Tradução independente de um autor pouco conhecido

Na terceira contribuição com a coluna BOAS NOVAS, publico hoje o texto de José Geraldo Gouvêa sobre a sua experiência com a tradução independente de The House on the Borderland, de William Hope Hodson.

Explorando "A Casa no Limiar"

Em 2011, convalescendo de uma colecistomia (também conhecida como "operação da vesícula"), iniciei um projeto mais ou menos ambicioso que tinha por objetivo básico me manter distraído das dores dos pontos: uma tradução do romanceThe House on the Borderland, de William Hope Hodgson, que nunca havia sido publicado em português. O título escolhido foi "A casa no fim do mundo", apesar de eu achar "A casa no limiar" mais bonito e literal (e eu gosto de traduções bem próximas do literal).

Não foi a minha primeira experiência com traduções literárias. Eu também já havia posto no meu blogue versões de contos de Clark Ashton Smith ("Uma noite em Malnéant") e do próprio Hodgson ("Uma voz na noite"), além de uma letra de música ("Minha alma", de Peter Mayer). Além disso, por volta da mesma época, traduzi algumas obras de Howard Phillips Lovecraft para um projeto coletivo de publicação independente em português de suas obras mais conhecidas. Minhas contribuições foram "O depoimento de Randolph Carter", "O habitante das trevas", "Um sussurro na escuridão", "A busca de Iranon" e "O inominável". Sem falar das vezes anteriores em que traduzira, em troca de dinheiro e sem segurar o crédito, vários tipos de textos técnicos.

As razões da escolha deste romance em especial são prosaicas: está em domínio público, eu o estava relendo na época e tinha tempo de sobra. Por tudo isso eu imaginei que o projeto seria digno de alguma atenção — e eu certamente ando em busca de oportunidades para divulgar a existência e o conteúdo do meu blogue, embora não sonhe em viver da remuneração do AdSense.

Quando a tradução começou a sair, em capítulos semanais, algumas pessoas chegaram a me escrever ou a comentar no blogue, tanto com elogios quanto com críticas. Umas ficaram surpresas com a qualidade literária de um texto quase desconhecido, outras me indagaram por que trazer ao público nacional um texto tão "irrelevante literariamente". 

Alguns destes comentários me deixaram até chateado, por que percebi que são muitas as pessoas que atrelam a popularidade à qualidade ou, pior que isso, não veem relevância na literatura em si, a menos que seja "importante" (e importante é o que sai na mídia). Algumas pessoas talvez achassem desimportante traduzir Platão para o português se ele ainda fosse inédito...

REFERENCIAL ― Este desconhecimento da obra de Hodgson é meio injusto, se considerarmos a força da influência que ele exerceu sobre diversos autores posteriores. Não só Lovecraft, mas Stephen King (especialmente em sua série "A torre negra"), Robert E. Howard (o criador deConan), Clive Barker (autor e diretor de "Hellraiser") e outros. 

Traduzir a obra de Hodgson, portanto, é algo relevante, mas eu não a traduzi pensando em sua relevância ou querendo mudar a história da literatura brasileira. Traduzi porque gostei da obra, porque me deu prazer traduzir, porque aprendi muito no processo. Compartilhei porque eu acredito em compartilhar o conhecimento e porque acreditei que muitas pessoas teriam prazer em ler o que eu havia traduzido com prazer. Felizmente, o tempo foi me mostrando que eu estava certo. Aos poucos a minha tradução vai aparecendo em citações de outros blogues literários. Vai atraindo visitantes, sendo elogiada, sendo fruída com prazer pelos que a descobrem.

Acredito que existem dois tipos de tradutores: os que são pagos para traduzir aquilo que interessa a quem paga e os que traduzem o que querem traduzir. Os primeiros são frequentemente forçados a verter obras que lhes dão desprazer ou com as quais não se identificam. Os segundos têm o prazer, mas depois precisam convencer os outros de que vale a pena difundir, editar ou mesmo meramente ler aquilo que traduziram. 

Já estive dos dois lados. Em certa época de minha vida eu ganhei dinheiro fazendo monografias e traduzindo textos técnicos. Ainda lembro com horror de um longo artigo de uma obra de oncologia que eu tive que traduzir para um estudante de medicina. Algumas frases que eu tive que traduzir ainda assombram alguns de meus pesadelos com muito mais vividez do que os episódios mais cruéis dos filmes de terror mais pesados.

