Porque uso ferramentas CAT para traduzir livros

Computer-Assisted Translation, ou "tradução auxiliada por computador" ―por isso chamamos essas ferramentas de CAT. Se você não está no ramo das traduções, ou traduz livros, talvez não esteja familiarizado com o termo. Não, CATs não fazem o trabalho por si mesmas; continuamos precisando de seres humanos para traduzir documentos (e livros) de um idioma para o outro porque traduções feitas por máquina não têm "sexto sentido" ou "sensibilidade cultural" e simplesmente não servem. Mas isso já é outra história.

O que essa tecnologia de tradução faz é guardar o que os tradutores digitam. Cada frase de um documento-fonte é isolada para que o tradutor digite a respectiva tradução e a combinação é então guardada em um banco de dados. Isso é bastante útil quando traduzimos materiais técnicos e trabalhamos com o mesmo cliente durante muito tempo, porque há grandes chances de você encontrar frases que são 100% idênticas ou bastante parecidas com algo que já traduziu no passado. Então, em outras palavras, as CATs funcionam como a sua memória e você não precisa se lembrar ou procurar em arquivos antigos para ter certeza de que vai usar as mesmas palavras que usou anteriormente.

Bom, por que estou falando sobre isso em um blog dedicado a traduções de livros? As frases de um livro quase nunca se repetem, não é? Elas se repetem sim! Recentemente, tive prova disso, o que demonstra o quanto as ferramentas CAT podem ser úteis. Quando traduzi o livro "The Alliance" de Beto Córdoba, encontrei várias repetições que justificam o uso dessa tecnologia, considerando o fato de o livro ter capítulos centrados em personagens diferentes com vozes bastante distintas, além de vários diálogos internos e flashbacks, então é natural que frases importantes sejam enfatizadas ao longo da história.

Em linhas gerais, depois de carregar um documento em uma ferramenta CAT, você vê a frase original do lado esquerdo ou na parte superior da tela de tradução e então digita a tradução do lado direito ou na parte inferior da tela. Essa unidade de tradução (idioma A = idioma B) é então gravada em um banco de dados e, quando aquela mesma frase ou algo semelhante aparece novamente, a CAT recupera a unidade de tradução gravada anteriormente para você decidir se quer usar exatamente a mesma frase ou adaptá-la de acordo com as mudanças na nova frase original.

Além disso, as CATs também são úteis para administrar a terminologia em um glossário. Alguns livros podem ter palavras-chaves que você precisará usar várias e várias vezes. Talvez um personagem use um linguajar em particular e você queira permanecer fiel àquilo usando os mesmos equivalentes ou nível de linguagem na tradução, então é importante manter um vocabulário homogêneo. A maneira mais fácil de fazer isso é usando uma CAT também.

Enquanto você traduz uma frase, pode selecionar uma frase ou expressão na fonte e selecionar os termos correspondentes na tradução, salvando a combinação em um banco de dados chamado "glossário". Fazer a CAT exibir palavras que já estão no seu glossário e são relevantes para a frase que você está traduzindo no momento é muito melhor do que usar glossários em planilhas, porque você não precisa parar para consultar alfabeticamente, como faria em um dicionário, até achar a palavra que está procurando. Acredite, isso ajuda a economizar muito tempo e esforço e garante a homogeneidade.

A CAT que uso desde 2008 se chama Swordfish (sim, "peixe espada") e a escolhi porque usamos computadores Linux no nosso escritório e esta é uma das poucas ferramentas que realmente funcionam em qualquer sistema operacional sem precisar de emuladores. Além disso, ainda tenho a vantagem de trabalhar no computador ou no laptop, porque só preciso desconectar a licença em um e conectá-la no outro para dar continuidade ao trabalho de onde parei. Também é compatível com outras ferramentas, então posso trabalhar com clientes e colegas que usam outros programas sem muita complicação.

Se você é tradutor e nunca testou uma ferramenta CAT, recomendo que tire proveito dos testes gratuitos de 30 dias para ter uma ideia do que esses programas têm a oferecer, esteja você traduzindo documentos técnicos ou livros. Tenho certeza de que a CAT vai ser de grande ajuda.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).