Do alemão para o inglês: Literatura comparada de "A morte em Veneza"

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, assisti à palestra "Morte (e renascimento) em Veneza: nove traduções para o inglês da novela de Thomas Mann". Os palestrantes foram Jeffrey Buntrock, Geoffrey Koby e Sarah Koby (os dois últimos são pai e filha), que demonstraram conhecimentos profundos sobre o livro e fizeram um contraste das diferentes versões disponíveis para os leitores da língua inglesa.

Thomas Mann (1875-1955) publicou "A morte em Veneza" (Der Tod in Venedig) em 1912, que foi traduzido para diversos idiomas, incluindo as nove versões em inglês identificadas pelos integrantes do painel, sendo que cada um se concentrou em aspectos diferentes da obra.

O sr. Koby se apresentou primeiro, falando das substantivações, que é um recurso linguístico comum no alemão, quando verbos ou adjetivos são usados como substantivos. Ele disse que identificou 145 ocorrências na novela e deu alguns exemplos que em inglês se transformaram em the waiting one, ou "aquele que espera" e the hunchbacked one, ou "aquele que é corcunda".

Ele também explicou que, uma vez que uma palavra em alemão é usada para se referir a um personagem de uma história, tal palavra pode ser repetida mais adiante e o leitor não tem problemas em fazer a devida correspondência facilmente. Outra alternativa que os tradutores de inglês encontraram para lidar com este tipo de substantivação é se concentrar no processo, em vez do personagem que perpetra uma ação. Nesse caso, às vezes um "sonhador" (ou "aquele que sonha") foi convertido na ação de sonhar.

"Como você lida com palavras que foram escolhidas com extremo cuidado e as passa para o inglês?" O sr. Koby perguntou para a plateia. "Você pode escolher entre a implicitação ou explicitação. Mas, na explicitação, você corre o risco de transformar um Ernest Hemingway em um James Joyce."

Logo foi a vez de Sara Koby ter a palavra e se concentrar nas cores e no vestuário descrito no livro, cada um representando os personagens e prevendo pelo que o protagonista iria passar no decorrer do livro. "Alguns desses tradutores talvez não tenham percebido a importância que as roupas têm para a história," ela argumentou, mencionando como o filme de 1971, dirigido por Luchino Visconti, capturou bem isso, especialmente como o vermelho foi usado como "fios da morte".

Quando foi a vez de Jeffrey Buntrock, ele enfatizou como sete das nove traduções analisadas pelo painel mostravam algumas semelhanças, sendo que a maior diferença está no estilo que o tradutor trouxe para a versão em inglês e como foi resolvida a questão da subjetivação.

O sr. Buntrock mencionou que a versão de 1970―que na verdade é uma revisão que Erich Heller fez para a Random House usando a primeira tradução para o inglês feita por Kenneth Burke e publicada em 1924―desencadeou diversas novas versões, chegando a um total de seis em um período inferior a 35 anos. Antes da revisão de 1970, houve um hiato de 40 anos desde a tradução de Helen Tracy publicada pela Alfred Knopf em 1930.

Sobre a versão mais recente, o palestrante disse ser a menos profissional de todas as versões para o inglês. "A versão de 2011 é lida mais como um tributo ao movimento gay do que uma tradução séria de uma obra literária," ele criticou o trabalho de Martin C. Doege.

Foi então que aproveitei a oportunidade para perguntar se ele tinha conhecimento do fato de essa ser uma tradução publicada independentemente, já que a editora listada na ficha do livro é a Createspace, uma empresa que faz parte do grupo Amazon e imprime livros sob demanda, conforme o material enviado por indivíduos. Ele disse então que, considerando tal informação, estaria explicada a falta de profissionalismo e cuidado com a versão final apresentada aos leitores.

Finalmente, na última parte da palestra, foi feito um workshop prático com a plateia, que traduziu um fragmento breve consistindo da última frase do livro, que remete à sequência do sonho:

Und seine Seele kostete Unzucht und Raserei des Unterganges.


Dentre os falantes de alemão, todas as palavras da frase original foram analisadas, levando em consideração os diversos significados possíveis, além do peso linguístico e cultural detrás de cada uma delas.

A palavra que mais saltou aos olhos foi Unzucht ("fornicação, luxúria ou obscenidade", em seu significado contemporâneo) por causa da forte conotação sexual. No entanto, na época em que o livro foi escrito, existiam leis na Alemanha que limitavam as atividades sexuais dos alemães, considerando algumas delas como sendo de natureza ilegal (ex.: conduta homossexual). Hoje em dia, essas leis já não existem e a palavra perdeu parte do seu significado com o passar do tempo.

Quando foi perguntado aos integrantes do painel sobre o risco de os leitores modernos não compreenderem o contexto da época ao ler a tradução de um livro escrito originalmente tantos anos atrás, o sr. Koby retrucou: "É para isso que as notas do tradutor foram criadas!" E, para dar um toque a mais ao deleite do público ao ouvir tal comentário, outra pessoa na plateia foi sábia o bastante para sugerir que os tradutores pesquisassem um vocabulário semelhante na leitura de Oscar Wilde (1854-1900), que publicou seus trabalhos originalmente em inglês e também apresentava temas homossexuais nos seus escritos.


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).