"É possível dizer tudo em qualquer idioma. Só é preciso fazer isso de maneira diferente", explica Zuzana Kulhankova

Abrindo a rodada de resenhas sobre as apresentações literárias organizadas durante a conferência da ATA, aqui vão algumas dicas para refletirmos sobre estudos comparativos em tradução literária

Durante a 53ª Conferência Anual organizada nos dias 24 a 27 de outubro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Diego, assisti à palestra O quinto personagem em cinco idiomas. A palestrante, Zuzana Kulhankova, é tradutora de inglês para tcheco, credenciada pelo Conselho Canadense de Tradutores, Terminologistas e Intérpretes (CTTIC) e recebeu o Prêmio Internacional de Tradução do Conselho de Artes do Canadá pela versão tcheca de "O quinto personagem" de Robertson Davies.

O romance clássico escrito por Davies em 1970 ficou em 40º lugar na "Lista dos Leitores" da Biblioteca Americana Moderna, que organizou o ranking for 100 Melhores Romances do Século 20. Na sua apresentação, Zuzana falou sobre os desafios que ela encontrou durante o processo de tradução e comparou o original em inglês, sua tradução em tcheco e as versões em alemão, espanhol e francês.

Ela iniciou a exposição explicando a polêmica em torno do título do livro. Pressionado pela editora a esclarecer o significado de "O quinto personagem" (The Fifth Business em inglês), Davies forneceu a seguinte citação de abertura, atribuída a um escritor na Noruega [tradução minha]:

“Aqueles papeis que, não sendo o do Heroi ou da Heroína, nem de Confidente ou Vilão, mas que ainda assim são essenciais para o Reconhecimento ou desenredo eram chamados de quinto personagem pelas companhias de teatro e ópera, organizadas segundo o estilo antigo; o ator que desempenhava tais papeis era geralmente chamado de quinto personagem."

— Tho. Overskou, Den Danske Skueplads

A explicação foi aceita durante muitos anos, até que em 1979 o tradutor norueguês não conseguiu encontrar tal citação. Davies admitiu então que havia inventado tudo durante uma entrevista concedida a Judith Shelton Grant, que posteriormente publicou a confissão na biografia do escritor, intitulada Man of Myth.

Como se comparam as traduções literárias? — A tradutora tcheca desenvolveu seu próprio método para avaliar as três versões que se propôs a comparar.

A primeira pergunta que ela precisava fazer era: O tradutor traduziu mesmo as partes mais problemáticas do livro? Segundo ela, um dos principais desafios que os tradutores literários precisam enfrentar é compreender o original e, infelizmente, alguns decidem simplesmente pular aquilo que não entendem.

Depois de identificar a palavra ou expressão traduzida, ela precisou verificar se a solução foi idiomática. A segunda pergunta então era: Ficou natural, em vez de soar traduzido? Logo, ela teve que confirmar a exatidão, fazendo a terceira pergunta: A mensagem ou sensação foi passada corretamente?

Finalmente, como a parte mais valiosa das traduções literárias que fazem sucesso dentre os leitores, Zuzana fez a quarta pergunta: A solução foi excepcionalmente brilhante?

Depois de explicar o seu método, a tradutora premiada dividiu os espectadores em grupos, de acordo com o idioma de trabalho. Quem falava espanhol, francês ou alemão sentou-se junto ao seu grupo, com o qual trabalhou para encontrar soluções para cada problema apresentado. Após o exercício, ela revelou as traduções oficiais.