DESCOBRINDO HODGSON ― E traduzir Hodgson certamente é um prazer. Por se tratar de um autor praticamente desconhecido, o tradutor tem um grau de liberdade maior do que aquele que se encontra na tradução de nomes consagrados, de forma que ocasionais emendas não serão vistas como "violações" da pureza do original. O processo se torna criativo, interativo, em vez de uma tentativa mecânica de transcrever em outro idioma o que o autor disse. E olha que tem muita gente traduzindo mecanicamente texto literário, tanto quanto há quem escreva mecanicamente e diga que é literatura.

Hodgson é, também, um autor que merece ser traduzido. Se não por suas qualidades intrínsecas, que podem ser experimentadas em contos concisos e interessantes, como o citado «Uma Voz na Noite», certamente pela influência que teve em autores posteriores. Foi, aliás, seguindo a trilha desta que eu comecei a me aproximar dele. 

Tudo começou quando ouvi falar de um romance chamado The Night Land (algo como "A terra noturna", traduzindo com fidelidade ao contexto da história). Havia um sítio dedicado a promover fanfic inspirada nele. Lá encontrei alguns artigos sobre o livro, alguns mapas e ilustrações, algumas fac-símiles de capas. Gostei dos contos ali e logo imaginei que se os fãs andavam escrevendo coisas tão interessantes baseadas na ideia original ela certamente seria boa. Lembrei então que o autor e a obra haviam sido profusamente elogiados por Lovecraft no seu ensaio "O Horror sobrenatural na literatura" e decidi ler. 

Seus conceitos, apesar de desenvolvidos na primeira década do século XX, ainda são originais em face do que se escreve na nossa literatura fantástica, tão dependente de romances americanos da moda. Não chego a afirmar que Hodgson é um clássico esquecido ou um gênio incompreendido da literatura, mas me parece bem óbvio que é um autor que vale a pena ler, mas quase ninguém no Brasil leu. Obtive, então, uma edição eletrônica no Project Gutenberg e mergulhei nas trevas do futuro distante. Isso foi ainda em 2002.

Lendo The Night Land ―que aparentemente está inédito em português― compreendi a relevância de Hodgson para a "literatura fantástica" (aqui um rótulo abrangente para incluir ficção científica, fantasia, terror, mitologia, ficção histórica e outros temas que se cruzam facilmente na obra de seus maiores expoentes). Hodgson foi um pioneiro do que hoje é chamado denew weird, que consiste em justamente empregar com liberdade os temas acima mencionados, e outros inclusive, em uma obra que trafega, inclassificável, entre as fronteiras dos nichos literários. Há cem anos, este inglês mesclava reencarnação, piratas do Caribe, cosmologia, histórias de marinheiro, romances platônicos, literatura gótica, lendas célticas, arquétipos mitológicos, teorias de psicologia, devoção cristã e outras coisas, resultando em um universo caótico e rico.

No caso específico da "A terra noturna", a leitura me impressionou sobretudo porque a imaginação do autor concebeu todo um universo, até mesmo leis físicas próprias, recorrendo à teologia, à cosmogonia, à mitologia e uma ampla variedade de conceitos físicos e metafísicos para contar… uma história de amor. Não uma história de amor qualquer, mas uma que se passa no fim do mundo, em um planeta moribundo, cercado por ameaças inomináveis que podem destruir… a alma.

UNIVERSOS COMPLEMENTARES ― Depois de «A terra noturna» eu fiquei um bom tempo sem ler outras obras de Hodgson até que um dia topei com a resenha de um conto dele que tinha a interessante tese de que a pronúncia correta das últimas palavras de Jesus na cruz seria, na verdade, uma poderosa arma de destruição em massa, capaz de fender os montes, rasgar o véu do templo e abrir as sepulturas ―metáforas para um grande terremoto. Um bandido qualquer tentava por as mãos num pergaminho que explicava a coisa toda e o protagonista tentava impedir. Procurando este conto para ler, deparei-me com The House on the Borderland, que era citado como uma obra complementar do mesmo universo de "A terra noturna". Parei, então, de procurar pelo tal conto sobre as palavras de Jesus e fui ler Borderland.

Existem, de fato, semelhanças entre ambas as obras, principalmente no terreno do imaginário (estilisticamente falando elas são bem diferentes, ainda que ambas recorram a um narrador intermediário entre o original e o leitor). Refiro-me a uma cosmologia pessimista, que parece refletir o estado de espírito dos homens da Belle Époque. "A casa no fim do mundo" narra a história de um nobre irlandês (cujo nome não é nunca dito), que se isola em uma antiga e estranha mansão no extremo oeste do país, o chamado Gaeltacht ―região onde todo mundo falava (pelo menos na época em que a história se passa) apenas o gaélico. A casa ele comprara por um preço irrisório, devido à fama de mal-assombrada que lhe havia deixado sem moradores por quase um século.

