"The World According to Monsanto" de Marie-Monique Robin

Resenha de Rafa Lombardino

Título: The World According to Monsanto ― Pollution, Corruption, and The Control of Our Food Supply: An Investigation into the World's Most Controversial Company ["O mundo segundo a Monsanto: da dioxina aos transgênicos, uma multinacional que quer o seu bem"]
Autor: Marie-Monique Robin
Tradutor: George Holoch (do francês)
Ano de publicação: 2010
Lido em: inglês

Na semana passada, foram feitas várias manifestações globais contra a Monsanto, a companhia química norte-americana fundada em 1901 e cujo primeiro produto foi a sacarina. Entretanto, ela é mais conhecida atualmente como a fabricante do herbicida RoundUp, por registrar a patente de várias sementes e processar fazendeiros para poder controlar a maneira como as plantações são administradas. Resumindo, a Monsanto cobra royalties pela produção de alimentos, já que um único pagamento no ato da compra de sementes não parece ser suficiente para eles.

Selecionei "The World According to Monsanto", escrito originalmente em francês pela jornalista Marie-Monique e traduzido para o inglês por George Holoch―a versão brasileira foi traduzida pela Editora Radical Livros―porque eu lido com o assunto frequentemente durante as minhas traduções técnicas. Eu traduzo vários relatórios sobre viabilidade de safras experimentais, agricultura sustentável, pesticidas e outros agroquímicos, além de artigos para organizações como Greenpeace sobre resistência e diversidade nas plantações.

Por um lado, foi um prazer ler um livro traduzido com exatidão e que menciona as mesmas palavras-chave que eu uso nas minhas traduções para o inglês, tais como glyphosate (glifosato)hybrids (híbridos)runoff (escoamento) e Agrobacterium tumefaciens, por exemplo. Por outro lado, esta é uma história de terror sobre o que acontece em todo o mundo, o que inclui envenenamento acidental e intencional ("Estima-se que o número de envenenamentos acidentais por pesticida seja superior a um milhão por ano em todo o mundo, 20 mil dos quais são fatais" e "Roundup [...] é o herbicida favorito daqueles que tentam o suicídio por envenenamento" -- página 86, tradução minha), contaminação, problemas de saúde, falência, resultados de pesquisas distorcidas, perseguição dos delatores ("Nunca me esquecerei da primeira vez que usei a frase "Não estamos no negócio de gerar conhecimentos; estamos no negócio de gerar produtos'" -- página 138, tradução minha, palavras de Richard Mahoney, diretor executivo da Monsanto entre 1984 e 1995) e envolvimento com o governo―só para citar alguns tabus explorados no livro.

Sobre o problema com os royalties, isso causa a falência de fazendeiros de pequeno porte porque não lhes permite realizar as suas atividades, já que eles precisam fazer vários pagamentos durante etapas diferentes do processo, desde a compra de sementes, a plantação e a colheita dos legumes e das frutas que eles plantaram, já que toda etapa do seu trabalho está sujeita à mentalidade do licenciamento, segundo a qual a Monsanto detém direitos de propriedade sobre o elemento fundamental que torna possível essas plantações, isso sem mencionar todos os produtos químicos envolvidos no tratamento da lavoura. Como você pode ver, uma das vantagens de fazer a engenharia de sementes e patenteá-las é que você pode criar produtos para tratar as plantas resultantes e garantir que o tratamento só será eficaz se os seus próprios produtos forem utilizados nas suas próprias sementes...

Quando os fazendeiros tentam se opor a este arranjo, precisam gastar quantias exorbitantes de dinheiro que não têm para pagar honorários advocatícios, a menos que consigam encontrar um escritório de advocacia que queira doar tempo e recursos para bater de frente com o exército de advogados contratados pela empresa. Falando nisso, a onda recente de manifestações contra a Monsanto também se deu pelo fato de o Tribunal Superior dos EUA ter dado o veredito em favor da empresa em um caso como esse, proclamando o seguinte:

“Exaustão de patente não permite que um fazendeiro reproduza sementes patenteadas por meio de semeadura e colheita sem a permissão do detentor da patente."

