Sobre erros de tradução

Ricardo Souza

Lembro de um escorregão tradutório muito feio. Foi na tradução do livro “The Physician”, de Noah Gordon. O livro, traduzido por Aulyde Soares Rodrigues para o português, recebeu o título de... “O físico”!

Ora, todo mundo sabe que a solução correta seria “O médico”, não é mesmo? Só que não. A tradução do título não só está correta como é preciosa.

Na época do lançamento da obra, a Aulyde virou saco de pancadas. Foi chamada de incompetente, bisonha (nesses exatos termos) e outras coisinhas menos delicadas por outros tradutores, justamente os profissionais que deveriam ter dado à colega o benefício da dúvida e investigado o termo mais a fundo.

Se o tivessem feito, não teriam passado a vergonha de descobrir que “físico” é como eram conhecidos os médicos na época em que se passa o enredo, a Idade Média. Aqui, o escorregão não foi da tradutora que traduziu, mas de quem criticou.

Como seria bom se verificássemos a procedência do “erro” antes de abrirmos a boca ou mexermos os dedinhos para criticar alguém, não é? Mas, infelizmente, as críticas embasadas e comedidas, ou que dão espaço à dúvida benévola, aquelas que nos tornam profissionais e pessoas melhores, andam rareando e estão sendo substituídas por “achismos” de gente que vive “achando” coisas e acredita que seus “achados” são a verdade revelada.


RICARDO SOUZA Licenciado em língua portuguesa e literatura pela Universidade Federal Fluminense, tradutor profissional em tempo integral do inglês para o português desde 2000, especializado nas áreas de shipping (setor em que atuou profissionalmente, inclusive como tradutor e intérprete, por 15 anos), logística de transportes e cargas, comércio internacional, offshore e máquinas pesadas. Já com várias palestras sobre mercado, técnicas e ferramentas de tradução em seu currículo e desde 2007 vem atuando como intérprete de campo em instalações industriais dentro e fora do Rio de Janeiro, onde reside.