Tradução teatral e interpretação cultural

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti a uma palestra chamada Exportação da cultura espanhola pela tradução teatral, apresentada por Jorge Braga Riera, professor adjunto da Universidade Complutense de Madrid e autor do livro Classical Spanish Drama in Restoration English (1660-1700) ["Dramaturgia clássica espanhola na restauração inglesa (1660-1700)"]

Braga comentou peças espanholas seletas que foram montadas em teatros ingleses e americanos entre 1998 e 2008, dentre elas adaptações dos mestres da época áurea da literatura espanhola: Miguel de CervantesPedro Calderón de la BarcaJuan Ruiz de AlarcónMaría de ZayasLope de Vega e Tirso de Molina.

Ele iniciou a sua apresentação destacando o fato de que o público que fala inglês, em sua maioria, ignora o trabalho de muitos dos dramaturgos espanhois e, consequentemente, a atividade tradutória é escassa. Quanto ao contexto da montagem, ou seja, como as peças estrangeiras serão recebidas pelo público, Braga explicou que existem três componentes que influenciam a tradução e adaptação teatral: os contextos sociais, políticos e religiosos.

Na área social, o palestrante mencionou questões relacionadas a como a Espanha é vista internacionalmente. "Sempre tentam fazer alguma coisa ligada ao flamenco", Braga brincou, mencionando uma das manifestações culturais mais conhecidas do seu país.

Usando como exemplo La vida es sueño, de Calderón (traduzida recentemente como "Life is a Dream" e "Sueño: A Play in Three Acts"), ele mencionou que algumas traduções adaptaram o conteúdo para que o personagem principal, Segismundo, príncipe da Polônia, se casasse com uma personagem feminina chamada Rosaura para, assim, garantir o "final feliz". Em outras versões, a trama secundária envolvendo Rosaura ganha mais importância para que seu papel seja elevado ao mesmo patamar do papel de Segismundo.

Do alto, à esq., no sentido horário:

La vida es sueño de Calderón
La verdad sospechosa de Alarcón
El burlador de Seville de Molina
Lo fingido verdadero de Lope de Vega
La traición en la amistad de Zayas

Sobre o papel social das mulheres no teatro espanhol, Braga lembrou o público que essas peças clássicas geralmente representavam as senhoritas como propriedade de um homem, mais comumente o pai ou o marido, mas as traduções contemporâneas têm a liberdade de mostrar um lado mais liberal, considerando o contexto da montagem. Nesses casos, os tradutores recorreram a mecanismos de acentuação, alteraram papeis no enredo, adaptaram o registro de linguagem das personagens do sexo feminino (mudanças no decoro, linguajar arcaico transformado em expressões modernas) e até a explicitaram comentários de natureza sexual.

Entretanto, o palestrante chamou a atenção da plateia para o que ele chamou de "distrações técnicas", tais como a introdução de uma abertura sexual e figurinos mais ultrajantes. Sobre esse ponto em particular, Braga lembrou que em La traición en la amistad, de María de Zayas, traduzida em 2006 como "Friendship Betrayed", havia uma personagem chamada Fenisa que se vestia como Madonna (a cantora, não a figura religiosa).

Quanto ao conteúdo político, o palestrante mencionou a questão dos prisioneiros de guerra e dos campos de concentração em La vida es sueño e como algumas versões mudaram a ideologia do original ou recorreram à apropriação cultural a fim de adaptar a história para o contexto político contemporâneo. O mesmo acontece com representações sociopolíticas da homossexualidade, tais como a situação de Segismundo sendo comparada à da comunidade gay, ou La prueba de los ingenios, de Lope de Vega, traduzido como "Labyrinth of Desire", cuja tradução e produção de 2006 explorou elementos homoeróticos.

Finalmente, sobre o contexto religioso nos quais as peças espanholas clássicas foram traduzidas, Braga fez um comentário bastante importante: "Às vezes, a religião é o motivo pelo qual as peças espanholas são traduzidas para o inglês". Ele mencionou o caso específico da Universidade Católica de Los Angeles, que financiou uma tradução nova de Lo fingido verdadero, de Lope de Vega, como "Pretending Made True" para que fosse adaptada para a Califórnia do século 20.

Concluindo a sua apresentação, Braga deixou algumas perguntas para a plateia refletir sobre o papel dos tradutores:

  • Deveríamos alterar o espírito, a cultura ou literatura do original?
  • Deveríamos fazer concessões ao representar a cultura de clássicos traduzidos?
  • A tradução teatral deveria transformar peças em um bem comercial?

RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).