cujo nome é indicado no livro) e o "tradutor real" (uma iniciativa conjunta do tradutor, do revisor, do editor, etc.)

Durante a palestra, Susan citou uma autobiografia política para ilustrar como os filtros falíveis são transferidos e transformados no processo de tradução a fim de ajudar os tradutores a refletirem sobre sua própria prática e aumentar a lealdade profissional. Os exemplos apresentados foram extraídos de uma autobiografia escrita por Lee Kuan Yew, fundador de Cingapura que faleceu no começo do ano. Ele escreveu todos os seus textos biográficos em inglês, seu idioma materno, e o livro analisado por Susan foi "My Lifelong Challenge: Singapore’s Bilingual Journey”, publicado em duas edições separadas, porém semelhantes: 400 páginas em chinês pela editora Lianhe Zaobao e 388 páginas em inglês pela The Straits Times Press.

Susan nos lembrou que os tradutores correm o risco de interferir inadvertidamente em biografias ao usar a própria voz e perspectiva. Essas interferências podem ocorrer na forma de reorientações (tomar decisões sobre informações redundantes ou inadequadas), autorreflexões e autorreferências (usar expressões, polissemias, jogos de palavras e paratextos próprios) e super-determinação contextual (omitir as contradições do autor e apagar ou criar ironias).

Para evitar trazer essa "outra voz" para a tradução, os tradutores precisam analisar os elementos apresentados no primeiro plano narrativo, identificando o padrão linguístico característico do autor. No livro de Yew, esses elementos de primeiro plano são marcados por contrastes sintáticos (brevidade súbita) e sublexicalização (seja com a visível supressão de um termo ou a substituição de uma expressão complexa por um único termo mais simples).

Uma das interferências mais relevantes que Susan identificou no livro de Yew foi a maneira como os personagens são apresentados. Por exemplo, o autor demonstrou certo nível de desrespeito pela figura paterna apresentada no livro e descreveu a avó como uma pessoa reclamona e autoritária. Essas noções ficaram implícitas na escolha de palavras do autor, mas a tradução parece ter sido culturalmente adaptada nesses dois pontos, considerando o respeito tradicional que as culturas asiáticas têm para com os mais velhos.

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Depois de apresentar esses conceitos, Susan tirou algumas conclusões do seu estudo sobre traduções de autobiografias:

  • O ponto de vista na interação entre narrador, personagem e leitores acentua um autor implícito que amplamente se adere à visão geralmente percebida como normativa do autor autobiográfico
  • As discrepâncias entre fatos, atitudes e ideologias apresentam uma personificação alterada do autor implícito, que se afasta da norma do autor autobiográfico
  • As discrepâncias são inconscientes do tradutor, na tentativa de adaptar a narrativa à ideologia dominante da cultura do idioma de chegada e projetar uma imagem positiva do autor implícito entre os leitores do idioma de chegada.

Por fim, a palestrante nos deu algumas dicas para aumentar a lealdade profissional: "Cada palavra escolhida faz a diferença. Examine as características do primeiro plano a fim de refletir sobre o tom autoral. Além disso, ajuste o seu ponto de vista e alinhe a sua consciência com a do narrador ou personagem".


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RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira e vive na Califórnia. É a autora de "Tools and Technology in Translation ― The Profile of Beginning Language Professionals in the Digital Age," baseado na aula que ministra na UCSD Extension class. Rafa trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, começou a unir forças com escritores autopublicados para traduzir seus livros para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, um blog coletivo sobre tradução e literatura, ela também dirige a Word Awareness, uma pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), projeto que promove a literatura brasileira em todo o mundo.