Vozes literárias vindas da Itália

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti a uma palestra chamada Tradução de dialetos em literatura, que foi apresentada por um painel composto por Gaetano CipollaJohn DuVal e Florence Russo e moderado por Joseph Perricone.

Durante a introdução, o Sr. Perricone esclareceu que "dialetos" não era a palavra correta por causa das suas conotações negativas, como se cada dialeto fosse uma versão corrompida do idioma principal. "Elas têm o direito de serem línguas por si só", argumentou, ao que os integrantes do painel assentiram antes de falarem sobre as suas respectivas especializações.

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O primeiro a apresentar seu material foi o Sr. Cipolla, especialista em siciliano, que comentou uma de suas traduções para o inglês do poeta Giovanni Meli (Palermo, 1740-1815) em Favuli morali. Ele destacou L’aquila e lu reiddu e explicou como a palavra reiddu indica tanto um tipo de pássaro da Sicilia, do gênero regulus, que em inglês se chama "kinglet", como um rei jovem (reuccio), or "young king".

Para dar mais contexto para o público presente, como já havia explicado em seu livro "Siciliana: Studies on the Sicilian Ethos", o Sr. Cipolla disse que a fábula fala sobre a escolha de um novo rei dentre os pássaros. Os candidatos seriam testados em sua inteligência, dentre outras qualidades. Porém, a águia propôs um teste de força, convencida de que ganharia por ser a mais forte do grupo. Ficou então combinado que o novo rei seria aquele que voasse mais alto. Entretanto, sem que ninguém percebesse, o regulus havia subido na cabeça da águia e, tecnicamente, voado mais alto, sendo então coroado o vencedor.

Em sua tradução, o Sr. Cipolla encontrou uma ótima saída que combina tanto a ideia de que o pássaro se tornara rei como também encontrou uma rima para "kinglet" usando a expressão "king elect" (rei eleito). Mesmo assim, ele garante que não foi fácil chegar a tal solução e, na verdade, levou certo tempo para alcançar tanto o significado como a sonoridade.


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O próximo a se apresentar foi o Sr. DuVal, que apresentou o soneto Er giorno der giudizzio do poeta romano Giuseppe Gioachino Belli (1791-1863). Ele leu a versão romanesca, seguida de três traduções em inglês. Ele disse que a versão de Harold Norse, que se encontra em "The Roman Sonnets of G. G. Belli", tem um "sotaque nova-iorquino", enquanto que a tradução de Miller Williams em "Sonnets of Giuseppe Belli" era impecável do ponto de vista gramatical. Williams também parece ter sido mais "politicamente correto" ao evitar termos como "almas negras" e "almas brancas", referindo-se a elas como "almas más" e "almas boas".

Ele concluiu a sua apresentação com a leitura da tradução em inglês de Anthony Burgess, autor de "A laranja mecânica", publicada em "Abba Abba." O escritor utilizou-se de licença poética, traduzindo o sentido e encontrando rima, porém tomando liberdades na estrutura das frases, adicionando onomatopeia e mantendo Bona sera no fim do poema.

Finalmente, foi a vez da Sra. Russo, que abriu a sua parte da palestra enfatizando que os dialetos italianos ali apresentados "não são corruptelas da língua italiana e que, por acidente histórico, foram classificadas erroneamente de tal forma."

Ela apresentou então outras três versões de Er giorno der giudizzio de Belli, que foram publicadas em uma coluna intitulada "Duelo de tradutores" no Jornal de tradução italiana editada pela Brooklyn College. Ela leu o trabalho dos colegas Peter D’Epiro e Charles Martin, além da sua própria tradução, explicando que decidiu deixar a rima de lado para destacar o sentido das estrofes em sua versão.

Antes de concluir sua apresentação, a Sra. Russo leu a poesia napolitana de Antonio de Curtis, mais conhecido como Totò (1898-1967), um artista italiano multifacetado. A Sra. Russo disse que, apesar de ele ser melhor conhecido por seu trabalho como comediante, ele também foi um grande escritor napolitano que merece ser reconhecido em tradução. Depois que ela leu os versos originais de La filosofia del cornuto, o Sr. Cipolla leu sua tradução do poema em inglês e explicou suas dificuldades ao verter as nuances cômicas que Totò criou ao redor da figura do corno.


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RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).