"Retraduções precisam aprimorar a versão anterior; caso contrário, serão criticadas", garante Inga Michaeli

Na penúltima resenha sobre as apresentações literárias organizadas durante a conferência da ATA, vamos falar sobre a tradução de clássicos para o hebraico

Durante a 53ª conferência anual organizada nos dias 24 a 27 de outubro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Diego, assisti à apresentação Retraduções: Precisamos mesmo delas? A palestrante, Inga Michaeli, é tradutora de inglês para hebraico e trabalha com livros de ficção e não ficção há quinze anos, além de ter traduzido também alguns guias de viagem e projetos de transcriação.

Inga iniciou a sua apresentação dizendo que há uma nova onda de tradução entre as editoras israelenses concentrada em títulos clássicos da literatura em inglês e que já haviam sido traduzidos para o hebraico nas décadas de 1950 e 1960. "Mas qual seria a motivação das editoras para traduzir clássicos novamente?" ela se perguntou.

Além de lucrar com títulos populares, existe mesmo uma necessidade de atualizar as traduções porque o hebraico evoluiu nos últimos 15 anos. "O idioma foi ressuscitado e hoje existem várias normas novas", Inga explica.

Ela listou alguns dos motivos para a retradução em Israel:

  • Adequação x Aceitação
  • Aspecto educacional sobre o uso contemporâneo do hebraico
  • Não existem traduções perfeitas, mas sim leituras e releituras
  • A tradução é um tipo de arte, uma expressão artística
  • A atual capacidade de pesquisa (Internet, mais exposição à cultura) leva a uma compreensão melhor do texto de origem

Mencionando um artigo intitulado The War of Versions, Inga enumerou outros prós e contras das novas traduções hebraicas disponíveis no mercado. "Os leitores exigem o tempo todo títulos novos e atualizados", ela afirma. "As novas traduções causam impacto nos leitores e as versões antigas ficam agora no fundo das prateleiras."

Antigo, porém local ― Por um lado, as traduções antigas refletiram a vibração cultural de Israel e do mundo hebraico da época em que foram publicadas. Tudo precisava ser adaptado à cultura judaica e, assim, os nomes dos personagens foram substituídos por nomes hebraicos tradicionais, as receitas e o nome dos pratos foram adaptados e as festividades que faziam referência ao Cristianismo foram transpostas para aqueles relacionados ao Judaísmo. Consequentemente, aquelas traduções eram mais ricas e muito mais criativas nas suas adaptações.

Por outro lado, alguns capítulos acabavam sendo encurtados ou combinados se o desenrolar da história parecesse irrelevante do ponto de vista cultural. Os tradutores tomaram bastante liberdade para explicar conceitos que talvez fossem desconhecidos dos leitores, geralmente incluindo suas próprias visões e preconceitos, gerando portanto muita interferência no texto.

No geral, as traduções antigas não foram muito fieis aos originais, os conflitos de linguagem e cultura não eram resolvidos de maneira a satisfazer o perfil do leitor atual e hoje parecem ultrapassadas, apesar de terem dado prioridade à realidade local.

Novo, porém estrangeirizado ― Por um lado, as traduções novas se beneficiam de um vocabulário mais extenso, já que novas palavras foram adicionadas ao léxico hebraico, incluindo gírias. A proximidade cultural com o idioma de origem é outra vantagem, pois um acesso maior a informações é necessário para resolver possíveis desafios durante a tradução.

Por outro lado, novas traduções nem sempre são precisas e exatas, às vezes simplificando e perdendo o significado original. Além disso, as editoras acreditam que é mais barato traduzir um livro e contratar um tradutor "novato", em vez de atualizar e aprimorar uma versão existente em hebraico.

No geral, as traduções novas têm um potencial maior de permanecer fiel ao original por causa de uma compreensão mais ampla, mas a tarefa ainda precisa ser realizada por tradutores experientes e capazes de oferecer uma versão adequada de um livro clássico para o leitor contemporâneo.

O que um nome representa? ― “As retraduções precisam aprimorar a versão anterior; caso contrário, serão criticadas", ela garante. Mencionando um exemplo conhecido, que ela chamou de "A síndrome do me chama de Ishmael", Inga falou da retradução de Moby Dick (ou "A baleia") de Herman Melville e o fato de a versão publicada recentemente não ter se destacado em comparação à antiga ―pelo menos não de maneira positiva.

"A primeira frase, 'Chamai-me Ishmael' foi alterada em hebraico para 'Meu nome é Ishmael'", ela diz, explicando a grande diferença entre o clássico e a tradução nova: quando o personagem pede para lhe chamarem de Ishmael, isso não significa necessariamente que esse é o seu nome verdadeiro e, então, a ambiguidade se perde na versão contemporânea para o hebraico.

"Li aquela primeira frase, fechei o livro e nunca mais o abri", ela confessa.

Estudo de caso ― Inga comparou então a sua versão de "A nascente" de Ayn Rand com a tradução clássica existente no hebraico, que foi publicada em 1954. Essa versão permaneceu em circulação até a editora atual adquirir os direitos para a releitura. 

Ela não consultou o material durante a tradução, pois seu objetivo era proporcionar uma versão nova e atualizada. "Tenho acesso à versão editada do livro antes de ele ser publicado e geralmente dou a última palavra", ela conta. "Porém, não escolho o nome do livro."

Entretanto, ela procurou a tradução antiga, que havia lido nos tempos de escola, para dar exemplos durante a apresentação. Ela identificou problemas na transcrição do nome dos personagens e termos equivocados, às vezes por falta de uma palavra ou conceito em hebraico, outras vezes por uma interpretação errada da mensagem original:

  • "Caspa" foi traduzido como "barbatanas" 
  • "Ostentar" tornou-se "provocar" 
  • Pipe dream foi traduzido literalmente como "sonho de canos", perdendo o sentido metafórico de "ideia impraticável"
  • "Anticoncepcional" foi traduzido como "conservante" 
  • O tradutor anterior achou que era necessário explicar o que são "lobisomens", mas acreditava que "vampiros" era algo conhecido para os leitores de hebraico
  • Suckers, na acepção de "idiotas, tolos, imbecis", foi traduzido como "idiotas que estão pedindo para serem enganados"
  • Black tie or white tie foi traduzidos com base nas cores, como "gravata preta ou gravata branca", em vez de se referirem à formalidade dos trajes
  • Os capítulos 12 e 13 haviam sido combinados e o capítulo 14 se tornou o capítulo 13
  • "Primeira Comunhão", um rito de passagem do Cristianismo, foi adaptado para "Bar Mitzvah", que não é exatamente o mesmo tipo de cerimônia na tradição judaica, sendo que "sacramento" poderia ter sido uma opção mais neutra

De modo geral, a nova tradução foi bastante elogiada e até mesmo os seguidores do objetivismo de Ayn Rand ligaram para Inga e deram os parabéns pela qualidade do trabalho. "Sempre pergunto para o editor: Por que vamos traduzir este livro de novo? Eles geralmente me respondem: Porque amamos esses livros."