De traduções jurídicas e comerciais às literárias

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti a uma palestra chamada Como fazer a transição das traduções jurídicas e comerciais para as literárias, apresentada por Marianne Reiner, proprietária e co-fundadora da TransConnect, uma agência de tradução que se especializa em traduções jurídicas de inglês e francês.

Nesta apresentação inspiradora, Marianne nos contou sobre a sua caminhada na indústria da tradução e como ela acabou equilibrando o trabalho na sua área de especialização e os projetos literários de inglês para francês. Ela começou dizendo que existem várias semelhanças entre trabalhar como tradutora de assuntos jurídicos e como tradutora de livros: "Temos um senso de precisão, uma mente analítica, adoramos contar histórias e estamos cientes de que erros podem ser fatais", ela resumiu.

Ao aconselhar os presentes que talvez queiram seguir o seu exemplo, Marianne disse que procurar uma editora é o mesmo que procurar um cliente direto. "Aprenda tudo o que puder sobre o mercado-alvo e o ramo literário. Familiarize-se com a linha editorial da empresa. Além disso, conheça o seu próprio estilo, do que você gosta e não gosta". Considerando as suas experiências jurídicas, ela também disse que é uma boa ideia pensar como um advogado e ter as ferramentas necessárias para traduzir como um escritor. "Pesquise os contratos editoriais, negocie o que for negociável e esteja sempre em dia com a receita federal."

Graças ao seu dom para pesquisas e grande persistência, ela entrou em contato com uma editora literária na Éditions Allia e foi selecionada para traduzir "Trial By Fire", de David Grann. Com um título no currículo, Marianne passou a investir na carreira editorial e enviou uma cópia do seu primeiro livro traduzido para outro editor na França, agendando uma reunião.

"Eu não tinha nada (ou quase nada) a perder e tudo a ganhar", ela lembra. Foi assim que ela foi contratada para traduzir An Unquenchable Thirst: A Memoir, de Mary Johnson, como Une quête infinie em francês para Éditions Robert Laffont.

Marianne disse à plateia que seu próximo passo é abordar escritores que publicaram seus próprios livros, pois descobriu que eles são bastante abertos ao diálogo. "As histórias de sucesso deles também podem se tornar histórias de sucesso em tradução", ela comentou. Entretanto, ela mantém uma perspectiva realista quanto aos livros eletrônicos publicados independentemente, que ela reconhece que estão quebrando barreiras no ramo: "Alguns mercados continuam resistindo aos ebooks, incluindo a França".

Finalmente, ela falou do seu ponto de vista, segundo o qual tradutores são as pessoas ideais para trabalhar com editoras. "Falamos pelo menos dois idiomas e podemos servir de olheiros. Somos os mais indicados para compreender totalmente o original e o texto final. Sabemos o que pode funcionar e o que não vai dar certo no mercado estrangeiro."

Eu, pessoalmente, acredito que podemos ir um pouco além: Por que não defender a ideia de tradutores como editores e ajudar os escritores a alcançar leitores em todo o mundo por meio da tradução literária?


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).