Nobel, Jabuti e outros prêmios literários na tradução

O Prêmio Nobel de Literatura foi entregue no início de outubro para Mo Yan, romancista e contista chinês, "que com realismo alucinatório combina folclore, história e contemporaneidade", segundo a Academia Sueca. No entanto, muitos não economizaram nas críticas contra o aclamado escritor de "O sorgo vermelho".

Polêmica n.º 1: Os críticos na China dizem que a Academia é tendenciosa, pendendo para o lado dos escritores continentais em detrimento dos oriundos de Taiwan. Chen Fang-ming, professor de literatura taiwanesa na Universidade Nacional Chengchi, diz que os escritores da ilha são mais prolíferos, mas os juízes são preconceituosos.

Por outro lado, os escritores taiwaneses não são traduzidos para outros idiomas com frequência, criando assim uma barreira linguística entre o trabalho original e as organizações internacionais responsáveis pelos prêmios literários.

Polêmica n.º 2: As transmissoras estatais da China interromperam a programação normal para anunciar que o escritor chinês finalmente ganhou o Nobel em Literatura, "aliviando a ansiedade entre os líderes do país em relação ao reconhecimento, por parte do Ocidente, das proezas culturais da China", de acordo com o site ForeignPolicy.com

Entretanto, em 2010 quando o dissidente preso Liu Xiaobo ganhou o Nobel da Paz, o governo chinês ficou furioso e apagou o anúncio da internet dentro do país, condenando o prêmio como algo "profano", chamando-o de um "instrumento de propaganda ocidental, cujo objetivo é insultar e desestabilizar o governo do Partido Comunista", como o New York Times publicou. 

Desta vez, o governo não poderia estar mais ogulhoso do feito porque, conforme os críticos afirmam, Mo Yan não é tão controverso na China. Além disso, o escritor não é o primeiro chinês a ganhar o Nobel de Literatura, já que Gao Xingjian recebeu o prêmio em 2000, mas tornou-se cidadão francês em 1997, então a França acabou levando o crédito.

Polêmica n.º 3: As contribuições de Mo Yan para a literatura mundial não foram julgadas no idioma original. Em vez disso, traduções do chinês possibilitaram o acesso dos jurados ao seu trabalho. Por exemplo, seu título mais conhecido, "O sorgo vermelho" foi traduzido para o inglês por Howard Goldblatt e para o sueco por Anna Chen. 

"A rigor, a tradução literária é impossível", acredita Joe Hung, do jornal The China Post. "As nuances exclusivas de uma língua se perdem na tradução para outro idioma, principalmente tratando-se de línguas que não pertencem à mesma família." Se esse fosse mesmo o caso, as traduções literárias não existiriam e cada país viveria confinado em sua própria literatura, sem vivenciar as histórias de escritores vindos de outras culturas, com outras realidades.

Polêmica n.º 4: Um dos tradutores de Mo Yan para o sueco é um membro da Academia e tem direito de voto, então poderia ter ocorrido um conflito de interesses. Estudioso da cultura chinesa, Göran Malmqvist, de 88 anos, incentivou a nomeação e, agora que o escritor chinês ganhou o Nobel, o linguista sueco poderia se beneficiar financeiramente da popularidade dele. Na verdade, Malmqvist proporcionou as traduções para o sueco que a Academia avaliou durante o processo de seleção e, agora, irá entregá-las a editores para publicação.

No Brasil, o Prêmio Jabuti também foi entregue este mês e marcado pelas polêmicas na categoria Romance: um dos jurados então não identificados deu notas bastante baixas para os escritores experientes, deixando os novatos em vantagem.

Entretanto, não houve atribulações na categoria Tradução, com clássicos que assumiram nova roupagem terminando no topo da lista. Trajano Vieira ficou em primeiro lugar com a "Odisseia" de Homero, publicada em formato bilíngue, combinando neologismos e termos arcaicos para criar uma estranheza poética que pareceu agradar os críticos. O mais interessante é que outra tradução direta do grego, realizada por Frederico Lourenço com maior licença poética para facilitar a oralidade, chegou às livrarias quase que na mesma época.

Rubens Figueiredo terminou em segundo lugar com a versão brasileira de "Guerra e Paz" de Leon Tolstói, traduzida pela primeira vez diretamente do original russo, seguido pela versão de Mario Laranjeira para "Madame Bovary", escrita em francês por Gustave Flaubert.

Leia mais sobre o Prêmio Jabuti e o ganhador: Folha de S. PauloRevista CultDivirta-seUnicampNão Gosto de Plágio

E aqui estão outros destaques dos prêmios de tradução em todo o mundo:

Prêmio Nacional de Tradução na Grécia

"C. P. Cavafy: Selected Prose Works" ["Prosas Seletas de C. P. Cavafy" em tradução livre] escrito por Constantino Kavafis e traduzido do grego para o inglês por Peter Jeffrey

"Emmanuel's Travels / Short Stories from Syros" ["As viagens de Emanuel / Contos de siros" em tradução livre] escritos por Emmanuel Roidis e traduzidos do grego para o espanhol por Carmen Vilela como "Relatos de Siros"

Prêmio Tchernichovsky de Tradução em Israel

Dr. Aminadav Dykman traduziu poesias escritas em diversos idiomas modernos e antigos, em especial uma antologia poética de escritores europeus do século 17

Tal Nitzan recebeu o prêmio por sua obra diversa com traduções de poesias e prosas escritas em várias línguas, principalmente espanhol

Prêmio Harold Morton Landon foi entregue a Jen Hofer por "Marfim negro", versão em inglês do original em espanhol de "Negro marfil" escrito por Myriam Moscona

Seleção preliminar do Prêmio DSC 2013 para a literatura do sul da Ásia em inglês, cujos títulos são inscritos pelos autores que nasceram na região ou, independentemente da etnia, escreveram sobre o sul asiático