“Sou o escritor italiano que mais vende nos EUA, mas é o Giles que todos leem em inglês”, afirma Beppe Severgnini

Para concluir a minha rodada de resenhas sobre as apresentações literárias organizadas durante a conferência da ATA, aqui vai uma visão deliciosa sobre a dinâmica entre escritor e tradutor

Durante a 53ª conferência anual organizada nos dias 24 a 27 de outubro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Diego, assisti à apresentação Escritor e tradutor: uma história de sucesso. Ela foi coordenada pela Divisão da Língua Italiana e dividida em duas sessões de uma hora cada com o tradutor de italiano para inglês Giles Watson e o escritor italiano Beppe Severgnini.

A primeira parte da apresentação teve a intenção de apresentar dois personagens que, na verdade, dispensam apresentações. Severgnini é o escritor italiano contemporâneo mais vendido nos Estados Unidos. Watson é nada mais, nada menos do que a voz dele em inglês.

Eles já trabalham juntos há mais de 20 anos, quando o tradutor entrou em contato com o escritor para oferecer ajuda com a sua escrita. "Ele me escreveu e perguntou se poderia indicar alguns erros que eu tinha cometido", Severgnini se lembra, mencionando o seu livro de 1990, Inglesi. "Então ele me envia uma carta com cinco páginas explicando todos os erros factuais no meu livro."

Desta crítica construtiva, nasceu uma relação dinâmica. "Temos mais ou menos a mesma idade", Watson destaca o que os aproximou. "Nós dois viemos de uma família de profissionais de classe média e, talvez mais importante, concluímos o ensino médio clássico, o que significa que compartilhamos o amor pelo idioma."

Eles também se completam por causa das diferenças em personalidade e comportamento, não só pela herança cultural (um é escocês e o outro é italiano), mas pelos papeis que desempenham.

O tradutor é mais pacato, metódico e cronológico. O escritor é entusiasmado, divertido e gosta de "contar causos". Disseram que era a primeira vez que faziam uma apresentação daquele tipo, mas como um dos presentes falou, os dois poderiam deixar de lado as suas profissões para se tornarem uma dupla de comediantes, pois a troca e a interação divertida entre eles foi perfeita.

Como um casal, brincam de bater boca um minuto para depois concluir um o pensamento do outro. Como irmãos, parecem sempre estar prontos para se ajudarem. Como melhores amigos, destacam as qualidades mútuas. E, como sócios ideais, um termina o que o outro começou.

Um italiano na América ― A primeira colaboração dos dois veio em 1992 com L'inglese. Lezioni semiserie ―uma paródia daqueles livros de frases prontas, mas com expressões realmente úteis em inglês para os turistas usarem na prática.

Então, depois de passar um ano nos Estados Unidos como correspondente do jornal italiano La Voce, Severgnini decidiu usar a sua temporada americana no livro que se transformaria no sucesso de 1995: Un italiano in America. Quando chegou a hora de traduzi-lo para o inglês, ele decidiu entrar em contato com o seu novo melhor amigo. "Sr. Watson, por que não trabalhamos juntos? Assim o senhor pode me ajudar antes de a primeira edição sair", ele propôs.

Severgnini queria disponibilizar o livro em inglês com uma tiragem em pequena escala, cujo público-alvo seriam os expatriados. "Fomos bobos o bastante para fazer algo que ninguém queria fazer", o autor disse. Mas o esforço não foi em vão: An Italian in America, em inglês, foi publicado na Itália em 2001 e, no ano seguinte, estreou nos EUA sob o título Ciao, America! An Italian Discovers the U.S..

"Você lê o italiano, você lê o inglês, está tudo ali. Ninguém perde nada e há só algumas viradas aqui e ali", Severgnini elogia o amigo Watson. "Eu me deixei levar por algumas das frases mais rebuscadas", o tradutor rebate na lata. "Quando um escritor reflete sobre a sua escrita, fica fácil traduzir. Quando ele não faz isso, é como se a gente tivesse que limpar a casa depois de uma festa de arromba", Watson retribuiu o elogio.

Sucesso ― Severgnini disse que ninguém pareceu dar muita bola meses depois de a versão em inglês ter sido publicada nos EUA. Trabalhando como o correspondente de Londres para o Corriere della Sera há anos, ele conhecia vários jornalistas americanos e decidiu convidá-los para uma palestra que faria em Chicago. 

"Pensei que eles pudessem servir de ponte para o livro", admite. "Mas o milagre aconteceu mesmo em Washington. Foi literalmente um milagre na rua 34", completa, fazendo referência ao título em inglês do filme clássico de natal "De ilusão também se vive". Foi aí que o livro apareceu no radar da CNN. O resto entrou para a história.

Os leitores gostaram tanto do que leram que começaram a fazer uma peregrinação para a casa onde o escritor morou nos EUA, num fenômeno parecido com o que aconteceu na Itália depois do lançamento de "Sob o sol da toscana" de Frances Mayes. Os fãs queriam tirar fotos na frente da casa e, às vezes, até tentavam visitar o jardim que fora descrito em detalhes no livro.

"Os novos proprietários acabaram colocando a casa à venda por causa da falta de privacidade", ele afirma. "Fui visitá-los uma vez e eles disseram: 'Desculpa, mas não podemos recebê-lo'. Eu respondi: 'Vocês compraram, mas a casa vai ser sempre minha'."

