Achados e perdidos em traduções literárias e adaptações para o cinema

Outro dia eu li um artigo ótimo sobre palavras e tradução. Na verdade era uma resenha sobre o badalado livro "Is That a Fish in Your Ear?" que eu mal posso esperar para ler no ano que vem.

Mas o que realmente me chamou a atenção foi a introdução e a ideia de que, às vezes, você só tem acesso à tradução de um livro que lhe dá impressões e perspectivas sobre a história e os personagens que mudariam completamente se você lesse o original. Vemos isso várias vezes no cinema, por exemplo, quando se lê um ótimo livro cujo filme deixou a desejar ou quando você realmente gostou do que viu na telinha, mas aquelas sensações simplesmente não estavam escritas nas páginas do livro.

Falando nisso, na minha lista de leitura para o ano que vem eu tenho dois livros traduzidos que também viraram filmes dos quais eu gostei bastante:

  • Thierry Jonquet's Mygale, um romance francês que recentemente inspirou o diretor espanhol Pedro Almodóvar a filmar "A pele que habito". Não leio em francês, então comprei a tradução em inglês de Donald Nicholson-Smith, intitulada Tarantula e já guardei no meu Kindle. Li um comentário negativo no Amazon, escrito por alguém que não achou que a versão em inglês era tão boa quanto o original em francês, mas como sou tradutora sei que opiniões pessoais sobre o assunto podem ser contestáveis, então vamos ver o que acontece quando eu começar a ler esse livro. Vou tentar ser neutra, pois sei que muito do que está no filme veio da mente brilhantemente perversa do Sr. Almodóvar, mas estou ansiosa para aproveitar esse suspense com base em seus próprios méritos.
  • "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago, que se transformou em Blindness na tradução em inglês de Giovanni Pontiero e no filme de Fernando Meirelles. Você poderia me perguntar: "Mas você não lê em português?" É claro que sim, afinal essa é a minha língua materna! Apesar de eu ser brasileira e Saramago português, não teria problema algum em ler o original com a ajudinha de um bom dicionário para fins de adaptação do vocabulário. Você poderia insistir no assunto e me encher a paciência perguntando: "Para que comprou a versão em inglês, então?" É que eu não resisti, tá legal?! A Amazon combinou OITO romances do Saramago em um único livro Kindle, que estava à venda por menos de US$ 16. Pelo que eu vi, o original impresso só desse título teria que ser importado por não menos do que US$ 40, então faça as contas. Mesmo assim, um dia ainda coloco as mãos no livro em português para comparar as duas versões e contrastar com as minhas impressões sobre aquele filme tão pungente do qual gostei muito. Acho que a gente tá precisando visitar Portugal outra vez...

Bom, voltando à minha ideia original (se concentra, Rafa!), aqui está a introdução do artigo do qual eu estava falando (com tradução minha):

"Um amigo russo uma vez tentou melhorar o inglês dele estudando 'Prelúdios', de T.S. Eliot. Já conhecia a tradução russa de cor e salteado e gostava de recitar com um fervor ressonante uma frase sobre postes de luz em Londres que brilhavam como águas-vivas iluminadas no fundo do oceano. Ao chegar na passagem correspondente do texto em inglês, ele ficou desolado. O original dizia: "E então a iluminação dos postes..." Não havia menção às águas-vivas e ao oceano. Ficou evidente que o tradutor russo achou que o original austero de Eliot não era poético o suficiente e decidiu dar uma melhorada. Meu amigo sentiu-se duplamente traído: primeiro por Eliot, porque no final das contas o poema não era tão interessante assim; depois pelo tradutor, porque aquela linda frase era na verdade uma farsa."

Um dia volto aqui não só com as minhas impressões sobre "Tarantula" e "Blindness", mas também com uma lista de leitura para 2012, porque é melhor eu me organizar para o ano que vem com tantos livros bons me esperando no meu Kindle.