Lançamento: "Filicide" de Carmem Dametto

Após 52 horas traduzindo o total de 36.558 palavras, além de outras 20 horas revisando a tradução, a versão em inglês do livro "Filicide ― Notes on Narcissism" de Carmem Dametto ("Filicídio ― Considerações sobre o narcisismo" no original) já está à venda na Amazon. Trabalhar neste título de não ficção foi uma experiência maravilhosa e posso dizer com toda confiança que aprendi muito sobre psicologia e, mais especificamente, sobre os níveis diferentes deste problema, que consiste no desejo de matar o próprio filho, principalmente como resultado do narcisismo.

Apesar de o livro ter sido pensado para um público composto de psicólogos e psicoterapeutas, os leigos poderão ler e refletir sobre seu próprio comportamento em relação aos filhos, além do comportamento dos seus próprios pais e daqueles ao seu redor.

Carmem discorre sobre a sua experiência de diagnosticar e tratar vítimas de filicídio e narcisismo em ambientes diferentes, de instituições hospitalares a seu consultório particular. E ela o faz de maneira tão acessível, contando "causos" e apresentando exemplos do mundo real sem depender somente da teoria. Aqui vai um pedacinho da nota da autora:

O filicídio, patológico ou não, é um sentimento inerente à natureza humana. Quando falo neste assunto não é com o intuito de acusação, crítica a pais e filhos de pacientes ou de pessoas normais, e sim no sentido de entendimento de um fenômeno universal do qual se foge como se fosse algo “errado”. Na verdade, não é. [...] inconscientemente, fomos “vitimados” ou fizemos “vítimas”. Porém, volto a dizer, é algo fisiológico, como o xixi. E como tal tem que ser comentado e tratado.

Desde o início do projeto, antes mesmo de chegar ao primeiro capítulo, recebi uma enxurrada de referências culturais que realmente tornaram essa uma experiência deliciosa. Carmem cita um poema brilhantemente poderoso, chamado "Cântico negro", escrito por José Régio com a colaboração de algumas das mentes brasileiras mais interessantes do século 20. A interpretação específica que foi transcrita no livro é a da cantora Maria Bethânia, apesar de outra versão igualmente eficaz e mais literal também ter sido popularizada pelo ator Paulo Gracindo.

Betânia (acima) e Gracindo (ao lado) em suas versões de "Cântico negro" 

Como complemento ao estudo do filicídio e do narcisismo, Carmem cita e explica duas alegorias mitológicas que conhecemos tão bem: Narciso e Édipo.  Analisar estes dois mitos de um ponto de vista psicológico traz tanto contexto para as histórias que os leitores vão acabar olhando para contos semelhantes com uma capacidade recém-descoberta para esse tipo de interpretação. Outras tragédias semelhantes incluem Hamlet e quando a fé de Abraão é colocada à prova, cuja pintura icônica de Caravaggio foi selecionada como capa do livro.

De maneira geral, este livro é um daqueles sonhos que viram realidade para uma tradutora literária como eu; o tipo de livro que você não consegue largar e tem vontade de ler e reler várias vezes, porque a cada guinada é possível encontrar algo de novo e é impossível não associar as explicações e os exemplos aos fatos da vida e o que vemos nos noticiários. E, sempre que encontramos um livro que aborda um assunto sério de maneira tão acessível, são os leitores que saem ganhando.

Finalmente, deixo para vocês a sinopse oficial, que fala por si só quanto ao tema e ao estilo "contadora de histórias" que a autora adota neste trabalho de não ficção: 

Este livro é uma obra importantíssima sobre o filicídio. Fenômeno mental presente no inconsciente mais profundo do ser humano, a conduta filicida tem, obviamente, que ser detectada para que se possa impedi-la de manifestar seu potencial destrutivo, sem falar na condição psicótica, que é onde o fenômeno aparece com maior evidência. Quem quiser incluir a família no seu âmbito de ação profissional deverá conhecê-lo e compreendê-lo muito bem para se considerar habilitado a abordar, com pretensões verdadeiramente terapêuticas, esse complicado grupamento humano formado por filhos e pais interagindo afetivamente.

Espero que vocês tenham uma oportunidade de lê-lo e aprender sobre um assunto tão pesado explicado por uma especialista que facilita e suaviza o percurso do leitor. 


 RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).