Tradutores De Francês/Inglês Falam Sobre Como Manter A Sanidade Mental No Comando Dos Negócios

Durante o 55° congresso anual da Associação Americana de Tradutores (ATA), realizado de 5 a 8 de novembro em Chicago, assisti a uma palestra intitulada "O malabarismo dos freelances: Dicas para viver a vida que você deseja viver". Era uma mesa redonda organizada por Eve Bodeux com tradutores que, como ela, trabalham com inglês e francês: Corinne McKayMarianne Reiner e Andrew Morris.

O debate foi iniciado com um assunto de interesse a todos os freelances: Como lidar com os medos criados pelas incertezas da nossa profissão?

Corinne começou falando que a pior parte da vida de um tradutor freelance é não saber quando virá o seu próximo trabalho. Para reagir a isso, ela tenta sempre estar disponível quando os clientes precisam dos seus serviços. Ela trabalha principalmente com clientes diretos, sendo a única a prestar serviços de tradução de francês para inglês para eles, então se esforçou para estudar o calendário dos clientes e saber quando a demanda será maior, planejando-se assim para ajudá-los quando necessário.

Andrew deu continuidade dizendo que também trabalha com clientes diretos, o que lhe permite mais flexibilidade como tradutor. E, quando ele não está disponível para um projeto, terceiriza o serviço para uma equipe pequena em quem confia.

Já Marianne aproveita a diferença do fuso horário e verifica seu e-mail bem cedo no horário de San Diego, na Califórnia, quando os seus clientes na França já estão no meio da tarde. Assim, ela pode planejar melhor a sua agenda. E, quando ela mesma não pode trabalhar com uma tradução, terceiriza o projeto também.

"Quando eu comecei a trabalhar como tradutora, o medo era meu companheiro diário", Marianne admitiu. "Mas eu me dei conta de que sempre existirá o próximo projeto, sempre existirá o próximo cliente. Aprenda os padrões do seu cliente", ela aconselhou.

Passando para a próxima pergunta, Eve quis saber mais sobre a gestão do tempo: Como vocês arrumam tempo para o que gostam de fazer?

Andrew disse que impõe limites: "Nunca trabalho aos fins de semana, mas também não me desconecto completamente". Apesar de estar acostumado a trabalhar onze horas por dia, com um breve intervalo, Andrew investe na educação dos seus clientes para que ninguém ligue na sexta-feira à tarde com um projeto novo.

Corinne prefere considerar o panorama mais amplo. "A minha energia física e emocional é finita", ela disse, indicando que precisa descansar para recarregar a própria bateria. "Somos um recurso não renovável. Precisamos reconhecer o nosso período crítico de produção", ela recomendou. E, se os tradutores perceberem que estão sempre trabalhando na sua produção máxima, ela sugere que eles aumentem a tarifa.

Marianne disse que deixou de trabalhar à noite. "Eu me comunico bem com os meus clientes e respondo as mensagens que me enviam, mas não imediatamente", ela explicou. "Aviso quando estou fora do escritório, mas que responderei a tal hora." Sobre trabalhar aos fins de semana, ela disse que prefere evitar, porque isso interfere com a agenda da semana seguinte. "Trabalho aos fins de semana de vez em quando, mas aí preciso dedicar tempo para a família e fazer algo especial com eles."

A próxima pergunta foi relacionada ao assunto, mais especificamente sobre disponibilidade e tarifa: Vocês acham que o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal influencia o seu preço?

Depois de fazer a pergunta, Eve comentou que tem uma perspectiva diferente sobre o preço, pois considera a satisfação que cada projeto tem a oferecer, além do retorno monetário.

Marianne concordou, dizendo que seu tempo de folga afeta a maneira como ela considera um projeto. "Se o cliente não respeita o meu tempo de folga, não merece entrar na minha agenda", ela enfatizou, explicando que gosta de trabalhar com projetos maiores, com um prazo longo, para poder organizar sua vida pessoal de acordo.

"Eu aumento a minha tarifa sempre que posso sem que ninguém reclame", Andrew admitiu, apesar de dizer que nunca estabelece uma relação entre preço e tempo. "Somente 3% dos meus projetos têm um prazo menos realista, mas é indispensável cobrar mais por projetos urgentes."

Corinne tem um método mais concreto e coordena o seu cronograma dando prioridade ao aprimoramento pessoal. "Esse é o fator n.° 1. Defino a minha tarifa de acordo com a renda que desejo ganhar trabalhando 20 horas por semana", ela explicou. "Tento manter uma agenda cheia pra alcançar a minha renda ideal e também ter tempo livre para outras coisas, como escrever para o meu blog, participar de congressos, etc. Se você trabalha 40 horas toda semana, onde é que os seus negócios vão parar daqui a cinco anos se você não investir na educação contínua?"

A última pergunta que Eve tinha para os participantes era sobre a interferência externa: Como você estabelece limites para as pessoas com quem você interage durante o dia?

Marianne disse que às vezes usa espaços de trabalho cooperativo, mas sempre mantém uma mentalidade profissional, principalmente quando trabalha em casa. "Apesar de o meu escritório estar a três metros da minha cama, continua sendo o meu escritório. Eu me visto profissionalmente e, quando alguém me vê, sabe que eu estou indo trabalhar. Se você é um profissional, tenha uma imagem profissional. O escritório também precisa ter uma porta que possa ser trancada. Respeite o seu espaço de trabalho. Você se apresenta pela maneira como se veste, como trabalha ao computador."

