Jost Zetzsche: "Não fazemos bonito na hora de contar boas histórias sobre nós, tradutores"

Durante o 55º congresso anual da Associação Americana de Tradutores (ATA), realizado de 5 a 8 de novembro em Chicago, assisti a uma palestra intitulada "Porque precisamos nos tornar bons contadores de histórias", apresentada por Jost Zetzsche, tradutor de inglês para alemão com vastos conhecimentos sobre tecnologia, editor de The Toolbox Journal e coautor do livro Found in Translation (leia resenha aqui).

Jost deu início à palestra destacando o poder que os tradutores e a tradução têm na comunicação mundial, mencionando dois exemplos fascinantes:

  •  os inuítes precisavam criar uma palavra para internet e, considerando o fato de que não usam muita tecnologia, inventaram o termo ikiaqqivik, que quer dizer "viajando entre as camadas”
  • os chineses tiveram que criar um caractere especial para "Deus" que não fosse masculino e nem feminino para englobar todas as suas interpretações filosóficas

O palestrante então se voltou para a comunidade de profissionais: "Não fazemos bonito na hora de contar boas histórias sobre nós, tradutores", ele ponderou. "Os desentendimentos não são o problema (e temos ótimos motivos para nos desentendermos); o problema é fazer isso em público. Não estamos nos ajudando fazendo tantas críticas."

Ele se referia a fóruns de discussão e mensagens nas mídias sociais em geral, nas quais os tradutores parecem sempre estar reclamando e sendo pessimistas em relação a tudo que faz parte do nosso ramo, desde preços e concorrência até, especialmente, a tecnologia.

Jost então destacou algumas manchetes que apoiam a ideia de que precisamos contar histórias melhores sobre nós, na qualidade de profissionais, e sobre a comunidade de tradução como um todo. "O sucesso exige que aproveitemos o poder de uma história bem contada", ele leu no site Psychology Today. "Contar histórias é a melhor maneira de ensinar, persuadir e até compreender a nós mesmos", ele leu outra manchete.

"Precisamos nos apresentar bem e estarmos cientes de quem somos.
Nós nos identificamos com São Jerônimo, que não sabia muito
de tecnologia quando traduziu a Bíblia."

Para ler mais histórias otimistas sobre tradução, confira "Found in Translation," que Jost escreveu a quatro mãos com a intérprete Nataly Kelly

Para ler mais histórias otimistas sobre tradução, confira "Found in Translation," que Jost escreveu a quatro mãos com a intérprete Nataly Kelly

Ele então passou a falar sobre como a mídia está cobrindo as histórias relacionadas à tradução. Por exemplo, ele mencionou a primeira demonstração do tradutor do Skype e enfatizou que foi um belo fiasco. "Mas a imprensa amou, então a história foi positiva", ele declarou. "A imprensa estava interessada em tradução, só não era o tipo de tradução sobre a qual nós queremos falar." Como contraste, ele indicou que para as mais de 350 matérias que encontrou sobre o Skype, havia apenas 13 artigos sobre o Dia Internacional da Tradução. "Esse último tópico não é uma história atraente", ele concluiu.

“Estamos no processo de uma supernova”

O palestrante lembrou os presentes que não havia uma indústria da tradução na década de 1980. Naquela época, havia em sua maioria indivíduos que ofereciam os seus serviços, mas aí veio a tecnologia e as coisas mudaram.

Eis a linha do tempo que Jost apresentou:

  • 1980 ― Traduções (documentos, papel) > 10 idiomas
  • 1990 ― Localização (software, digital) > 25 idiomas
  • 2000 ― Globalização (Simship, web estática) > 40 idiomas
  • 2010 ― Integração (sistemas empresariais, web dinâmica) 6 < > 60 idiomas
  • 2020 ― Convergência (embutida em cada aplicativo, em cada tela, personalizado) 150 < > 150 idiomas

"Nós, tradutores individuais ou no comando de pequenas empresas, não podemos oferecer o que as grandes corporações oferecem, porque estamos usando tecnologias diferentes", ele explicou. "Porém, poderia crescer a procura por empresas de tradução especializada que são de pequeno porte. Não somos mais uma indústria; somos uma supernova!"

Onde contamos histórias?

Na última parte da palestra, Jost listou algumas maneiras em que os tradutores podem contar histórias melhores sobre si mesmos e as nossas atividades coletivas.

  • Websites profissionais e blogs
  • Mensagens nas mídias sociais: “Você pode criar uma boa personalidade on-line com 100 tuitadas; mas basta UMA tuitada para arruinar essa personalidade!”
  • Outras formas de alcance eletrônico: podcasts, canais no YouTube, Tumbler, Pinterest, Instagram, etc.
  • Interações específicas da indústria: congressos como os da ATA
  • Eventos para causas sem fins lucrativos: A campanha do Tradutores sem Fronteira sobre como os tradutores ajudaram a espalhar as notícias sobre o ebola
  • Palestras: compartilhando conhecimento com os colegas e educando possíveis clientes
  • Publicação de matérias, livros, etc.
  • Qualquer tipo de comunicação com possíveis clientes

Leitura recomendada por Jost sobre histórias positivas (em inglês) que colocam o universo da tradução em evidência:


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), um projeto que promove a literatura brasileira no mundo.