Os tradutores como personagens de ficção

Vicente Fernández González

 

ADVERTÊNCIA: 
O presente texto apresenta linguajar forte. 

Leia à sua própria discrição

"O incessante processo de tradução ao qual os seres humanos inevitavelmente estão sujeitos, desde o nascimento até a morte (como disse o sábio Lluís Duch em Mito, interpretación y cultura), constitui um sintoma muito eloquente da 'instabilidade gramatical' que caracteriza a condição humana. Se viver é falar e falar é traduzir, está claro que viver é traduzir".

A conjetura generalizada dessa "instabilidade gramatical" na nossa mais ou menos tardia contemporaneidade nutre uma inquietude e um interesse sem precedentes pelo sintoma, pelo "incessante processo de tradução". Talvez seja por isso que a metáfora da tradução é cada vez mais citada por políticos, antropólogos e artistas hoje em dia...

Uma das obras mais representativas dessa tendência talvez seja um filme de título ilustrativo: Lost in Translation ("Encontros e desencontros" ou, literalmente, "perdidos na tradução" de 2003), dirigido por Sofia Coppola. Com referência a tradução e cinema ―assim como à tradução do cinema―, temos dois títulos de destaque em espanhol: Problemas de doblaje ("Problemas de dublagem" de 1990), uma antologia poética de Aurora Luque, e Con problemas de doblaje ("Com problemas de dublagem" de 2003), peça de Luis Felipe Blasco Vilches.

Desde a antiguidade, a tradução sempre foi tema de lendas e os tradutores, personagens de ficção. Temos dois marcos nessa área: a Septuaginta e a História de Dom Quixote de la Mancha escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador muçulmano.

Miguel de Cervantes Saavedra teria pagado "duas arrobas de passas e dois alqueires de trigo" pelos serviços do tradutor de literatura aljamiada, que levou "pouco mais de um mês e meio" para traduzir a história em sua própria casa. Parte do livro teria sido escrita em árabe pelo historiador Cide e o autor tivera assim a oportunidade de dar continuidade à sua narrativa do ponto de onde havia parado de contar as aventuras do biscainho ao fim do Capítulo VIII.

Cervantes reconheceu o trabalho do tradutor que contratou e pagou devidamente pelo serviço (e a tarifa nem foi assim tão alta). No entanto, silenciou o seu nome. Em termos atuais, não reconheceu os seus direitos de autor, o que não é para tanto se levarmos em consideração as dificuldades enfrentadas hoje pelos tradutores para fazer valer os seus direitos perante a lei de propriedade intelectual. Além disso, conforme explicado por Antonio Martí Alanis, o autor reconheceu sim as contribuições do tradutor para com o texto final. A presença do tradutor desempenha um papel fundamental no artifício cervantesco sobre a autoria e as fontes do seu romance.

Na narrativa contemporânea ―e me limito aqui à espanhola―, os tradutores frequentemente são atores da ficção, protagonistas até. As suas preocupações já vêm expressadas em primeira pessoa.

"Em pleno esforço intelectual, um pensamento curioso subitamente me passa pela cabeça: Thomas de Quincey, por que você não vai tomar no cu? Que porra me importa o Thomas de Quincey e a puta que o pariu? Passaria horas para responder a mim mesmo: o que importa são as oitenta ou noventa mil pesetas que vão pagar pela tradução e, por exemplo, esta tarde, com estas dez linhas, não ganhei nem trinta paus. Na hora de trabalhar, me doem as costas, então vou passear e faço tudo o que é possível nesta jaula, menos traduzir."

Essas são as palavras ditas por Ventura, um dos personagens principais de El pianista (Manuel Vázquez Montalbán, 1985), quando Luisa comenta que, seja lá o que ele estiver traduzindo, parece ser "um rolo digno de Macbeth".

