Homenagem a uma tradutora literária de inglês para russo

Muitos dizem que os tradutores, especialmente os que trabalham com literatura, devem sempre permanecer invisíveis. Entretanto, existem exceções à regra quando elementos sócio-políticos influenciam o trabalho e a vida dos tradutores e, consequentemente, eles acabam desempenhando um papel importante no futuro de sua nação.

Tatiana Kudriavtseva, uma das tradutoras mais prolíficas de inglês para russo com mais de 80 livros em seu currículo, faleceu aos 93 anos em Moscou no mês passado.

Sua relevância vai além da sua obra, que inclui livros escritos pelos americanos William StyronJohn UpdikeJack LondonNorman MailerGore VidalJoyce Carol Oates e Mario Puzo, além do ex-embaixador americano na União Soviética, Jack Matlock. Ela atuou durante a Guerra Fria, quando o Kremlin controlava o que podia e não podia ser publicado na União Soviética. Qualquer tema que não fosse técnico ou se desviasse da visão política do Comunismo poderia ser considerado propaganda e vício inaceitável, incluindo o que ela chamou de "cenas de atividade carnal".

"Assim que publicássemos algo excepcionalmente explícito, recebíamos cartas imediatamente reclamando: 'Por que você usa um linguajar tão sujo'?" ela disse para a Associated Press em 1982. "Isso é porque continuamos sendo um país de camponeses. A maioria dos nossos intelectuais é da primeira geração de intelectuais. Eles geralmente vêm de raízes rústicas," ela opinou. E tentou mudar tal mentalidade como editora da revista mensal Foreign Literature, que publicava ficção americana. Assim, pode influenciar o que os russos aprendiam sobre os escritores contemporâneos do outro lado da Cortina de Ferro.

Quando ela atuou como vice-presidente da Divisão de Tradução Literária do Sindicato dos Escritores Soviéticos, o poeta Stanley Kunitz, ganhador do Pulitzer, tinha planos para lançar uma  coletânea de prosa e verso dos maiores escritores americanos e soviéticos. "Estamos cientes de que, mesmo quando tivemos relações difíceis no nível político, estivemos sempre abertos no nível cultural", Tatiana disse sobre a relação entre os dois países em 1987. "Foi por esse canal que sentimos o pulso da vida cultural importante das nossas nações ".

Talvez seu trabalho mais influente tenha sido a tradução para o russo de "A escolha de Sofia", escrito por Styron. Ela não podia dizer em sua língua, por exemplo, que a personagem encontrara lençois manchados em uma cama de hotel e teve de traduzir como "a roupa de cama estava suja". Em entrevista ao  The Washington Post, o autor disse que a sua tradutora lidou com os "aspectos maliciosos do meu trabalho” com destreza e delicadeza.

Quando ele perguntou para ela o que teria acontecido se a cena explícita do livro fora publicada conforme o original, ela respondeu: "Eu teria sido executada!" 

Brincadeiras à parte, muitos de seus parentes foram mesmo perseguidos e executados, incluindo seu pai e seu primeiro marido, então ela sabia que tal reação do governo não estava tão distante da realidade. Ela disse que, por esse motivo, sempre pesou o mérito literário contra os tabus soviéticos.

Para saber como Tatiana se pronunciou a respeito da conversa com o escritor, leia (em inglês) os trechos de um discurso que ela fez na Rússia.