Aqui estão as cinco expressões que a palestrante destacou, seguidas das traduções publicadas em cada idioma (ES = espanhol, FR = francês, DE = alemão, CZ = tcheco) e uma explicação em português em parênteses:

[Página 231]

  • EN - The Fifth Business
  • ES - El quinto en discordia (o quinto em discórdia)
  • FR - Le cinquieme emploi (o quinto empregado / implemento)
  • DE - Der Funfte im Spiel (o quinto na peça)
  • CZ - Pata postava (o quinto personagem)

[Página 25]

  • EN - To read the Riot Act (repreender arruaceiros e adverti-los para dar um fim no mau comportamento)
  • ES - Leerle la cartilla (impor a lei)
  • FR - Tancer vertement (repreender alguém)
  • DE - Die leviten lesen (censurar alguém depois do fato consumado)
  • CZ - Wyzvat shromazdeni k rozchodu (pedir para a multidão se dispersar)

[Página 110]

  • EN - “They’d yell across the street, ‘Hoor yuh today. Paul?’ Sly, you see, because he knew damn well they didn’t mean ‘How are you today, Paul?’ but ‘Your Ma’s a hoor.’ Kind of a pun, I guess you’d call it.” (Aqui, hoor é usado no lugar de how [como] e, tendo som de whore [prostituta], significa um insulto à mãe do personagem)
  • ES - Tu madre esputa? (“A sua mãe cospe?” O verbo esputa tem exatamente o mesmo som de es puta, que literalmente significa “é puta”)
  • FR - Pute tu venir avec nous, Paul? (Com o erro ortográfico, “Você pode vir com a gente, Paul?” virou “Você puta vir com a gente, Paul?”)
  • DE - Deine Mutter ist'ne Hure (Nenhuma ambiguidade criativa, usando literalmente “A sua mãe é prostituta”)
  • CZ - Jak se vejde tvoji mame? (Com o erro ortográfico, “Como vai a sua mãe?” virou “Como cabe na sua mãe?”)

[Página 239]

  • EN - “feel exactly like Lazarus [...] licked by the dogs.” ("sinto-me exatamente como Lázaro [...] lambido pelos cães." No sentido bíblico, Lázaro é um mendigo. Licked, tradicionalmente "lambido", também pode significar "derrotado”. Dogs, além de "cães", também pode significar "desqualificados" ou "pobres diabos".)
  • ES - Me siento como Lázaro, lamido por los perros (Literal)
  • FR - Je me sens exactement come Lazare, leche par les chiens (Literal)
  • DE - Ich fuhle mich genau wie Lazarus, von den Hunden geleckt (Literal)
  • CZ - Pfipadam si pfesne jako Kristus, toho take uftela devka (“Sinto-me exatamente como Cristo; ele também foi açoitado por uma meretriz”.)

[Página 241]

  • EN - "He had to be pretty stern with her to make her understand that what was sauce for the gander was certainly sauce for the goose. Indeed, he called her Little Goose for a few days but gave it up because of the ribald connotation of the word." (O ditado menciona ganso macho [gander] e ganso fêmea [goose] e significa "o que vale para um, também vale para o outro".  Porém, o verbo to goose é usado para expressar a ação de dar um tapinha nas nádegas de alguém para surpreendê-lo)
  • ES - Lo que valía para los gansos, también valía para las ocas [...] mi gansita. (Literal, mencionando os gansos. No entanto, Mi gansita também significa "minha tolinha”.)
  • FR - Qu'elle disait des conneries [...] petite conne. (“Falando bobagens [...] bobinha.” No entanto, conne tem duplo sentido e é um termo bastante derrogatório quando usado para descrever uma mulher.)
  • DE - Was dem einem recht is, dem anderen sicher [...] billig sein kann. (“O que é bom para um e bom para o outro [...] Gansinha.”)
  • CZ - C co svedci houserovi, svedci i huse [...] husicko (Literal)

Pontuação final — Após avaliar essas cinco seções, Zuzana deu notas para cada solução com base nas suas quatro perguntas. Na opinião dela, a tradução alemã ficou em último lugar, pois ela acredita que o tradutor pegou muitos atalhos que não expressou com exatidão as intenções e o estilo do autor. Tanto a versão espanhola como a francesa utilizaram mais recursos e apresentaram mais criatividade, sendo que a primeira ficou um pouco melhor do que a segunda.

"Traduções literárias são relativamente fáceis de avaliar", Zuzana afirma. "É possível escapar impune com muita coisa na tradução de livros... Contanto que você seja exato e brilhante.”