Quando um jovem casal se mudou para lá e se apaixonou pela história do imóvel, eles o receberam de braços abertos. Até colocaram um aviso dizendo "Casa do Italiano na América: As fotos são de graça. Para visitar o jardim, traga uma garrafa de vinho".

Negociações ― O trabalho que deu continuidade à parceria para o público em inglês foi La Bella Figura: A Field Guide to the Italian Mind (título original La testa degli italiani e título em português A cabeça do italiano). O livro foi publicado em 2006 nos EUA e, no ano seguinte, foi parar nas prateleiras da Inglaterra.

Dessa vez, conforme o escritor foi escrevendo, o tradutor foi traduzindo. "O processo gerou problemas", Watson recorda. "Quando a editora recebeu a primeira versão, decidiram que precisava de alguns ajustes." A sorte foi que ele estava usando uma ferramenta de tradução assistida por computador (CAT), que foi bastante conveniente na identificação do que havia sido mudado durante as diversas edições, dinamizando assim o processo.

Com o primeiro livro traduzido, o contrato era do tipo "é pegar ou largar", com mais vantagens para a editora. Watson entrou então para a Associação de Tradutores da Sociedade de Escritores de Londres para ficar numa posição melhor ao negociar contratos futuros. Somente com a terceira colaboração é que a situação melhorou para o tradutor.

"Ofereci à eles [da editora] duas opções: uma tarifa mais alta por palavra ou uma tarifa mais razoável com cobrança de direito autoral. Eles ficaram com a tarifa mais alta", Watson explica. Quando alguém da plateia perguntou o que ele achava de receber direitos autorais, o tradutor disse que especular sobre vendas é negócio de editor. "Não é algo em que o tradutor deveria se envolver. Você faz o seu trabalho, eles pagam e você segue em frente. Eu ganho a vida traduzindo e gosto de planejar a minha renda na medida do possível."

O tradutor percebeu que as editoras não gostam de pagar direitos autorais para os tradutores. Um livro pode levar meses para ser traduzido, então a instabilidade do câmbio pode afetar seriamente o pagamento. "Se possível, certifique-se de que o contrato especifica a sua moeda", Watson aconselha. "Caso contrário, negocie pagamentos em parcelas. Senão, você poderá acabar perdendo, ou talvez até ganhando uma quantia considerável. Já aconteceu os dois comigo."

Watson tinha mais uma sugestão para os colegas presentes. "Pague as contribuições, pague os impostos e cobre mais". Ele explicou que na Itália, onde mora, a tradução de literatura é tratada como trabalho criativo. No entanto, ele prefere cobrar por todas as suas traduções, sejam elas técnicas ou literárias, como trabalho contratado com imposto sobre valor agregado. Assim, parte da sua renda não é investigada pelo imposto de renda italiano por não ser passível de IVA, pois consequentemente não entraria no seu cálculo como contribuinte.

Polêmica ― Na terceira e mais recente colaboração, Mamma Mia! (título original La pancia degli italiani), o potencial para a polêmica era maior. O autor diz que já esperava que o livro não vendesse como água na Itália por causa do protagonista: o primeiro-ministro e magnata dos meios de comunicação Silvio Berlusconi. 

"Mas eu queria ver o livro traduzido no mundo inteiro. Se La Bella Figura foi um curso básico sobre a Itália, La pancia é um doutorado", ele compara.

Severgnini confessa que foi difícil escrever sobre um personagem polêmico, que é a personificação do melhor (otimismo) e pior (falta de confiança) dos italianos. "Ele é Chavez, Putin e Sinatra em um só. Um estereótipo ambulante."

Mesmo assim, seu objetivo foi explicar um pouco as diferenças culturais entre a Itália e diferentes partes do mundo. "Se alguém ler e der risada, isso quer dizer que eu saí ganhando."

Dinâmica da tradução ― A segunda parte da sessão foi reservada para explicações mais práticas sobre como funciona o trabalho entre autor e tradutor. De acordo com eles, o bom da colaboração de longa data é compreender como o escritor usa sua língua materna.

Alguns slides mostraram parágrafos lado a lado dos livros em que Watson e Severgnini colaboraram, destacando a contagem de palavras e de caracteres de cada versão. Sempre que a tradução para o inglês ficava mais comprida do que o original, Watson confessava que havia se deixado levar.

Watson também explicou que os tradutores literários precisam encontrar um ponto de equilíbrio entre o conhecimento das estruturas gramaticais e uma abordagem que reflete mais o tom de conversa. Isso é bastante válido quando se traduz alguém como Severgnini, cujo linguajar está próximo do que é usado em roteiros para filmes e em crônicas do cotidiano.

"Quando você está na mesma sintonia que o escritor, o esboço já sai bom", Watson explicou. "A primeira e a segunda revisões são para você enxugar e usar o ouvido. As palavras precisam chegar facilmente. Não dá para ficar ali sentado esperando."

"Essa é a modéstia britânica. Você está nos Estados Unidos, pode se gabar", Severgnini brincou. "Ele é bastante rápido e estamos acostumados um com o outro. Somos como dois carros que partem de um ponto ao mesmo tempo, mas tomam caminhos diferentes e chegam ao mesmo lugar", o escritor conclui, elogiando o tradutor mais uma vez.