“Os tradutores habitam a mente do escritor por muito tempo” diz Lisa Carter

Rafa Lombardino

Durante o 54º congresso anual organizado de 6 a 9 de novembro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Antonio, participei de uma aula magna de três horas, realizada um dia antes do evento, sobre traduções literárias de espanhol para inglês. A aula foi apresentada por Lisa Carter, da Intralingo, que apresentou à classe o trabalho da escritora mexicana premiada María de Lourdes Victoria para debatermos sobre estilos de escrita e a voz dos autores.

A passagem em questão foi retirada do livro de estreia de María, Les dejo el mar, publicado em 2006. Agora que se passaram sete anos, os direitos de publicação foram revertidos para a escritora, que decidiu publicá-lo de maneira independente como Los hijos del mar e traduzi-lo para o inglês.

Lisa deu início ao debate pedindo definições de estilo de escrita: vocabulário, pontuação, nível de linguagem, estado de espírito e estrutura foram alguns dos termos que vieram à mente. Mas o estilo também mexe com os sentimentos do leitor ao apresentar elementos culturais, assim como os personagens e o conteúdo, de uma certa maneira que pode ser bastante peculiar do autor.

"É como o som de fundo, a trilha sonora de um filme," Lisa resumiu. "É a assinatura que identifica o autor. Dá finalidade para a história e não é puramente informativo; causa reação."

Logo discutimos sobre como o escritor tem um público em mente, enquanto que o público de uma tradução provavelmente vai ser diferente. A demografia pode ser semelhante, mas às vezes o Departamento de Marketing de uma editora se envolve na criação de um novo nicho dentro do público-alvo para que a versão traduzida do livro tenha sucesso.

Concentrando-se no papel dos tradutores quando o assunto é estilo da escrita, Lisa apresentou a ideia de ghostwriting. “Assim como os escritores fantasmas, os tradutores habitam a mente do escritor por muito tempo”, ela disse, explicando que apesar de os tradutores terem experiências próprias e não conseguirem evitar que seu próprio vocabulário permeie o texto, é preciso tomar certas decisões que deixarão o livro traduzido com o sabor do original ou como se já tivesse sido escrito no idioma de chegada.

Sobre o assunto, Lisa mencionou como Gabriel García Márquez elogiou seu tradutor, Gregory Rabassa, por traduzir seus livros como se tivessem sido escritos em inglês ―certamente o maior elogio que um tradutor literário poderia sonhar em receber de um escritor.

Conforme lemos alguns parágrafos de "Sin Pilar", primeiro capítulo de Les dejo el mar, e tivemos uma discussão animada sobre as nossas traduções, palavras escolhidas e tentativas de reproduzir o estilo da autora, Lisa leu uma carta em que María fala sobre como ela mesma vê o seu próprio estilo de escrita: "Leio como falo e termino as minhas frases; sem fluxo de consciência."

Na conclusão da aula, Lisa nos deixou com uma consideração importante para reflexão: "O estilo cria uma voz e a voz aparece no estilo". E, apesar de dizer que alguns escritores com quem conversou às vezes não haviam se dado conta da estrutura de algumas partes do seu texto e como ele poderia ser interpretado de maneiras diferentes, o estilo quase sempre é algo intencional: "Os autores raramente não percebem que fizeram algo de diferente."


RAFA LOMBARDINO é tradutora e jornalista brasileira, radicada na Califórnia. Trabalha como tradutora desde 1997 e, em 2011, deu início a uma colaboração com escritores independentes para traduzir suas obras para português e inglês. Além de atuar como curadora de conteúdo no eWordNews, também dirige a Word Awareness, pequena rede de tradutores profissionais, e coordena dois projetos que promovem a literatura brasileira no mundo: Contemporary Brazilian Short Stories (CBSS) e Cuentos Brasileños de la Actualidad (CBA).