Luisa também é a colega de trabalho e esposa do protagonista em Corazón tan blanco (Javier Marías, 1992), um romance que leva a tradução já inscrita no próprio título. Se a interpretação e construção da realidade dramática ―em termos da confirmação da profecia do oráculo― é algo fundamental na tragédia de Shakespeare, no romance de Marías ―que tem no título as palavras (traduzidas) de Macbeth― podemos ler a busca tortuosa de uma interpretação (tradução) plausível. A precariedade, a "instabilidade" interpretativa, impregna toda a história e vai além dos "causos" do mundo profissional dos tradutores e intérpretes. 

"Não queria ter tomado conhecimento, mas fiquei sabendo que uma das meninas, que já não era mais menina e acabara de voltar da sua lua-de-mel, entrou no banheiro, colocou-se diante do espelho, abriu a blusa, tirou o sutiã e procurou o coração com o cano da pistola do próprio pai, que estava na sala de jantar com parte da família e três convidados."

O romance inteiro é uma busca pela compreensão (interpretação) do suicídio misterioso narrado no primeiro parágrafo. Trata-se do suicídio da segunda esposa do pai do tradutor, recém-casado; um mistério de que o tradutor toma conhecimento mesmo contra vontade.

Em homenagem a Stanislaw Lem e seu A Perfect Vacuum (1971), a paródia da paródia abordada pelo mutante Javier Fernández em Hacia una traducción de Gilgamesh de Patrick Hannahan (2007) toma forma nas tribulações verossímeis e fundamentadas do tradutor imaginário de uma obra inexistente, porém não menos admirada por ele.

"A velha discussão entre literalidade e hermenêutica animou particularmente o debate filosófico em matéria de tradução desde o início dessa disciplina difícil e ingrata e, até hoje, continuam exigindo de nós tradutores a tarefa impossível de unir extremos irreconciliáveis como num passe de mágica."

Agradável é a paródia da natureza detetivesca e das ambições do tradutor, entre outras coisas, representada pelo falecido tradutor Justo Navarro em seu último romance, Finalmusik (2007). Nela, o tradutor personagem do livro trabalha com um romance policial, um folhetim obscuro (para ser mais exato, trata-se de uma trilogia), e passa a ser interrogado pelo escritor cuja obra está traduzindo.

"Como é que você pode traduzir Gialla Neve literalmente como Neve Amarela, tendo em conta que o giallo é 'amarelo' e também a gíria usada pelos italianos para as novelas de mistério e séries obscuras, portanto 'negras'?"

"A tinta amarela nas capas da primeira coleção policial famosa na Itália, quase que por coincidência, virá amaldiçoar o meu trabalho setenta anos mais tarde. A neve amarela é neve negra? Negro de 'folhetim obscuro' ou 'romance obscuro'?"

"Acredito que [escrever] é a minha forma de me relacionar com as coisas, de prestar atenção nelas", Justo Navarro disse certa vez em entrevista ao jornal Ideal, de Granada. Escreve-se, como tradutor, com palavras que nem sempre são próprias, mas emprestadas. A "instabilidade gramatical" caracteriza a condição humana, que por sua vez alimenta a ficção contemporânea.


OBSERVAÇÃO DO EDITOR: Este texto foi escrito originalmente em espanhol e publicado pela Mercurio (dezembro de 2008, páginas 16 e 17), revista mensal editada pela Fundação José Manuel Lara. A versão em português dos fragmentos que você leu aqui é tradução da eWordNews e pode ser diferente daquelas publicadas anteriormente.


VICENTE FERNÁNDEZ GONZÁLEZ é filólogo e tradutor literário de grego moderno. Recebeu o Prêmio Nacional de Tradução da Espanha em duas ocasiões: em 1992 com Acrópolis, de Yorgos Seferis, e em 2003 com Verbos para la rosa, de Zanasis Jadsópulos. Outros escritores gregos que traduziu incluem Costas Tsirópulos, Cristos Valavanidis e Costas Mavrudís, além das antologias Once poetas griegos Nueve maneras de mirar el cielo. É ainda autor do livro La traducción de la A a la Z e atualmente dá aulas de Tradução da Língua Grega na Universidade de Málaga.