Do ponto de vista do consumidor, esse problema complexo está ganhando proporções astronômicas também por causa do debate em torno dos OGMs, ou seja, organismos geneticamente modificados. Basicamente, empresas como a Monsanto usam engenharia genética para alterar sementes e plantações a fim de torná-las mais resistentes a pragas, aumentando assim a produção, ou ao introduzir/retirar caracteristicas (também chamadas de traços) para que frutas e legumes adquiram certas propriedades ou percam atributos indesejáveis. Quando aparecem projetos de lei para tentar fazer com que os OGMs sejam devidamente rotulados, permitindo assim que os consumidores decidam se querem ou não ingerir tais produtos, esse tipo de legislação dá com os burros n'água por causa das campanhas intensas de lobby e marketing, nunca vindo a se tornarem leis.

Para mim, pessoalmente, uma das partes mais interessantes do livro foi a sequência de acontecimentos envolvendo a Monsanto no Cone Sul, já que isso envolve o Brasil, meu país de origem. Fiquei abismada ao descobrir a campanha da Monsanto para elevar a soja na Argentina, a ponto de se colocarem contra o leite bovino para aumentar o consumo de leite de soja. Coincidentemente, houve um escândalo recente envolvendo o suco de soja contaminado no Brasil e o consequente apoio pela plantação de soja não modificada no país.

Aqui vão alguns trechos interessantes relacionados a esses casos para os leitores avaliarem a riqueza de detalhes do material explorado neste livro [tradução minha]:

[...] em julho de 2002, o Consejo Nacional de Coordinación de Políticas Sociales organizou um forum sobre o tema e foi apontado que "suco de soja não deve ser chamado de 'leite' e, sob hipótese alguma, pode substituir o leite". Os profissionais de Saúde apontaram que a soja é muito menos rica em cálcio do que o leite de vaca e a forte concentração de ácido fítico bloqueia a absorção de metais pelo corpo, tais como ferro e zinco, aumentando o risco de anemia. Acima de tudo, desaconselharam veementemente o consumo de produtos à base de soja por crianças com menos de cinco anos, por puro bom senso: é de conhecimento público que a soja é rica em isoflavonas, que agem como substitutos de hormônios em mulheres em pré-menopausa e, consequentemente, podem causar desequilíbrios hormonais consideráveis na fase de crescimento. 
(página 267)

Em 1998, quando a soja RR [Roundup Ready] estava invadindo as planícies da América do Norte e os pampas argentinos, a Monsanto parecia estar comendo o mercado brasileiro pelas beiradas, já que o país é o segundo maior produtor de soja do mundo. Uma petição apresentada pelo Greenpeace e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC) conseguiu uma suspensão temporária da comercialização de OGMs com base no argumento que "sem estudos prévios sobre o impacto ambiental e o risco à saúde dos consumidores, isso violaria o princípio de precaução da Convenção de Biodiversidade assinado em 1992 no Rio de Janeiro.
     Por obra do destino, uma operação de tráfico foi organizada no estado do Rio Grande do Sul; as sementes foram importadas clandestinamente da Argentina, sendo chamadas de "Maradona" em homenagem ao famoso jogador de futebol argentino. Apoiada pela Aapresid, a Apassul (Associação dos Produtores e Comerciantes de Sementes e Mudas do Rio Grande do Sul) organizou churrascadas luxuosas para promover lavouras transgênicas, bem debaixo do nariz das autoridades, que nada fizeram. 
(páginas 276-277)

