“Quero proporcionar livros ao público e, como tradutora, espero que confiem no meu trabalho”, afirma Lisa Carter

Chegando à metade da minha rodada de resenhas sobre as apresentações literárias organizadas durante a conferência da ATA, vamos dar uma olhadinha nos bastidores da tradução de um livro

Durante a 53ª conferência anual organizada nos dias 24 a 27 de outubro pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em San Diego, assisti à apresentação O enigma de Einstein: Estudo de caso em tradução literária. A palestrante, Lisa Carter, é tradutora de espanhol para inglês certificada pela ATA e pela Associação de Tradutores e Intérpretes de Ontário (ATIO) e proprietária da Intralingo Inc.

Entraram em contato com Lisa pela primeira vez em agosto de 2009 para traduzir A fórmula de Deus, do escritor português best-seller José Rodrigues dos Santos. No entanto, como traduz de espanhol para inglês, ela recebeu a versão em espanhol do livro, La fórmula de Dios, traduzido por Mario Merlino.

Ela admite que achou estranho ter que traduzir de uma língua intermediária, ou seja, o material que ela usaria como fonte era uma tradução do original. Porém, de acordo com a editora, a versão em espanhol havia sido aprimorada depois de algumas edições e, por isso, os editores insistiram em fazer a tradução do espanhol para o inglês.

A proposta fez com que ela mudasse o seu ponto de vista sobre como abordar o processo de tradução. "Quero proporcionar livros ao público, então o que importa se é uma tradução de uma tradução?", ela se perguntou. Mesmo assim, ela teve a tentação de verificar o original em português com frequência para identificar as possíveis adaptações e decidir como encontrar soluções para a sua versão em inglês.

Infelizmente, ela não teve a oportunidade de entrar em contato com o tradutor de espanhol, que faleceu antes de eles poderem conversar sobre as soluções que ele encontrara. "Como tradutora, espero que confiem no meu trabalho. A versão em espanhol não deveria ser suficiente, então?" ela perguntou, mencionando que Mario Merlino era um tradutor conceituado, com diversos livros publicados. “Ainda assim, erros podem passar despercebidos se os editores se limitam a corrigir a gramática, sem ter conhecimento do idioma original”, ela continuou.

Negociações ― Desde o início, o projeto foi considerado "urgente" e deveria ser concluído de agosto de 2009 "até o fim do ano". Entretanto, ela só recebeu o contrato em novembro de 2009 e, após muita negociação, a tradutora e a editora finalmente chegaram a um acordo sobre o preço, os direitos e o prazo para o livro ser traduzido até março de 2010.

"Quando lidamos com um sucesso de vendas, a pressa vem sempre da editora", ela diz, admitindo que foi necessário educar um pouco o cliente para que pudessem compreender que, apesar da grande vontade de ver a versão em inglês na prateleira das livrarias, o trabalho precisava ser feito com responsabilidade para garantir a coerência e, consequentemente, o sucesso do livro.

"Traduzir um livro desta natureza em dois meses é possível. Dá para colocar palavras no papel, mas não haverá estilo e o livro não será um best-seller", ela completou. "Eu trabalhei muito durante os sete dias da semana por cinco meses. Eu respirei a história. Eu dormi pensando na história."

Enquanto aguardava a carta branca para dar início ao projeto, ela começou a se preparar e leu o livro nos mínimos detalhes várias vezes entre agosto e novembro. Ela pesquisou a fundo e fez um esboço, apesar de o projeto só se tornar oficial após a assinatura do contrato. Quando chegou a hora de se comprometer com o serviço, ela contratou uma pesquisadora que falava espanhol para ajudá-la.

Ela perguntou para o cliente se poderia consultar o autor caso tivesse alguma pergunta, mas disseram que tudo deveria passar pelo editor, que acabou atrasando o processo. "Não sabia qual era o acordo existente entre o autor e o editor e alguns escritores preferem que os tradutores não entrem em contato com eles", ela disse. "A minha obrigação era com a editora, mas parecia até que a gente estava traindo o autor."

Desafios ― Lisa reconhece que duvidou da sua capacidade durante a tradução, principalmente porque não estava familiarizada com conceitos de matemática, ciência e filosofia. A observação do escritor no início do livro, afirmando que físicos e matemáticos apoiavam as teorias científicas usadas no romance, também a deixou apreensiva sobre como passaria com exatidão essas ideias que ela desconhecia.

Ela lembra que algumas questões filosóficas foram apresentadas pelo autor sem nenhuma menção da fonte. "Conceitos complexos e teorias foram destiladas por meio do diálogo, pegando grandes ideias e transmitindo-as em frases simples", ela explica. Não havia notas de rodapé que ela pudesse consultar e tais noções estavam embutidas na história.

