"Por favor cuide da mamãe" de Kyung-Sook Shin

Resenha de Bia Machado

Título: Por favor cuida da mamãe
Autor: Kyung-Sook Shin
Publicado em: 2012
Idioma: Coreano
Tradução (do inglês): 
Flávia Rössler

Minha primeira leitura do ano. De alguma forma, sabia que seria algo que me faria chorar muito, pelo que eu lia em sinopses e resenhas por aí. Tudo bem que para me fazer chorar não precisa muito, se é emocionante e bem escrito, mas houve muito mais coisas, vamos ver se consigo explicar...

Falando sobre o enredo, o livro trata do desaparecimento de uma senhora de 69 anos, Park So-nyo, que some na estação do metrô de Seul, quando ela e o marido estão indo para a casa de um dos filhos. O problema é que, como ela está cansada, como não tem andado bem de saúde naqueles dias, anda mais devagar e não acompanha o ritmo do marido, que por sua vez não se preocupa em ver se ela o segue, como sempre costuma fazer. E quando ele resolve verificar isso, em meio à multidão, não encontra mais a esposa. A partir daí, começa a busca da família, em especial de uma filha e de um filho de Park.

O livro é dividido em capítulos, alternando-se os narradores, o que achei interessante, pois faz com que os leitores possam conhecer diversos lados da situação, e como cada um se sente, as lembranças que vêm à tona, as culpas... O primeiro capítulo é em segunda pessoa, por exemplo, e evidencia a filha mais velha, a terceira de Park. Já o segundo capítulo, que destaca a procura e os sentimentos do filho mais velho, é narrado em terceira pessoa. No terceiro capítulo, que retorna à segunda pessoa, acompanhamos o marido, que volta para casa, em uma área rural da Coréia do Sul, na esperança de que a esposa volte para lá, ou quem sabe esteja esperando por ele.

No quarto capítulo, também em segunda pessoa, temos o foco na própria Park, sua versão dos acontecimentos, suas lembranças, alegrias e  mágoas, bem como ficamos sabendo se ela vai voltar ou não, e o porquê. Confesso que quando li esse capítulo, fiquei admirada com o desfecho que a autora deu para a história, achei interessante porque depois vem o último capítulo, novamente com o foco na terceira filha, e é como se fôssemos cúmplices de Park, ou seja: sabemos o que aconteceu com ela, sabemos se irá voltar ou não, mas não podemos interferir, apenas acompanhar o desfecho, na visão dessa filha que parece ser a que mais sentiu o desaparecimento da mãe. Estranho, não? Pois foi assim que me senti...

É um livro daqueles: ou você ama, ou odeia, pelos mais diversos motivos. Não é fácil acompanhar a forma como a família tratava essa mãe tão forte, mas ao mesmo tempo tão sensível. Vemos o quanto ela se anulou, deixou de viver para educar seus filhos, acima de tudo, para que não lhes faltasse nada, para que pudessem realizar planos, para que fossem mais do que ela jamais poderia ter sido.

E alguns leitores que fizeram resenhas sobre isso chamaram o livro de "piegas". Piegas seria o quê? Um livro que mexe com as emoções da gente? Se for, um viva à pieguice! ;) No meu caso, amei. E amei até por ter me visto um pouco ali, pois apesar de minha mãe não ter desaparecido, de eu saber muito bem onde ela está, nossa relação é tão distante, algo que remete à minha própria infância, algo que parece que não pode ser mudado, que nem eu e nem ela queremos que mude, que aceitamos isso... Sim, eu me vi em muitas situações ali descritas.

O livro é um relato forte, que não poupa nada e não coloca maquiagem nos sentimentos. Algumas pessoas também reclamaram sobre informações erradas de locais no Vaticano, cenário do último capítulo. Não sei, isso não me incomodou, por ser algo tão pequeno na narrativa, só espero que se for verdade, que a escritora tenha um cuidado maior no próximo livro, mas isso não tira em nada o brilho da narrativa. Fiquei pensando também se isso não aconteceu por conta da tradução, talvez?

O livro foi traduzido para o português a partir da edição em língua inglesa, de título "Please look after mom", e mesmo assim não houve nada que me causasse estranhamento. Até porque, na minha concepção, autores orientais têm uma dinâmica de narrativa bem peculiar, eles conseguem impor seu próprio estilo e ao meu ver a tradução não prejudicou, não escondeu esse estilo.  


BIA MACHADO é escritora e revisora. Formou-se em Pedagogia em 2006 pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Leciona em tempo integral em escolas públicas desde 2006. Também trabalha como revisora independente desde 1995 e, em 2012, começou a oferecer serviços de revisão para a editora Estronho.

Bia contribuiu com material para coleções organizadas pelas editoras Hama, Multifoco e Estronho. Em 2011, publicou por conta própria o livro de mistério e horror Certa Estranheza, que está disponível em formato digital. Um ano mais tarde, um dos seus contos foi traduzido para o inglês e destacado no site Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS).

Ela escreve sobre literatura e publica resenhas em seu blog No Paraíso de Borges.