Como se tornar um tradutor literário

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti a uma palestra chamada 10 dicas para tradutores literários, cujo objetivo foi dar algumas ideias ―ou reforçar o que já é feito― tanto para profissionais iniciantes como para os mais experientes. A palestrante Lisa Carter, proprietária da Intralingo, é tradutora de espanhol para inglês, mora no Canadá e conta com seis títulos em seu currículo.

A mensagem principal da sua apresentação é que o aprendizado nunca tem fim. "Eu já tropecei, já caí, inclusive de cara, mas sempre tento aprender uma lição", ela aconselhou. Como acontece com tudo na vida, entrar no ramo literário pode se tornar um jogo de erros e acertos até o tradutor se tornar flexível e tornar-se confiante.

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Leia mais sobre o trabalho de Lisa na
resenha do seminário pré-conferência
sobre traduções literárias
do espanhol para o inglês

 

Dando início ao seu Top 10 está Sair da zona de conforto. Como Lisa disse, traduzir um livro é muito diferente de lê-lo e ela geralmente ouve tradutores dizendo que amam um livro, mas quase nunca tomam a atitude de tentar traduzi-lo. Ela recomenda que os interessados experimentem traduzir literatura entre quatro paredes, sem contar para ninguém, só para passar pelo processo e aprender mais sobre si mesmos como tradutores.

A dica seguinte na lista é Aprender sobre o ramo, porque "tradução literária trata-se mais de publicar do que de traduzir". Lisa disse que já incluiu em sua rotina de trabalho a leitura de várias publicações e sites sobre a área. Precisamos saber o que está acontecendo na indústria, ficar em dia com as últimas tendências, ver quais livros estão sendo traduzidos e quais títulos estão fazendo sucesso em seus respectivos mercados-alvo.

Mais uma recomendação, que pode parecer bastante óbvia, mas que raramente paramos para considerar: Ame o que você faz. O tradutor precisa se sentir à vontade e animado com a história que vai contar, já que passará tantos meses na companhia de um livro, caminhando pelos lugares, convivendo com as pessoas retratadas na história e, acima de tudo, entrando na cabeça do autor para fazer uma versão fiel na língua de chegada. "Não tem problema algum deixar uma oportunidade passar se o santo não bate", ela lembrou o público presente.

Lisa disse então que os tradutores precisam Confiar em si mesmos porque eles são os especialistas bilíngues. Mesmo que o escritor seja fluente na língua estrangeira ou, por outro lado, o editor possa ler o original, é bem provável que nenhum dos dois será capaz de fazer o que um tradutor faz e recriar a história em outro idioma, porém atendo-se ao universo que foi criado originalmente.

Falando do processo de negociação, a palestrante recomendou que todos Considerem as formas de remuneração, principalmente quando os tradutores estão só começando ―seja na profissão ou no ramo, depois de passar anos traduzindo projetos técnicos. Os tradutores precisam ter em mente as remunerações não monetárias, que podem ser tão valiosas quando pagamento em dinheiro. "Essa não é uma atividade cobrada por quantidade de palavras ou por hora. O tempo investido em um livro vai além disso", ela lembra.

Às vezes, trata-se de ter uma amostra do seu trabalho e provar que você é capaz. Outras vezes, trata-se de negociar direitos autorais, que ela comparou a uma apólice de seguro. "Se um livro traduzido se destaca, é por causa do seu trabalho. Se não pedirmos direitos autorais, não estamos melhorando a situação para os nossos colegas. A decisão que você vai tomar afetará a todos nós."

 

 

Leia a resenha da palestra
de Lisa sobre a tradução de
"O código de Deus"

 

 

Entretanto, ainda sobre negociações, criar seu currículo e começar debaixo para adquirir experiência no ramo não significa aceitar todas as condições que lhes são impostas. Os tradutores precisam Negociar o seu valor.

"É claro que é um privilégio traduzir um livro que lhe deixa entusiasmado, mas isso significa que uma editora pode mandar e desmandar em você?" Lisa perguntou à plateia. Sobre o assunto, ela recomendou o contrato modelo do PEN American Center, que ajuda a proteger os tradutores e também defende a exigência de direitos de autor.

Falando de algo mais prático, Lisa recomendou que os tradutores Escrevam, em vez de traduzirem um livro. Ela lembrou a sua primeira experiência com o primeiro conto que traduziu: “Sharks” do escritor boliviano Edmundo Paz Soldán, professor de Literatura Hispana na Universidade Cornell. O próprio escritor disse para que ela se apoderasse da história.

Uma vez concluído o trabalho, a tradução passa pelo processo editorial, e a palestrante aconselhou os tradutores a Acolher as revisões. "Ame o seu editor e prepare-se para admitir seus erros", ela disse, lembrando que às vezes também é preciso fazer pé firme e defender o livro que você criou em outro idioma, tendo sempre o público alvo em mente, já que seu trabalho não é simplesmente substituir palavras, mas estar ciente da sensibilidade cultural também.

No fim da lista, Lisa mencionou duas coisas que são extremamente importantes para o desenvolvimento e a continuidade das nossas carreiras: Corra atrás dos projetos Promova o seu trabalho. Essas duas últimas dicas andam lado a lado porque as editoras geralmente promovem o livro e o autor, não o tradutor.

Em outras palavras, os tradutores precisam chamar atenção para o seu trabalho, principalmente em seus websites, ou talvez em entrevistas sobre seu envolvimento na entrada de um livro no mercado estrangeiro, o que ajuda a deixar seu próprio nome em evidência e contribui para a concretização de novas oportunidades que se formam no horizonte.

"A tradução literária resume-se a trazer um trabalho para um público novo. Se ninguém sabe que o livro existe, ele nunca será lido e o seu empenho será em vão", ela explicou. "Este não é um ramo fácil, nem se move depressa. As suas chances de ter seu trabalho publicado aumentam quanto mais projetos você correr atrás", ela concluiu.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).