3 diferenças entre livros impressos e digitais: a perspectiva de uma editora

Todo mundo está falando sobre as diferenças entre livros impressos e digitais do ponto de vista do leitor. Quem ama a cópia física fala do perfume das páginas, do toque do papel e como arruma os exemplares na estante. Os que preferem as cópias eletrônicas falam da conveniência, porque podem ler onde quiserem usando um smartphone, tablet ou leitor favorito, todos eles aparelhos leves e que podem armazenar milhares de títulos.

Mas, quais são as diferenças entre os livros impressos sob demanda (conhecidos como "POD" em inglês, de "print-on-demand") e os livros digitais do ponto de vista daqueles que montam o produto? No que os editores têm que pensar e o que eles precisam prever quando o assunto é fazer o design e o planejamento visual do livro? Vou falar um pouco das minhas experiências quando organizei os dois volumes da coletânea Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), dedicada a contos brasileiros traduzidos para o inglês.

 

1. Numeração de páginas x Cliques interativos

Isso é algo bem óbvio: você precisa numerar as páginas para saber onde parou de ler um livro ou encontrar um capítulo. Porém, isso não é necessário num livro eletrônico, não é? Uma das maiores vantagens da leitura digital é que você pode mudar o estilo e o tamanho da fonte no aparelho. E, depois que um leitor muda essas configurações, você sabe que a maneira como você concebeu o visual do livro digital vai por água abaixo...

Então, o mais importante é compreender a principal diferença entre a cópia impressa e a eletrônica: não é necessário numerar as páginas no último caso, seja no canto da página ou no índice. Do que você precisa mesmo é links no índice para levar o leitor ao respectivo capítulo ou parte do livro.

O mesmo vale para as notas de rodapé, já que elas não aparecerão da mesma maneira (no pé da página) e deveriam aparecer como notas no fim do livro, ou seja, palavras seriam associadas a essas notas por meio de links, em vez de números sobrescritos para organizar a informação.

E, enquanto você estiver com a mão na massa, capriche na interatividade ao criar links em outras partes do livro para páginas externas, tais como o site do escritor ou outros livros que você tenha escrito.

Esses são os passos que eu segui ao editar os livros do CBSS no formato digital: o índice mostra os títulos de cada conto e o nome do respectivo autor com links para cada página relevante. Dessa maneira, os leitores podem clicar e ir direto para o conteúdo desejado.

Duas versões do índice: impresso (esq.) e eletrônico (dir.)


2. Imagens e páginas de autor

Biografia do autor na versão impressa

Biografia do autor na versão impressa

Lembra que eu falei sobre o planejamento visual do livro? Então, na versão impressa você pode colocar uma imagem em um canto da página e o texto vai contorná-la. Você pode aumentar ou diminuir o tamanho da imagem para alinhá-la ao parágrafo, isto é, para evitar que muitas ou poucas linhas fiquem ao redor da imagem.

E, onde é que você provavelmente vai usar imagens em um livro? Na página sobre o escritor, é claro! Falando nisso, se você geralmente não coloca uma página sobre o autor no final do livro, tá marcando bobeira! Essa é uma ótima oportunidade de colocar uma breve biografia, dar mais informações sobre os seus livros e a sua carreira e deixar links para o seu site ou outros títulos que escreveu. Hoje em dia, é preciso prender o leitor não só com uma história original, mas com a sua história de vida também!

Planejar tudo no papel é fácil, mas a melhor coisa a fazer na versão digital é não alinhar imagens com texto. Coloque-a centralizada, acima ou abaixo do parágrafo. Assim, não importa o que os escritores façam para personalizar o visual do texto no aparelho de leitura, a sua imagem nunca vai atrapalhar e o alinhamento não vai ficar esquisito.

Biografia do autor na versão digital

Biografia do autor na versão digital

Quando editei os dois volumes do CBSS, usei dois modelos: o impresso mostra a foto do autor e uma breve biografia no lado esquerdo da primeira página que traz a tradução do seu respectivo conto e, na versão eletrônica, as biografias foram organizadas alfabeticamente no fim do livro, com a foto posicionada logo acima da biografia.

Na versão eletrônica, ficou tudo mais centralizado, já que os leitores podem ver a foto, a breve biografia e todos os links necessários para saber mais sobre o escritor (e-mail, site/blog, Twitter, Facebook, YouTube e outros livros publicados). Para o livro impresso, por causa do espaço limitado, optamos pela foto com biografia na versão em inglês do conto e a foto com as informações de contato na versão em português (original).


3. Preços e promoções

Ah, o debate que vemos desde sempre, pelo menos desde que surgiram os livros digitais: por que o livro eletrônico às vezes é tão caro quanto a versão impressa? Bom, cada editora ou escritor independente tem seus próprios motivos para estabelecer preços diferentes para cada versão de um livro, mas o que posso dizer da minha experiência pessoal é que os livros digitais podem (e devem!) ser mais acessíveis.

Vamos apelar para a matemática: cada exemplar de um livro físico precisa ser impresso, o que é feito em papel e papel custa dinheiro. A distribuição dos livros impressos também custa dinheiro. Então, se você decidir disponibilizar o seu livro em formato impresso, haverá despesas associadas ao custo da impressão sob encomenda. Com um livro digital você só precisa de um original e várias cópias podem "viajar" pela internet até destinos diferentes, ao mesmo tempo, sem muito custo adicional.

Assim sendo, ao calcular o preço dos seus livros, verifique se ele reflete as despesas correspondentes usando aquelas calculadoras convenientes oferecidas pela sua plataforma preferida de publicação. Durante o processo, você poderá estimar quanto ganhará em royalties e qual será a comissão que a plataforma receberá. E, apesar de maximizar os seus royalties parecer uma boa ideia, você poderá alcançar um público maior se oferecer os livros digitais a um preço mais em conta.

Além disso, se você decidir fazer uma promoção, fica mais fácil trabalhar com cópias digitais. Se você prometeu distribuir livros autografados, por exemplo, precisará comprar algumas cópias (com desconto, obviamente). Foi isso que fiz durante uma palestra para a Associação Americana de Tradutores realizada em San Antonio, no Texas, quando levei 20 cópias para ajudar com a distribuição e promover o projeto. Agora, se você distribuir cópias digitais, poderá pagar bem menos, criar cupons de desconto para algumas campanhas ou até mesmo enviá-los gratuitamente, dependendo do seu canal de distribuição.

Bom, estas são as três principais lições que eu aprendi ao organizar os dois volumes do CBSS. Quais lições você gostaria de compartilhar sobre as suas próprias experiências com publicação?


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).