Intuição na tradução literária

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro de 2013 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti a uma palestra chamada Intuição na tradução literária, apresentada por Séverine Hubscher-Davidson, tradutora de francês para inglês na Inglaterra. Ela é palestrante sobre Estudos de tradução, além de comandar o Ensino e Aprendizado de Estudos de Idiomas e Tradução na Aston University.

O tópico que Séverine decidiu apresentar durante a sua estreia como palestrante na conferência da ATA é extremamente interessante e nos remete a uma reflexão sobre o nosso processo de tradução. Na verdade, é algo sobre o qual eu sempre quis aprender mais, talvez lendo livros e pesquisas em psicologia na tradução, mas a minha "intuição" (piadinha intencional) sempre me levou a dar alguns conselhos sobre o assunto quando estudantes e iniciantes dizem que "deu branco" na tradução de uma palavra ou expressão.

Sempre que os meus alunos estão com esse problema, eu falo para eles deixarem a tradução de lado por alguns minutos. "Vai fazer um cafezinho, ler um livro ou uma revista, lavar a louça ou a roupa, trocar a fralda do bebê..." é geralmente a minha recomendação. "Se você parar de pensar no problema e fizer tarefas de rotina, vai se entreter com outra coisa, mas o seu cérebro continuará pensando na questão passivamente. Logo, talvez antes mesmo de voltar para a tradução, você vai encontrar uma resposta."



E que ótima surpresa foi ouvir a palestrante explicar eloquentemente e em termos devidamente psicológicos o processo exato, que é apoiado pelas suas pesquisas para o mestrado em Psicologia. Séverine definiu a intuição como "uma sensação ou um sexto sentido de que algo parece estar certo", mas apresentou um problema: Podemos confiar na intuição sendo tradutores? Em outras palavras, apesar de ser um fenômeno científico, a intuição não é sempre confiável; ela não é consciente, mas espontânea, natural, rápida e associativa.

A palestrante explicou ainda que existem dois tipos de intuição. O primeiro se dedica à solução de problemas, que usa a associação de padrões com base em um domínio específico de conhecimento, o que acontece rapidamente e é útil para lidar com problemas mais simples e diretos. O outro tipo é o da intuição criativa, que instiga novas combinações de conhecimento com base na integração de conhecimentos em domínios diferentes, sendo mais lenta e útil para problemas altamente complexos.

A respeito do nível de confiança, Séverine ponderou que sempre que a intuição for fundamentada por conhecimentos sólidos, confiar no sexto sentido é algo seguro. No entanto, se não for verificada e analisada, a intuição pode ser prejudicial para o tradutor. "Reações intuitivas podem inspirar a autoconfiança e levar à resposta errada!"

Conforme ela explicou, os tradutores usam a intuição com base em imagens visuais e suas próprias experiências, o que às vezes pode não ser totalmente compreendido por outras pessoas, que talvez não consigam identificar a mesma coisa, considerando suas próprias experiências pessoais. Ou seja, se os tradutores usarem uma palavra que lhes é familiar, mas não entendida pelo público-alvo, eles podem não estar usando a sua intuição corretamente. "É difícil deixar a intuição de lado", Séverine disse. "Uma tradução bem-sucedida combina intuição e conhecimentos."

Outras considerações sobre o assunto incluíram o fato de os prazos curtos incentivarem a confiança na tradução, o que pode ser algo bom para um tradutor experiente, que pode depender de uma intuição útil. O mesmo não pode ser dito de um iniciante. "Semi-especialistas sabem o suficiente para terem cuidado, mas não o suficiente para confiar na intuição", ela indicou. "Os tradutores devem (re)pensar na intuição durante estágios diferentes da tradução."

A palestrante concluiu a sua apresentação deixando o público presente com alguns conselhos práticos sobre como confiar de maneira apropriada na intuição ao traduzir:

  • Seja cuidadoso
  • Pense em voz alta
  • Aproveite oportunidades para interagir com colegas e/ou mentores
  • Busque situações novas de aprendizado

RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).