[...] em 2002, quando se candidatou pela quarta vez à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva fez campanha contra OGMs. Na época, elas [sementes de soja da Monsanto] já se encontravam espalhadas pelo Rio Grande do Sul, além dos estados vizinhos do Paraná e Mato Grosso do Sul. Nove meses depois de o candidato do Partido dos Trabalhadores chegar ao Palácio do Planalto em Brasília, a Comissão Europeia adotou dois regulamentos em 22 de setembro de 2003 sobre a rastreabilidade e rotulação de alimentos modificados geneticamente e comercializados para consumo humano ou animal. Essa decisão ameaçou diretamente as exportações brasileiras, pois o país não era capaz de distinguir entre as sojas convencionais e as trangênicas porque, oficialmente, estas não existiam.
     Três dias mais tarde, Lula assinou um decreto autorizando temporariamente a venda de sojas Roundup Ready para a safra de 2003 e para a plantação e comercialização em 2004. O decreto ofereceu anistia a todos os produtores de OGM, convidando-os a sair das sombras e identificar suas plantações para que a segregação pudesse ser organizada. A decisão causou alvoroço entre as organizações ecológicas e de reforma agrária, além de tumultuar o Partido dos Trabalhadores, que prometera não liberar sementes transgênicas antes de que seu impacto ambiental, social e à saúde fosse avaliado seriamente.
     Consciente das consequências desastrosas que inevitavelmente seguiriam a decisão feita às pressas em relação à soja, João Pedro Stedile, líder do MST, chamou Lula de "presidente transgênico" e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, pensou seriamente em deixar o cargo. Para os que se opunham aos OGMs, o decreto presidencial indicou que o novo governo se rendera ao agronegócio, personificado pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e acima de tudo pela Monsanto.
(página 277)

Será lembrado que ao lançar a soja Roundup Ready, a empresa demonstrou uma generosidade extraordiária ao assentir que os produtores não pagariam royalties sobre as sementes. Oito anos mais tarde, estimou-se que somente 18% das sementes usadas eram certificadas, ou seja, compradas a preço de mercado junto a revendedoras sujeitas ao licenciamento da Monsanto; o restante era sementes guardadas de colheitas anteriores ou compradas no mercado negro. A Monsanto não se manifestou até janeiro de 2004, quando de repente ameaçou deixar a Argentina se todos os produtores não pagassem uma "taxa de tecnologia".
     A princípio, o secretário de Agricultura Miguel Campos não pensou duas vezes e prontificou-se a criar um sistema de royalties a ser financiado pelos impostos que o governo cobraria dos produtores, entregando à Monsanto uma soma de US$ 34 milhões por ano. 
(página 279)

     Eduardo Buzzi, presidente da Federação Agrária Argentina: "Em primeiro lugar, a Monsanto não patenteou o seu gene neste país; além do mais, os fazendeiros são protegidos pela lei 2247, que garante o chamado 'princípio da exceção dos fazendeiros', ou seja, o direito que eles têm de replantar parte da sua colheita, mesmo que as sementes originais tenham sido certificadas por reprodutores. Não há motivos para a Monsanto gozar de um status especial."
     Marie-Monique Robin: "Mas a princípio a sua organização encorajou o desenvolvimento de sojas transgênicas."
     EB: "Isso mesmo, eles levaram a gente no papo. Dá para imaginar tamanho cinicismo? A empresa planejou tudo em longo prazo, confiando na Aapresid, uma associação que ela mesma financia para promover os seus produtos, isso com a cumplicidade de autoridades governamentais e da mídia. Foi tudo calculado, até mesmo o tráfico para o Paraguai e o Brasil, e todos nós caímos na armadilha."
     MMR: "É guerra?"
     EB: "É, a guerra das sementes, só que nós não estamos preocupados em arrecadar lucros para os nossos acionistas; queremos apenas sobreviver." 
(página 280)

Reforço a recomendação do livro "The World According to Monsanto" para quem quer aprender mais e se conscientizar sobre o problema. E, para complementar a leitura, existe também um documentário do mesmo nome, que também foi organizado por Marie-Monique e lançado antes do livro em 2008. Graças ao documentário, a autora, jornalista e cineasta recebeu o Prêmio Rachel Carson no ano seguinte por suas conquistas ambientais.

TRAILER: "The World According to Monsanto"


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).