Ioram Melcer: “Quando um idioma morre, deixa de ser a língua materna de alguém"

Durante o 55º congresso anual da Associação Americana de Tradutores (ATA), realizado de 5 a 8 de novembro em Chicago, assisti a uma palestra intitulada "A tradução literária como ferramenta para a criação de nações: O caso do hebraico moderno" apresentada por Ioram Melcer, escritor, jornalista e crítico literário com mestrado em Linguística e Línguas Românicas pela Universidade Hebraica de Jerusalém. Ele também é responsável pelas publicações da Biblioteca Nacional de Israel e traduziu livros escritos por Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Fernando Pessoa, Mia Couto, Salman Rushdie e Junot Diaz.

A seguir, publicamos um fragmento do seu discurso, com base nas anotações que fiz durante a palestra.

"O mito da morte do hebraico"
Quando um idioma morre, deixa de ser a língua materna de alguém. Não é mais o idioma dos sonhos, dos lembretes e das piadas. Línguas mortas estão mortas. A ideia do hebraico foi bastante conveniente para quem quisesse criar uma nova nação. Criou uma nova entidade. Certas pessoas diziam que estávamos criando um novo povo, uma nova pátria. Isso condiz com o slogan "Uma terra sem ninguém para um povo sem terra".
O nosso maior orgulho [como israelenses] é o idioma hebraico. Brigamos sobre todo o resto; somos um povo bastante dividido, mas brigamos em hebraico. É um grande motivo de orgulho. É a língua materna de quem a aprendeu com os amigos. A maioria de nós não aprendeu com os nossos pais. O hebraico, de certa forma, é um idioma criado conscientemente. Continuo reclamando que não conheço outra língua cujos falantes cometem tantos erros.
Não havia motivo para o hebraico entrar nessa equação, porque o movimento sionista foi concebido na Alemanha e chamou a atenção dos falantes de iídiche na Rússia. O natural seria que ciência e tecnologia fossem ensinadas no idioma da ciência e tecnologia, que era o alemão. No entanto, os estudantes e os jovens professores começaram a se rebelar contra isso, porque frequentavam uma escola de hebraico e o hebraico ganhou a batalha.
O hebraico tornou-se a língua do iluminismo judeu do século 19 por ser um idioma que se manteve vivo durante gerações. Qualquer falante de hebraico com educação formal consegue compreender a versão original da Bíblia, que é um texto com 3.000 anos de idade. Conseguem compreender com mais facilidade ainda os manuscritos do Mar Morto, que têm 2.400 anos. Esse não é o perfil de um idioma extinto. As cartas de crédito eram escritas originalmente em hebraico.
"Às vezes, tiramos algo do contexto para dar-lhe longevidade"
Ao traduzir um livro para o hebraico, é preciso criar novas palavras no idioma de chegada. É uma ferramenta. É como expandir a sua mente durante uma viagem. Você vê coisas novas e precisa falar sobre elas para descrevê-las. Às vezes é algo novo que foi inventado; outras vezes, é porque você viu algo novo. É assim que uma língua cresce.
"Nossa forma antiga de vida está desaparecendo"
Hayim Naluman Bialik foi incumbido de resgatar a sabedoria judia. Compilou uma antologia de histórias, provérbios e palavras sábias. Desconectou tudo isso do contexto religioso e político. "O livro de lendas" é um padrão de sabedoria em hebraico, leitura obrigatória na escola.
Shaul Tchernichovsky traduziu "A odisseia". Uma versão nova acaba de sair, mas a de Tchernichovsky continua sendo a melhor. Ele pega o hebraico clássico, o transforma em hebraico moderno e continua sendo fiel a Homero. A sua ideia era formar a consciência coletiva de um povo que estava encontrando seu lugar entre as nações, oferecendo-lhe então uma história épica. "Trago a poesia dos vitoriosos"; orgulho nacional. A minha filha, de catorze anos, conhece a mitologia grega pela perspectiva de Tchernichovsky.
“As traduções ampliam o idioma; e não são só as literárias”
Ler guias agrícolas do século 19 é algo fascinante. Sempre que um tradutor precisa inventar uma palavra, ele a cria e inclui opções em idiomas diferentes entre colchetes. O que entrar no vernáculo é incorporado imediatamente pela imprensa, pelos professores. Escrever também era uma maneira de inventar palavras e traduzir, então a língua foi se expandindo.
O "Dicionário das palavras perdidas" traz todas as palavras que foram rejeitadas. Sempre que posso, uso uma palavra que era uma das opções não adotadas, na esperança de dar-lhe uma segunda chance.
"O hebraico é um ambiente extremamente dinâmico"
As traduções literárias foram uma forma de dizer: "Sim, podemos!" Podemos ter Tchekov e Shakespeare em hebraico. As traduções literárias ainda fizeram outra coisa... Israel era um país socialista. Provavelmente o único país onde o socialismo desmoronou silenciosamente, mas isso significou que tudo era padronizado.
O Partido Socialista controlava pelo menos duas editoras e decidia o que ia para as estantes. Esse foi um movimento político dos homens das Letras. O financiamento das traduções, naquela época, era centralizado. Não chegava a ser como na Rússia de Stalin, mas era uma iniciativa centralizada. E o governo escreveu muitos dos livros escolares, adicionando suas próprias traduções. O governo exigia assentos na Academia de Letras.
Não conheço outro país, do México até a Turquia, onde os poetas e escritores foram os fundadores nacionais de uma língua como o que aconteceu com o hebraico em Israel.
Agora, é claro, tudo está tomando seu devido curso, porque o hebraico está vivo ―e provavelmente firme e forte. O hebraico foi revigorado entre 300 mil falantes, o que não é pouca coisa. Dizem que agora, no mundo inteiro, somente três culturas da antiguidade permanecem vivas: a chinesa, a tâmil e a hebraica. Temos sim motivo para ter muito orgulho do hebraico, não só pelo que nos foi deixado, mas porque suas raízes são profundas.

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RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), um projeto que promove a literatura brasileira no mundo.