A versão de Ros Schwartz para "O pequeno príncipe" em inglês

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti à palestra "Com o leitor olhando sobre o seu ombro", que foi apresentada por Ros Schwartz e se concentrou em sua tradução de "O pequeno príncipe", de Antoine de Saint-Exupery.

Ros já teve mais de 60 traduções literárias publicadas tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos ao longo dos seus 30 anos de carreira. Sua co-tradução de "Lorraine Connection", de Dominique Manotti, recebeu o prêmio International Dagger em 2008 e sua tradução de "Kite", escrito por Dominique Eddé, foi indicado ao prêmio Melhor Livro Traduzido de 2013. Além disso, em 2009 ela recebeu a Chevalier dans l'Ordre des Arts et des Lettres, uma condecoração concedida pelo Ministério da Cultura da França em reconhecimento às contribuições feitas às artes e à literatura.

Com um currículo tão impressionante, trabalhar com um clássico deveria ser fácil, mas ela diz que é justamente pela simplicidade do vocabulário do original que a tarefa de produzir uma versão traduzida foi complicada.

"O pequeno príncipe" foi publicado em 1943 e é o livro da língua francesa mais lido em todo o mundo, votado o melhor livro do século 20 na França. Foi traduzido para mais de 250 idiomas e dialetos, incluindo braile, e tornou-se um dos maiores sucessos de venda.

Ros decidiu não consultar as traduções anteriores em inglês para ver o original com outros olhos ao trabalhar na sua versão. Ela explicou que precisava permanecer fiel às palavras de Saint-Exupery, mas também queria que a tradução ficasse natural, como se o pequeno príncipe estivesse mesmo contando a história em inglês.

Com um belo material impresso bilíngue, mostrando dez fragmentos selecionados do livro, Ros falou sobre as decisões que tomou. O vocabulário básico, com palavras como ouverts ou fermés (aberto ou fechado), mouton (ovelha) e chez (lar) se tornaram desafios durante a tradução e ela disse que, às vezes, pediu a ajuda da filha, que fala um pouco de francês e interage com crianças regularmente.

Eis como ela lidou com alguns desses casos:

...boas ouverts ou fermés...

Quando o pequeno príncipe está falando sobre como teve que explicar aos adultos que não havia desenhado um chapéu, mas uma jiboia que engoliu um elefante, ele menciona "jiboias abertas ou fechadas", referindo-se ao desenho da jiboia vista pelo lado de fora e, depois, como uma camada transparente para mostrar o elefante que havia engolido. Ros decidiu deixar de lado o contraste "aberta" x "fechada" ou "dentro" x "fora" e usou elephants inside boa constrictors ("elefantes dentro de jiboias").

...dessine-moi un mouton!

Quando pedem para o pequeno príncipe desenhar uma mouton, que é literalmente "ovelha", Ros decidiu-se por usar lamb ("carneirinho"). Apesar de o termo em inglês descrever a carne do animal que consumimos, ela pensou na cantiga em inglês "Mary Had a Little Lamb" e achou que o linguajar seria mais apropriado para o personagem.

Chez moi c'est tout petit.

Uma frase tão simples, mas com tantas opções! Chez significa "casa" ou "lar" e petit significa "pequeno". Ros pensou na parte do livro em que a frase aparece (quando o narrador e o leitor ainda não sabem que o pequeno príncipe vem de outro planeta) "My place is tiny" ("Meu lugar é pequenininho").

Je m'occupe, moi, des choses sérieuses!
Je suis un homme sérieux!

Para mostrar o contraste entre o mundo dos adultos e a imaginação das crianças, é apresentado o personagem do "homem sério" que trata de "coisas sérias". Ros o representou dizendo "I have more serious matters to attend to!" ("Tenho coisas mais sérias a fazer!") Outra descrição do mesmo personagem também diz que ele é fait gonfler d'orgueil ("cheio de orgulho"), mas ao mesmo c'est un champignon ("um cogumelo"), o que foi traduzido como "puff up with pride (...) he's a puffball!" ("se estufa de orgulho ... ele é um estufado").

Além desse vocabulário básico, porém não tão simples, Ros também encontrou alguns assuntos delicados do ponto de vista cultural ao longo da tradução. Quando a Terra é descrita, o original indica que On y compte cent onze rois (en n'oubliant pas, bien sûr, le rois nègres...). Essa é uma referência ao "reis pretos" e Ros acredita que a observação cai no vazio ao apontar que os reis africanos não podem ser esquecidos, já que vivemos em uma sociedade que se esforça para promover a igualdade dos povos. Ela usou simplesmente "Altogether, it [Earth] has one hundred and eleven kings..." ("Ao todo, [a Terra] tem cento e onze reis") sem fazer a distinção étnica do original.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).