"Is That A Fish In Your Ear" de David Bellos

Review by Rafa Lombardino

Título: Is That a Fish in Your Ear? ― Translation and the meaning of everything [Você está com um peixe no ouvido? Tradução e o significado de tudo]
Autor: David Bellos
Publicado em: 011
Idioma: nglês
 

Muito já foi escrito sobre ele (leia as ótimas resenhas de Adam Thirlwell para o New York Times e de Nicholas Clee e Nicholas Lezard para o Guardian), mas aqui vai a minha leitura de Is That a Fish in Your Ear? Translation and the Meaning of Everything e David Bellos.

Além de fazer um ótimo trabalho conscientizando os leitores sobre idiomas e tradução, principalmente ao falar do processo realizado nas Nações Unidas, o que me fascinou foi a riqueza de informações sobre traduções literárias que ele apresentou neste livro. Bellos é tradutor, com destaque para a versão em inglês de A vida: modo de usar de Georges Perec e o trabalho de Ismail Kadare, incluindo The SiegeSpring Flowers, Spring Frost The Successor (inéditos no Brasil). Por suas traduções dos livros de Ismail para o inglês, usando o francês como idioma-ponte em vez do original em albanês, Bellos recebeu o primeiro Man Booker International Prize em 2005.

Um argumento interessante que ele apresenta é sobre o papel dos tradutores como os maiores leitores do livro que estão traduzindo: Ninguém conhece o significado de todas as palavras em francês em Les Misérables, mas isso nunca evitou que alguém aproveitasse a leitura do romance de [Victor] Hugo. Entretanto, aos tradutores não é concedido o direito de pular. Essa é uma restrição séria [Página 105 no original, tradução minha]. Sobre esse mesmo assunto, ele diz que tradução literária é paga a uma razão equivalente à tarifa cobrada por hora por uma babá. (...) Existem poucas exceções, mas tradução literária em inglês é, em grande parte, feita por amadores. [Página 291 no original, tradução minha]

"O único 'cliente' de uma tradução literária
é um leitor imaginário
―o leitor que cada tradutor
inventa na sua própria cabeça."

Bellos também resume de maneira brilhante os mecanismos de proteção que os tradutores em geral usam ―talvez tão inconscientemente quanto o reflexo da perna à batidinha do martelo no joelho― quando não querem se tornar visíveis pelos motivos errados: (...) os tradutores esquivam-se para não traduzir o deselegante de maneira realmente deselegante no texto de chegada. O motivo é obvio: erros gramaticais, má utilização das palavras e outros tipos de linguagem "fora do padrão" não devem ser vistas como culpa do tradutor. Na verdade, é mais fácil traduzir as loucuras de um lunático de carteirinha do que a linguagem intencionalmente rude e vulgar de muitos romances modernos. [Página 195 no original, tradução minha]

Sobre a controvérsia em torno da baixa porcentagem de livros publicados em inglês e que são traduções de outro idioma, comparados ao grande número de livros originalmente escritos em inglês e traduzidos para outras línguas, Bellos dispensa a "hipótese imperial" porque não explica porque francês, espanhol, português e holandês, as línguas de impérios igualmente extensos e populacionalmente densos entre os séculos 16 e 17, não se encontram no topo da árvore global das traduções de hoje em dia [Página 204 no original, tradução minha]. Por outro lado, ele também aponta o fato de que muitos livros sérios em inglês sobre história, ciência, literatura e artes não podem ser traduzidos comercialmente para sueco, dinamarquês, norueguês ou holandês porque os leitores interessados nessas comunidades já os leem em inglês. [Página 205 no original, tradução minha]

Finalmente, uma das partes realmente mais fascinantes deste livro para mim foi a explicação dele para um fenômeno cultural envolvendo a tradução de idiomas e o cinema: Acredita-se que as restrições formais rígidas na tradução de filmes tiveram um efeito retroativo importante no trabalho original. Cineastas que dependem dos mercados de língua estrangeira estão cientes do pouco que o idioma falado pode ser representado por extenso na tela. Às vezes eles tomam a decisão de limitar a volubilidade dos seus personagens para facilitar na hora de encaixar todo o diálogo na tela nas versões em idiomas estrangeiros. Ingmar Bergman fez dois tipos de filmes bastante diferentes: comédias engraçadinhas e verborrágicas para consumo na Suécia e dramas melancólicos e taciturnos para o resto do mundo. Nossa visão padrão dos suecos como um povo deprimido e com dificuldade para se expressar é, em certo grau, um produto derivado do sucesso de Bergman ao construir restrições de legendagem na composição dos seus filmes com maior ambição internacional. Isso é chamado de "efeito Bergman" e pode ser visto também nos primeiros filmes de István Szabó e Roman Polanski também. [Página 137 no original, tradução minha]

Aqui está uma ótima entrevista [em inglês] com David Bellos na Rádio Pública Nacional (NPR) e, abaixo, está um livro-clipe bastante divertido.