É pra ontem! Anda logo! Não precisa ficar bom!

Tenho que confessar que estou seriamente preocupada com essa nova tendência na tradução literária no Brasil (o que espero que não seja uma onda mundial). Todos conhecemos essa prática horrível do setor, quando as agências irresponsáveis pegam um documento enorme, cortam em pedacinhos, enviam cada parte para um tradutor diferente para depois juntar tudo sem sequer revisar, enviando então um verdadeiro Frankenstein para o cliente, dizendo se tratar de um "documento traduzido". Porém, seguir este método para ganhar dinheiro e enganar o cliente quando o assunto é tradução literária e, ainda por cima, achar que ninguém vai perceber, é no mínimo muita ingenuidade. Acorda, pessoal!

Os tradutores técnicos geralmente dizem: "Nem sei para que estou traduzindo isto... Ninguém vai ler mesmo!" Acontece, apesar de não ser verdade e completamente irrelevante (limite-se a fazer o seu trabalho!), quando lidamos com documentos empresariais longuíssimos nos quais ninguém se dá ao trabalho de passar um pente fino até ser tarde demais e precisarem lidar com as consequências de uma quebra de contrato, um acidente ambiental ou um funcionário ferido.

No entanto, livros foram feitos para serem lidos e apreciados. O objetivo da literatura é fazer com que a gente reflita sobre a condição humana, escape da nossa realidade para passar um tempinho num mundo de fantasia e aprenda sobre nós mesmos ao ler sobre a vida dos outros e situações que dificilmente teremos a oportunidade de vivenciar numa vida inteira. Quando os livros são traduzidos desse jeito, às pressas e sem o menor cuidado para ficarem logo disponíveis no mercado e as editoras lucrarem com o mais recente sucesso de vendas no exterior, os leitores vão perceber o que aconteceu e ninguém vai sair dessa ileso.

Talvez o desastre mais conhecido da tradução literária no Brasil seja o que envolve a série "As crônicas de gelo e fogo" de George R. R. Martin. A editora multinacional Leya adquiriu os direitos de adaptação da versão portuguesa traduzida por Jorge Candeias para a editora Saída de Emergência, de Portugal. Essa prática é comum nas traduções técnicas, quando uma agência quer pagar menos para um tradutor adaptar o texto, em vez de pagar a tarifa total pela tradução do original.

Nem preciso dizer que o resultado deixou a desejar, mas o método foi empregado nos primeiros quatro livros da série publicados no Brasil. Então, quando chegou a vez de traduzir o quinto título, "A dança dos dragões", a Leya mudou de tática e contratou tradutores para trabalhar diretamente com o original em inglês.

Quer saber o que aconteceu? O livro foi para as prateleiras com um capítulo faltando! Deve ter sido uma baita correria, porque o Capítulo 26 parece ter tomado aquela famosa aspirina, sabe? Depois de chorar sobre o leite derramado, a editora pediu desculpas, publicou o capítulo em PDF na internet para não interromper a leitura dos atuais clientes e recolheu todas as cópias para devidamente corrigir o erro, 

que parece ter custado mais de R$ 1 milhão

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Há alguns dias eu estava lendo esta matéria, que destacou alguns dos 50 erros de tradução na versão brasileira de "The Last Crusade: The Epic Voyages of Vasco da Gama", escrito por Nigel Cliff. O livro se tornou "Guerra Santa" no Brasil, foi editado pela Globo Livros e traduzido por Renato Rezende, que parece ter alguns títulos importantes em seu currículo. O livro já estava nas livrarias quando a editora decidiu publicar uma errata:

"No livro Guerra Santa, por erro de tradução, onde se lê Calcutá, leia-se Calicute; onde se lê Ctésifo, leia-se Ctesifonte; onde se lê duque George, leia-se duque Jorge. E, nas páginas 346 e 347, onde se lê Kilwa, leia-se Quilon."

Como você pode ver, a editora reconheceu pelo menos quatro erros. O caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo entrou nos detalhes de pelo menos outros oito ou dez erros. O que mais me chamou a atenção foi a tradução literal de "learning the ropes" como "conhecendo as cordas" (Muito prazer Sr. e Sra. Corda!), quando na verdade deveria ter sido algo como "aprendendo na prática" ou "conhecendo os ossos do ofício", dependendo do contexto. Outro erro marcante foi "arrested" [confiscar mercadoria] como "arrastar" só porque as duas palavras têm grafias parecidas...

É uma pena que a narrativa sobre uma parte tão importante da história, a viagem de Vasco da Gama para a Índia (que inspirou o seu rival Cristóvão Colombo a chegar às Américas), ficará para sempre marcada no Brasil. A maioria dos leitores que tentarem se entreter com o livro ficará mal informada. Os demasi podem se divertir criando um joguinho: tome uma dose de cachaça toda vez que encontrar um erro na tradução durante a leitura.

Aí você me pergunta: "O que podemos fazer para evitar essa situação?" Bom, é simples! Primeiro: as editoras precisam contratar tradutores que sabem o que estão fazendo, compreendem profundamente o idioma do original, têm a capacidade de fazer pesquisas e a decência de saber, por exemplo, que o adjetivo "fluvial" vem de "rio" e não deve ser usado em uma frase que menciona os navios que se aventuraram pelos oceanos Índico e Pacífico!

Aí, quando encontrarem esses tradutores, é preciso dar tempo suficiente para o projeto ser concluído. Compreendo que as editoras devem estar sob pressão constante para superar a concorrência, que talvez tenha títulos semelhantes no forno, mas a pressa é inimiga da perfeição e o possível resultado é este: uma torta na cara que vai manchar a reputação da editora, do tradutor, do livro, do autor (isso mesmo, o que é que os senhores Cliff e Martin pensam a respeito, hein?) e, no final das contas, é um baita desrespeito para com o leitor!

Pronto, falei!

Mais referências:

  • Blog do Jorge Candeias: A Lâmpada Mágica
  • A saga de Danilo Nogueira, dividida em quatro partes e intitulada "O editor cenossão, o caso LeYa e o (des)acordo ortográfico"
  • Entrevista com Jorge Candeias sobre a adaptação do seu trabalho em português de Portugal para os livros de G. R. R. Martin: "Português contesta adaptação em tradução para coleção 'As Crônicas de Gelo e Fogo'"
  • Duas matérias sobre o livro de Nigel Cliff: resenha e entrevista