Quando um tradutor habita a mente de um autor

Ao ler um livro, você conhece os personagens e os lugares imaginados pelo escritor e aproveita a história que está sendo contada. Quando você traduz um livro, acaba recriando a história em outro idioma para o público-alvo poder ter as mesmas sensações.

Os tradutores passam bastante tempo com um livro, entram na cabeça do escritor e seguem os mesmos passos para garantir que o resultado final será o mais fiel possível. Mas o que acontece quando o material que você está traduzindo é autobiográfico, um romance epistolar de natureza bem íntima ou uma troca de cartas? É aí que você realmente passa a habitar a mente do autor.

Acabei de passar por isso recentemente ao trabalhar com o Traviesa, um site dedicado à ficção contemporânea que se autodefine como "um parque de diversões literário". Foi um prazer participar da tradução de português para inglês da troca de correspondências entre os escritores brasileiros Emilio Fraia e Antônio Xerxenesky.

Eles falaram de tudo: viagens, artes, filmes, cultura, leitura, escrita, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e até tradução (Xerxenesky está traduzindo para português o livro Kassel no invita a la lógica, de Enrique Vila-Mata).

Durante a tradução do que eles escreveram um para o outro, eu senti como se tivesse passado pelos mesmos lugares que Emilio visitou no México, ou ido até o château onde Xerxenesky e a namorada tomaram um dos melhores vinhos das suas vidas na França.

Essa espiadela tão próxima na conversa entre dois amigos me fez querer ler os livros que eles recomendaram um para o outro, visitar um museu no Brasil com instalações hipnotizantes e sinestésicas (de acordo com as descrições fantásticas que eles fizeram) e assistir ao filme que os dois adoraram odiar.

Faz algumas semanas desde que eu traduzi a correspondência dos dois, mas ainda me pego revivendo as lembranças deles como se fossem minhas, já que tentei fazer o máximo para seguir os seus passos e levar as mesmas experiências para os leitores de inglês. Espero ter feito um trabalho decente e que os leitores gostem tanto do que leram quanto eu.


NOTA DO EDITOR: Leia também a tradução de português para espanhol da correspondência dos escritores, que foi feita por Julia Tomasini.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).