Andrew disse que também se veste profissionalmente para trabalhar, mas se permite trabalhar de pijama uma vez por mês. Ele tem a vantagem de não ter vizinhos próximos, já que vive em uma área rural, e tanto ele como sua companheira trabalham em casa (ela é terapeuta). "Minha companheira e eu respeitamos o espaço um do outro e usamos os cômodos maiores da casa como escritórios", ele mencionou.

Já Corinne reconheceu que trabalhar exclusivamente em casa não era ideal. "Não há problema nenhum em admitir que você não consegue trabalhar bem em casa", ela reconheceu. "Eu percebi que, depois de dez anos, eu era um fracasso nessa área, porque eu não conseguia dizer 'não' para os outros", mencionou, referindo-se a parentes e amigos que pediam favores ao saber que ela estava em casa, apesar de ela estar trabalhando em um projeto. "Passei a usar um espaço de trabalho cooperativo e faço mais coisa em menos tempo. Também deixei de trazer trabalho para casa. Agora eu imponho limites porque simplesmente não estou em casa quando alguém quer que eu faça um favor."

O debate então foi aberto para as perguntas do público e a primeira delas veio de alguém que gosta tanto do que faz que a sua vida se resume ao seu trabalho. Considerando isso, a pergunta da tradutora foi Por que precisamos equilibrar a vida profissional e a pessoal?

Andrew disse que é importante para os freelances fazerem uma reflexão. "Não há problema algum em dedicar a sua vida ao seu trabalho", ele respondeu. "Eu decidi passar grande parte do meu tempo trabalhando porque eu adoro fazer o que eu faço."

Corinne ofereceu uma perspectiva diferente: "Em vez de dizer 'equilíbrio entre vida profissional e pessoal', a gente devia dizer 'escolhas de vida' e é preciso aceitar as escolhas feitas. Quando a minha filha for adulta, quero olhar para trás e dizer que estive ao seu lado enquanto ela crescia."

Marianne tem um ponto de vista semelhante: "Você precisa pensar no que funciona para você. Eu amo o meu trabalho, mas me dei conta de que a minha vida não se resume a ele. Quando estou trabalhando, eu me dedico 200%. Quando vou viajar, eu me dedico 300%."

A próxima pergunta estava relacionada à gestão de clientes. O que você faz quando decepciona um cliente e precisa recusar-se a fazer um trabalho?

Marianne disse que conhece bem o assunto. "Já passei por isso. Acho que participar de congressos e interagir com outras pessoas é algo valioso. Ninguém é super-herói, não dá para trabalhar em todos os projetos, simplesmente não é possível", ela ponderou. A sua solução pessoal é simples: "Você precisa terceirizar".

Andrew concordou e falou sobre as suas próprias experiências. "Para terceirizar, é preciso se comunicar rapidamente. Eu respondo a mensagens em cinco minutos e as pessoal com quem trabalho também respondem rápido." No entanto, ele disse que se os clientes precisam de uma tradução em uma área que ele e a sua equipe não dominam, ele diz para o cliente procurar por outra pessoa.

"Manda esses clientes para um universo paralelo para ver se eles encontram alguém que responda e-mails às três da manhã!" Corinne brincou e depois ofereceu outra alternativa. "Você pode configurar uma resposta automática e recomendar alguém em quem você confia. Eu não terceirizo, mas também nunca perdi cliente depois de recomendar outra pessoa."

A próxima pergunta veio de uma usuária de mídias sociais, que disse: "Se eu não estiver no Twitter, é como se eu estivesse perdendo alguma coisa!" Ela fez a seguinte pergunta: Como vocês conseguem se desconectar das mídias sociais quando todo mundo pode entrar em contato com você instantaneamente?

Corinne, que tem um blog de tradução de sucesso e usa bem as mídias sociais, resumiu bem a questão dizendo o seguinte: "Você tira o que investe". Ela disse que desliga todos os alertas enquanto está trabalhando. "Não quero ficar conectada às mídias sociais depois de um certo horário. Tento dividir bem as coisas. Prefiro estar 100% trabalhando ou 100% não trabalhando. Você precisa reconhecer o que interfere no seu autocontrole."

Andrew e Marianne não se identificaram tanto com o problema. Para ele, as mídias sociais não passam de uma ferramenta para interagir com outros tradutores. Já ela disse que esse tipo de interação não é motivo de distração. "O meu ponto de vista sobre as mídias sociais é que eu sempre tomo cuidado com o que eu publico e o que os meus clientes podem ler sobre mim."

A última pergunta do público foi mais um desabafo sobre trabalhar sob pressão: Quando eu não tenho um prazo, eu sempre demoro mais para terminar o trabalho...

"Existe um procrastinador dentro de todos nós", Marianne disse. "Para mim, a questão é se organizar bem. Quando eu percebi que a minha paixão mesmo são os livros e que eu poderia transformar essa paixão em profissão, eu passei a recusar alguns tipos de trabalho", ela reconheceu.

Andrew concordou: "Alguns textos despertam o procrastinador dentro de mim. Se você limar os clientes que não 'casam' bem com você, restarão apenas aqueles com um perfil semelhante ao seu. Depois de cinco anos, eu agora sempre corro para o computador para trabalhar com textos de que eu gosto."


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RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena o Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), um projeto que promove a literatura brasileira no mundo.