“É importante refletir sobre o que fazemos. É isso que nos torna tradutores melhores”, afirma Jayme Costa

Dando continuidade à minha rodada de resenhas sobre as apresentações literárias organizadas durante a conferência da ATA, aqui vai um pouquinho de teoria para apoiar tradutores que trabalham com a prosa do século 21

Durante a 53ª conferência anual organizada nos dias 24 a 27 de outubro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Diego, assisti à apresentação da Divisão de Língua Portuguesa (PLD) intitulada Traduzindo a prosa do século 21. O apresentador, Jayme Costa Pinto, é tradutor de inglês para português e coordenador do curso de formação de tradutores e intérpretes da Associação Alumni em São Paulo. Suas traduções literárias incluem obras dos escritores americanos John Updike e Seth Morgan e ele participou de um programa de treinamento especial para intérpretes do Instituto Monterey de Estudos Internacionais na Califórnia.

Costa acredita que refletir sobre o nosso trabalho de tradução é de extrema importância, pois nos ajuda a avaliar as decisões idiomáticas que tomamos todos os dias. "É isso que nos torna tradutores melhores", ele explica.

Para ajudar neste exercício de reflexão, ele recomendou o livro “The Turns of Translation Studies: New paradigms or shifting viewpoints?” de Mary Snell-Hornby, que faz parte da série Benjamins Translation Library, e “The Theory and Practice of Translation” de Eugene A. Nida.

A boa e velha dicotomia ― Costa lembrou os presentes que um dos maiores dilemas enfrentados pelos tradutores é usar as mesmas palavras no idioma de chegada, sendo então fiel ao original, ou mudá-las de maneira a passar o mesmo significado para de alguma forma adaptar ou regionalizar o conteúdo.

O palestrante citou três pensadores e teóricos e como eles viam tal dilema na época em que viveram. Cícero, no século 1 a.C., priorizou a fidelidade do texto, apesar de não defender a tradução de palavra por palavra.

Nicolas Perrot d'Ablancourt, que trazudiu clássicos do grego e do latim para o francês nos idos 1600 (incluindo Cícero), não hesitava em mudar as palavras para esclarecer os pensamentos por trás delas, não sendo assim necessarialmente fiel, mas na verdade "modernizando" os textos antigos. Um comentário malicioso sobre uma de suas traduções resultou na expressão popular les belles infidèles [as belas infieis].

Friedrich Schleiermacher (1768-1834), teólogo alemão e tradutor de Platão, uma vez disse: "Os tradutores devem deixar os leitores em paz ou então levá-lo ao encontro do escritor, ou vice-versa".

Tomando decisões com base na teoria ― Costa apresentou então uma lista de teorias que apoiam os tradutores na decisão de como vão interagir com ou interferir no texto:

  • Domesticação (conformar-se à cultura do idioma de chegada, o que pode implicar na perda de informações do texto original) X Estrangeirização (reter informações do texto original, o que pode implicar na quebra com as convenções do idioma de chegada a fim de conservar o significado)
  • Equivalência formal (palavra por palavra ou significado de palavras individuais, independentemente da sequência sintática) X Equivalência dinâmica (sentido por sentido ou significado das frases como um todo)
  • Fidelidade ou “Lealdade
  • Transparência e Invisibilidade
  • Tradução como força criativa, um elemento que constitui pensamentos e realidades

Um dos exemplos apresentados por Costa para uma adaptação bem-sucedida é o termo at the bottom of the ninth, que o inglês pega emprestado da terminologia do beisebol e significa que algo aconteceu "no último instante". Com o público brasileiro em mente, o palestrante usaria "45 minutos do segundo tempo", adaptando assim a tradução para uma analogia do futebol que está bem mais próxima da realidade cultural do idioma de chegada.

"Às vezes, no mesmo parágrafo, a gente decide por aproximar o leitor do significado, para depois incomodá-lo a procurar o significado por si mesmo", ele explica. "A tradução é um jogo de perdas e ganhos. Às vezes você ganha, às vezes perde. Você pode facilitar e explitar tudo para o leitor, ou pode fazê-lo buscar a informação e adquirir conhecimentos ao ler o texto."

O "jogo" de inglês e português ― Pensando nas suas línguas de trabalho, Costa comparou os estilos de escrita: "O inglês gosta de verbos, enquanto o português gosta de substantivos". Ele mencionou como a estrutura das frases é diferente em cada idioma e chamou a atenção da plateia para a "oralidade" como meio de fazer as expressões verbais soarem naturais na tradução.

Outros componentes mencionados incluíram a fala formal e informal, a linguagem enquadrada dentro e fora do padrão (verbo no singular que não corresponde ao sujeito no plural), a exatidão gramatical (substantivo e artigo que não condizem no masculino ou no feminino), contrações fonéticas e o léxico (gírias).

Um exemplo que ele mencionou é a série "In Treatment", da HBO, que na versão brasileira estreou na GNT como "Sessão de terapia" e cuja grande parte do roteiro reflete o original. Conforme ele apontou, algumas declarações feitas pelos pacientes na telinha foram escritas em português literal demais e não ficaram naturais como se fossem pessoas expressando-se no consultório de um psiquiatra. Ele atribui essa questão à "reverência exagerada" à palavra escrita em português, o que dificulta a construção de diálogos que representam a oralidade do dia a dia.

"Tem um tradutor literário no Brasil com uns cem livros no currículo e que só agora conseguiu convencer os editores a usar contrações orais, como 'tá' e 'pra' nas traduções dele para o português", ele mencionou, concluindo o assunto sobre expressão verbal.

Fórum de discussão sobre prática ― Na sequência, para encerrar a apresentação, foi feito um debate gostoso com exemplos retirados do livro "One Day", de David Nicholls, que no Brasil levou o nome de "Um dia". Costa destacou alguns trechos interessantes do original em inglês, pediu sugestões do público e depois mostrou as suas próprias soluções, dizendo que não havia lido a versão brasileira e preferia não consultá-la durante o exercício prático.

"É o prazer de chegar a uma solução", ele explica. "Eu estudei, me formei, li e cheguei a esta solução. O editor pode não aceitar, mas dá prazer."