O uso de línguas estrangeiras, consequência das diversas viagens do protagonista pelo planeta inteiro, representou outro desafio. Havia várias citações em alemão, chinês, hebraico, persa e tibetano, então tudo precisou ser verificado nesses idiomas pela pesquisadora, que felizmente frequentava a Universidade de Ottawa e teve acesso a pessoas que falavam tais línguas para garantir que cada trecho seguia a respectiva ortografia.

Além dessas questões específicas de conceito e idioma, como leitora de inglês Lisa também notou algumas incoerências com os personagens e redundâncias na linguagem. Como exemplo, ela citou o fato de o protagonista, que era bem instruído, às vezes fazer comentários que não condiziam com a sua própria capacidade, tudo com o objetivo de educar os leitores.

Alguns diálogos também a fizeram frear por causa das repetições que ela acreditava que não funcionariam na tradução. Pesando as intenções originais do autor, ela deu um jeito de adaptar o estilo da escrita para o inglês, deixando a narração mais fluida, porém sem alterar o sentido.

"O objetivo do diálogo é dar continuidade ao enredo", ela explica. "O desafio foi apresentar informações para os leitores sem prejudicar a ideia que eles fariam do personagem, garantindo assim que a leitura ficaria intacta."

Conclusão ― Após concluir seu trabalho e perceber que o editor não estava respondendo às suas perguntas para dar continuidade ao processo de edição, Lisa decidiu entrar em contato com José Rodrigues dos Santos. "Eu estava me sentindo muito distante do autor", ela lembra. "E a minha responsabilidade para com a editora terminara com a entrega da tradução."

Ela se desculpou por não ter mantido contato e explicou que o editor insistira em ser o intermediário. O escritor foi muito gentil e confirmou que a editora havia tomado a decisão unilateral de não deixar que eles se comunicassem durante a tradução. Dos Santos até concedeu uma entrevista para o blog dela quando do lançamento do livro.

No final das contas, o editor revisou a tradução e a tradutora não teve nenhum poder de decisão, apesar de haver uma cláusula no contrato estipulando que ela deveria ver a versão final antes da impressão do livro. Isso nunca aconteceu.

"Quando um dos meus livros é publicado, acabo nem lendo com atenção", ela reconhece. "Dói demais. Fico sempre pensando, 'Eu poderia ter feito isso ou aquilo'. Além disso, algumas partes mudam completamente ou até ficam de fora da versão final depois de passar pelo editor."

A tradução finalmente chegou às livrarias sob o nome The Einstein Enigma ["O enigma de Einstein"]. A mudança no título foi decisão da editora, que provavelmente procurou evitar qualquer polêmica resultante do uso da palavra "Deus" no mercado editorial em inglês. Mais tarde, o título da versão em espanhol também mudou de La fórmula de Dios para El enigma de Einstein.

Reconhecimento ― Lisa lembra que, após o lançamento, a disponibilidade do livro não era tão grande. "Foi uma gota d'água em um mar imenso de livros", ela compara. "Trabalhei tanto durante meses e era como se um filho meu estivesse vindo ao mundo sem que ninguém desse a mínima importância."

Mas a situação logo mudou quando o Prêmio Literário IMPAC Internacional de Dublin deu-se conta do livro. Ela foi avisada da indicação em julho de 2011, mas não podia contar para ninguém até novembro daquele ano, quando foi feito o anúncio oficial.

A recomendação foi encaminhada por leitores e pelas bibliotecas municipais de Lisboa e Porto, colocando o livro na lista completa de indicados para 2012. A indicação estava aberta a qualquer título publicado em inglês, sem fazer distinção entre trabalhos escritos originalmente no idioma ou traduzidos de outra língua. "Fiquei muito orgulhosa de o livro ter sido julgado tendo como base a maneira em que a história foi contada em inglês", ela afirma.

O prêmio literário de Dublin entrega uma quantia grande em dinheiro de 10 mil euros, que no caso de traduções literárias é dividido em 75% para o autor e 25% para o tradutor. Dos 149 livros indicados em 2012, 39 foram traduções. Jon McGregor foi o ganhador com o romance Even the Dogs.

Lisa diz que foi uma emoção imensa ter a honra de ser considerada para a premiação. "Dá prestígio, porque tanto o escritor como o tradutor são reconhecidos", ela menciona. "As editoras têm uma estratégia de marketing, mas isso só se aplica ao livro e ao autor, não ao tradutor."