"Sunday pigs" e "Wonder Woman"

de Noga Sklar

Domingo, 17 de abril de 2011

Vocês me desculpem, mas vou começar rezando, isto é, confessando pra vocês meus mais recentes percalços operacionais. Tem assunto pior para o dia de descanso universal? 

Pois esta humilde escritora de domingo, que vos fala regularmente, exausta e metida a ter graça, tem trabalhado de segunda a segunda (descontadas duas horas obrigatórias de recreio semanal dedicadas ao religioso exercício da crônica, ufa) numa média de, hum, digamos, umas dezoito horas diárias —mais as três ou quatro de insônia pensando nas tarefas do dia, o que terminou e o que se inicia— à frente dessa nau desgovernada que é o mercado de ebooks no Brasil, uma floresta virgem a ser deflorada cotidianamente, sabem como é. Haja ereção para “tanta” tesão profissional. Francamente. 

Pois há coisa de umas duas semanas perpetramos (ui!) aqui na KBR uma nova ousadia editorial pra fazer história digital: publicamos na Kindle Store a primeira tradução própria para o inglês de um dos títulos de nosso catálogo, o Poética da episteme-arte de Adão Vieira de Faria, que virou The Poetics of Episteme-Art..

Pra quem não sabe, essa é uma tendência que veio pra ficar e pra acabar de virar de ponta-cabeça o já conturbado mercado literário internacional. Já pensaram no dia em que as grandes editoras estrangeiras decidirem publicar suas próprias versões para o português? Lá se irão os leilões milionários de best-sellers globais e, com eles, a galinha dos ovos de ouro das nossas próprias editoras nacionais.

Hum, pensando bem, será que vão mesmo abrir mão desse fluxo desvairado e garantido de dinheiro? É lucro certo pra quem vende os direitos, claro, faturando em cima de um sucesso já mais do que testado e comprovado. E também pra quem compra, por conta das cartas marcadas na lista de mais vendidos. Ponto para as edições traduzidas nem sempre à altura do texto original. Pois é, eis aí onde mora o perigo: nas traições literárias. 

No nosso caso, bastante agravado, já que, correndo por fora e bem à frente dos rumos vislumbrados, temos que nos virar com as nossas próprias para o inglês —e toca a caçar tradutor native speaker que entenda português e consiga ainda por cima escrever com estilo em ambas as línguas, um bicho mais raro que o celacanto e tão provocador de maremotos quanto, se é que vocês me entendem. Isso, pra nem mencionar o preço inflacionado desse mercado pós-babel conectado.

Temos cortado um dobrado com os testes que recebemos de potenciais associados, como, por exemplo, um dos candidatos a traduzir o incensado Domingo, o Jogo  (que virou Sunday, the Game), de Cassia Cassitas, a nossa “caixa”, como carinhosamente a chamamos na intimidade. Calma, gente: “nossa caixa” porque a querida Cassia é o nosso primeiro case de best-seller nacional, tendo constado com seu belo livro de todas as listas pelas últimas três semanas e engordado, com isso, o nosso esquálido porquinho, ops, cofrinho, e o dela também, claro. Uma dureza. 

Já fui desistindo na primeiríssima frase do texto, que começa assim: “A literatura é uma amiga maravilhosa”. E foi traduzida, brilhantemente, assim: “Literature is a wonder friend”. Ah, gente, pra quê? Fui com tudo pra cima do pobre candidato a detrator: 

— Mas que p... é essa? Você tá achando que a literatura é a Mulher Maravilha?! 

Pra você, que como outros tantos por aí anda precisando “escovar o seu inglês” (referência de um mal traduzido brush up your Shakespeare), segue a solução da questão, pois nisso é que dá traduzir expressões ao pé da letra, vamos combinar. O certo seria: Literature is a wonderful friend.

Há outro caso ainda pior, referente ao querido Joana a contragosto de Marcelo Mirisola —um clássico contemporâneo brasileiro que virou Joana Against my Will em inglês—, quando quiseram nos empurrar um golden shower onde o desejado seria pissed pussy, no original “bucetinha mijada”. É, gente, editor sofre. Para ser justa, a autora desse “chuveiro dourado” aí foi até bem competente no restante do texto, mas, infelizmente, fora de nosso alcance financeiro, um drama cotidiano a mais, sabem como é. 

Desesperei-me a tal ponto que cheguei a pensar que a única saída seria apelar em primeira instância para um Tradutor Google gratuito mesmo —que Alan tem curtido tanto ultimamente, acreditando que por fim entende os absurdos que escrevo sobre ele. Afinal de contas, dizem por aí que o tal software do Google tem melhorado bastante e a gente daria obviamente uma boa guaribada, assinada por A. E. Sklar, o único tradutor genial do mundo que domina apenas a sua própria língua ferina; mas me descabelei mais ainda quando, na semana passada, depois de “ler” a minha crônica de domingo com alguns raros sorrisos aflorando ao rosto desnorteado de residente estrangeiro, Alan chegou-se pra mim com a cara mais inocente do mundo e perguntou: 

— O que é “Sunday pigs”? 

— Ahn? 

Fui conferir. Ah, gente, pra quê? O pobre tinha jogado o texto no Google e o tradutor automático, coitado, meio enrolado com o meu sotaque mineiro e outras firulas linguísticas intraduzíveis, saiu-se com essa para o meu bordão domingueiro “bom domingo procês”. Procês, porcos, porquês: que diferença faz, não é mesmo? 

E com esta, basta por hoje, sinceramente. Vou deixá-los em paz pra chafurdar o resto do dia no meu chiqueiro binacional, em busca de uma solução palatável para o meu grave problema de idioma operacional. Pra quem quiser se arriscar nessa incrível jornada, pioneira e perigosa como só os caminhos não desbravados conseguem ser, segue o e-mail da desesperançada dublê de editora: editor@kindlebook.com.br. Favor só se apresentar se você realmente acredita que domina como ninguém o fluente idioma inglês em pelo menos 800 mil de seu propagado milhão de vocábulos registrados. Argh. 

Have a nice Sunday, pigs.


NOGA SKLAR, editora e CEO da KBR, vive na Serra de Petrópolis, a 100 km do Rio de Janeiro, com o marido Alan Sklar. Graduou-se como arquiteta pela Universidade Santa Úrsula e desde 2004 tem se dedicado à literatura, cultivando o original gênero literário "ficção autobiográfica".

Como escritora e cronista, publicou sete livros, dentre eles Santa Molly, sobre o Ulysses de James Joyce, e Luau Americano, um comentário contemporâneo sobre política americana. Pioneira na adoção do formato POD (impressão por encomenda), Noga foi também a primeira editora brasileira a publicar livros em português para Kindle na Amazon.com.