Como os escritores enxergam o seu trabalho pelos olhos de um tradutor

Na nossa quarta colaboração para a seção BOAS NOVAS, publico hoje um artigo escrito por Ronaldo Brito Roque sobre como um escritor se sente ao ler seu próprio trabalho traduzido em outro idioma.

Depois que comecei a escrever profissionalmente, acho que uma das minhas experiências mais marcantes foi ver meu conto traduzido para outro idioma. É uma experiência paradoxal. 

Você começa por estranhar aquelas frases, tão diferentes das que você escreveu, e que ainda assim são supostamente suas. Depois você vai reconhecendo a inflexão do personagem, a sequencia de acontecimentos, as metáforas, as pequenas sacadas estilísticas, até que de repente o texto volta a lhe pertencer, porém de uma forma completamente nova. 

Você interioriza o ritmo da outra língua, sente certa familiaridade, certo acolhimento, mas ao mesmo tempo saboreia as pequenas diferenças, admira-se de como o tradutor conseguiu encontrar a frase certa para esta ou aquela expressão local que você mesmo julgava impossível traduzir. É algo como viajar para uma cidade desconhecida, onde tudo é diferente e novo, e de repente encontrar um velho amigo e passar algum tempo rememorando aventuras de juventude. 

Sou muito grato a Rafa Lombardino por ter me permitido essa experiência simplesmente mágica. Hoje, com a facilidade de se publicar, na inernet e em outros meios, vejo que quase todas as pessoas estão se tornando escritores. Se o mesmo fenômeno se passar com a tradução, se, de repente, o mundo sofrer uma multiplicação inexplicável de tradutores, todos os textos terminarão por ser traduzidos, os geniais, os brilhantes, os completamente boçais, os nojentos e os neutros.

Qualquer um passará pela experiência de ver seus próprios personagens falando em outra língua. Assim a experiência deixará de ser mágica e se tornará vulgar como fazer um cruzeiro ou passar uns dias em Ibiza.


RONALDO BRITO ROQUE nasceu em Cataguases, Minas Gerais, mas mora no Rio de Janeiro desde 2003. Frequentou a Universidade Federal Fluminense em Niterói, mas não se formou. Trabalhou na Caixa Econômica Federal, mas decidiu deixar o emprego para se tornar tradutor em período integral e tentar a sorte como escritor. Estreou com "Romance barato", publicado pela Multifoco em 2010. A primeira edição se esgotou em apenas seis semanas. Publicou também "Duplo sentido" e "Meias palavras" independentemente pela loja Kindle. Seu conto "Gravata" foi traduzido como Necktie para o site Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS), especializado em contos brasileiros traduzidos para o inglês. Atualmente continua trabalhando como tradutor freelance e está escrevendo seu próximo romance.