Nesta casa encontramos o narrador, cuja história nos chega através do “manuscrito” achado pelos senhores Tonnison e Berreggnog (uma estranha dupla de ingleses que, sabe-se lá por que motivo, resolveu acampar bem no meio do nada, em uma região da Irlanda cujo povo nem sabia inglês). O narrador se vê então diante de um mistério: a aparição de misteriosas criaturas de aparência suína, que passaram a atacá-lo desde um transe durante o qual obtivera um vislumbre do universo. 

Acompanhamos este irlandês sem nome, que ali vive sozinho com uma irmã mais velha, chamada somente de “Mary”, enquanto enfrenta os tais caras de porco. Depois o seguimos em suas explorações do terreno e, ao seu lado, fazemos interessantes descobertas sobre sua casa até, por fim, mergulharmos com ele em um gigantesco pesadelo cósmico que vai além de tudo quanto podemos imaginar e cujas consequências fogem não apenas às leis básicas da ciência, como vão até contra os princípios mais comuns da lógica narrativa.

Tão poderosa e estranha é a narrativa da segunda parte do romance, cujo tom quase psicodélico deixa o leitor a maior parte do tempo “sem chão”. Não são poucos os leitores que a rejeitam, não são poucos os que dizem que o romance “teria sido melhor” caso tivesse somente a primeira parte. Gosto é gosto, uma afirmação tautológica até inútil, mas é verdade que, sem a segunda parte, o romance seria bem menos interessante, seria só uma história de horror comum sobre um esquisitão recluso enfrentando porcos espertos. Certamente menos interessante do que o redemoinho de ideias a que a segunda parte tenta nos levar.

Boa parte do cenário que serve de base para «A Terra Noturna» é reaproveitado, mas em uma história de escopo muito mais amplo e universal, literalmente. Entre as semelhanças temos o encontro de uma estrutura misteriosa e grande em um terreno hostil (o "último reduto" em «A terra noturna» e a mansão misteriosa em "A casa no fim do mundo"). Este tipo de estrutura se tornou com o tempo um tema recorrente na literatura fantástica, a ponto de receber uma denominação, "arcologia" (em inglês "arcology"), popularmente referida pelos fãs como B.D.O. ("big dumb object" ou "grande objeto estúpido"). Famosas histórias que envolvem o conceito são o filme "2001: Uma odisseia no espaço", o romance "Ringworld", de Larry Niven e a parte inicial do filme "Alien".

Apesar das limitações do estilo do autor, que não tinha a prosa fácil de Edgar Allan Poe ou a erudição calculista de Lovecraft, o romance consegue causar uma impressão profunda, graças à originalidade do argumento, a ousadia com que a história é estruturada e o cenário absolutamente massacrante no qual os personagens interagem com o enredo. O ar sinistro, carregado de fatalismo e de inércia que se abate sobre o protagonista faz com que esperemos a cada minuto algum tipo de reviravolta. Algumas sequências, como a visita à caverna à borda do lago, são realmente sufocantes.

Se em "A terra noturna" tínhamos um herói a mover-se por um mundo cheio de ameaças, em busca de um amor quase impossível, neste romance temos um herói imóvel cujo mundo se move em torno de si! Numa obra o amor do passado espera no futuro, através do milagre da reencarnação; na outra o amor do passado existe apenas como uma vaga lembrança, uma voz profética do subconsciente que tenta despertar o protagonista de sua modorra e fazer com que pelo menos tente salvar-se do inevitável. Nas duas obras o começo e o fim se encadeiam como a serpente mitológica que mordia o rabo: em ambas o prazer não está na surpresa do fim, inexistente, mas na força do conjunto. São livros que nos agradam pela experiência da leitura, não pelos sobressaltos da emoção ao antecipar o que poderá acontecer. 

Desde que li "A Terra Noturna", e mais ainda desde que li "A casa no fim do mundo", a minha narrativa se contaminou um pouco com o estilo pesado de Hodgson e eu me aproximei de sua visão cosmogônica pessimista. Descobri com ele que o mundo não tem salvação, mesmo que a danação esteja milhões de anos no futuro.


JOSÉ GERALDO GOUVÊA é graduado em História e pós gra­du­ado em Desen­vol­vi­mento Regio­nal Sus­ten­tá­vel. Pro­fes­sor por for­ma­ção, escri­tor ama­­dor, ban­­cá­rio por pro­­fis­­são, atle­­ti­­cano por des­­tino, român­­tico de cora­ção. Teve um de seus contos traduzido para o inglês ao participar da coletânea Contemporary Brazilian Short Stories Vol. 1 (2011-2012).