O efeito do jabá na literatura

Jana Lauxen*

Saiba que há muito mais por trás de um texto que apenas qualidades – e que as suas implicâncias com determinados autores podem não ser infundadas.

O termo ‘jabá’ começou a ser utilizado na indústria da música brasileira para denominar uma espécie de suborno, onde a gravadora paga para emissoras de rádio e TV executarem a música de determinado artista.

Naturalmente que a indústria da literatura e das artes em geral não demorou a adotar tal medida, para ampliar a divulgação (e a venda) de seus escritores e artistas.

Sabe aquele cantor sertanejo do qual você nunca ouviu falar, e repentinamente sua música é abertura da novela, o sujeito aparece em todos os programas de TV do sistema solar, e seu disco toca 24 horas por dia nas rádios? Não, ele não é um talento descoberto e finalmente reconhecido. É jabá.

O mesmo acontece na literatura. Um belo dia você fica sabendo da existência de um novo escritor brasileiro, revelação em determinado gênero. De repente, para onde você olha, lá está o novo-autor-brasileiro-revelação: na TV, nas capas dos jornais, no anúncio da revista, na lista das indicações de determinada publicação reconhecida, em todas as principais livrarias do país, com banners e pontos de venda personalizados. Não demora e seu livro vira filme, série, curta-metragem, e a obra sobe para a primeira colocação na lista dos mais vendidos.

Milagre? Sorte? Não. Jabá

Você talvez se pergunte: mas quem é que paga esse tal de jabá? E por quê?

O jabá pode ser pago por qualquer um, e em se tratando de literatura geralmente é a editora, o agente, um patrocinador, ou mesmo o próprio autor. Os três primeiros o fazem por que este investimento lhe trará retorno financeiro, claro. Quanto mais conhecido um produto é, mais ele vende, e quanto mais ele vende, mais ele gera lucros. Já o autor, quando pode (e ele raramente pode), costuma investir para alcançar suas pretensões literárias mais rapidamente.

O fato é que ignorar a existência do jabá é ignorar a presença de um javali africano no meio da sala de jantar.

Assim, muitas vezes os novos autores exigem de sua editora algo que ela não pode lhes oferecer, simplesmente por que não possui dinheiro para tanto. Não pense que, para ser capa do caderno de cultura de determinado veículo, ou mesmo para ter uma notinha no rodapé da contracapa, o investimento é pequeno. Acredite: não é qualquer mil real que te colocará em destaque em um jornal ou revista de grande circulação.

Em minha opinião, o jabá é nocivo por diferentes motivos, entre os quais, estes:

  • Promove o que muitas vezes é ruim, em detrimento do que é bom
  • Promove o que é bom, mas exclui sumariamente o que é ainda melhor
  • Promove somente quem pode pagar, ou quem tem alguém por trás disposto a investir. Isto é: elitiza e coloca as cifras antes do talento
  • Quem está pagando dá as cartas; logo, pode interferir livremente na obra, muitas vezes desrespeitando sua autoria
  • Torna a livre competição desleal.

E aqui cabe um adendo: editoras pequenas, que são as que, dentro de suas possibilidades, dão espaço e oportunidade ao novo autor, não possuem estrutura financeira para competir de igual para igual com grandes editoras, muitas delas multinacionais. Estamos falando de selos graúdos, que investem em um autor o dobro do que uma pequena editora fatura por ano.

É claro que esta questão da livre competição abarca todas as áreas de nossas vidas. O tio do mercadinho na esquina de sua casa não tem como competir com o grupo Pão de Açúcar.

Mas friso este ponto, pois ele não se restringe somente ao tio do mercadinho. Ele alcança todos, absolutamente todos os segmentos comerciais de nossa sociedade, e desde que o mundo é mundo quem pode mais, chora menos. E poder mais, neste caso, significa ter mais dinheiro para investir em propaganda – e refiro-me aqui à propaganda descarada e, principalmente, à propaganda velada.

Percebam que nem mesmo a internet, que teoricamente é território livre, escapou do poder das cédulas; e o Facebook talvez seja o maior e melhor exemplo. Você tem cinco mil amigos, mas suas postagens têm três curtidas. Ora! Por mais que sua postagem tenha sido uma redundante bobagem, é impossível que, entre cinco mil pessoas, somente três tenham curtido sua publicação.

Já ouvi dizer que menos de 5% de nossos contatos recebem nossas atualizações via Facebook. Mas, experimente pagar, e cinco milhões de pessoas terão acesso a cada caractere que você conseguir postar.

A situação é desesperadora? Não posso dizer que não. Mas ainda existe luz no fim do túnel, e não é o trem vindo em nossa direção.

Não posso falar de outros mercados, mas dentro do mercado editorial ainda é possível conseguir espaço sem ter uma agência de publicidade atuando nos bastidores – e, sim: conheço casos em que publicitários trabalham sobre um autor tal qual trabalham sobre uma marca de sabonete.

Mas enfim: ainda há esperança.

Os blogs literários, por exemplo, são uma alternativa bem interessante – e existem centenas deles internet afora. A maioria está plenamente disposta a divulgar o novo autor, resenhando seu livro e promovendo seu trabalho. Basta colocar no Google Blog + Literatura e entrar em contato. Trata-se de uma alternativa valiosa, tanto para editoras, quanto para autores independentes.

Buscar fechar parcerias com veículos de comunicação menores, como os de cidades pequenas, também é uma boa opção. Jornais e revistas, e até emissoras de rádio e TV, de menor abrangência e circulação, costumam ser mais abertos ao recebimento e divulgação de novos autores.

E, claro, trabalhar muito e sempre. Para quem pretende encontrar seu lugar embaixo do sol, e não possui muitos mil reais para investir, é imprescindível ter paciência e perseverança. O tio do mercadinho da esquina de sua casa jamais poderá concorrer diretamente com o grupo Pão de Açúcar, mas pode angariar uma clientela boa e fiel, e viver muito bem, obrigado.

Não precisamos entrar em pânico. No entanto, há razões para ficarmos atentos ao que a TV, as rádios e os grandes jornais e revistas procuram nos enfiar goela abaixo.

Saber que o jabá existe já é motivo mais do que suficiente para pensarmos duas vezes se realmente queremos ler determinado livro do autor-revelação, ver determinado filme do diretor-revelação, ou ouvir determinada música do cantor-revelação.

Por que pode ser que alguém esteja querendo que você queira o que, na verdade, você não quer.


NOTA DA EDIÇÃO: Este artigo foi publicado originalmente no site Homo Literatus e é reproduzido aqui com a permissão da autora.


JANA LAUXEN é produtora cultural e escritora. É autora dos livros "Uma carta por Benjamin" e "O túmulo do ladrão" e da historieta "Pela honra de meu pai", além de ter participado de mais de 15 coletâneas. Atua como colunista da revista Café Espacial e do site Homo Literatus e foi editora da versão brasileira da revista eletrônica inglesa 3:AM Magazine. Atualmente trabalha na editora Os Dez Melhores e é redatora na agência Teia de marketing literário virtual.