"Teoria nos ajuda a defender nosso trabalho diante do cliente", afirma Jayme Costa

Continuando a minha série sobre as apresentações de Tradução Literária da 52ª Conferência Anual da ATA, realizada em Boston, eis um pouquinho de teoria.

Durante a 52ª Conferência Anual organizada entre 26 e 29 de outubro de 2011 pela Associação Americana de Tradutores (ATA) em Boston, assisti à palestra de uma hora intitulada Tópicos de Tradução, apresentada por Jayme Costa Pinto, tradutor de inglês para português e coordenador do curso de formação de tradutores e intérpretes da Associação Alumni em São Paulo. Suas traduções literárias incluem obras dos escritores americanos John Updike e Seth Morgan e ele participou de um programa de treinamento especial para intérpretes do Instituto Monterey de Estudos Internacionais na Califórnia.

"Muita gente diz que teoria da tradução só serve para dar emprego para professor", ele disse no início da palestra. "Porém, a teoria nos ajuda a defender nosso trabalho diante do cliente. Ela nos ajuda a criar um forte espírito de tradução para ser levado a sério."

Domesticação e estrangeirização ― Durante a palestra, ele se concentrou em duas teorias de tradução. A primeira foi os conceitos de domesticação e estrangeirização de Friedrich Schleiermacher. O teólogo e filósofo alemão defendia o processo de tradução não transparente, no qual o tradutor poderia adaptar conceitos para que os leitores pudessem assimilar a ideia geral, ou manter os conceitos estrangeiros intactos na tradução para os leitores aprenderem mais sobre outras culturas, mesmo que as referências literalmente se perdessem na tradução.

Como exemplo, Jayme mostrou uma passagem de uma história em inglês, na qual uma das personagens faz referência a uma cantiga de ninar. Ele apresentou então duas traduções diferentes em português como possíveis soluções: uma era mais literal (estrangeirização) e manteve as referências originais ―apesar de serem desconhecidas para os leitores brasileiros― e a outra era uma adaptação (domesticação) que usava elementos da cultura brasileira para manter a mesma ideia original, porém com referências que não eram estranhas para o leitor.

De acordo com o palestrante, a mesma técnica foi usada em programas de tevê. Um exemplo clássico é "I Love Lucy", que foi passou no SBT com mudanças profundas no processo de tradução para os telespectadores brasileiros das classes C e D se familiarizarem com a história. Entre as adaptações, estavam o local onde Lucy e Ricky Ricardo moravam (em vez de Nova Iorque, o bairro da Mooca em São Paulo) e o time do coração de Ricky (Corinthians).

Ser literal ou natural? ― A segunda teoria apresentada por Jayme foi o conceito de equivalência dinâmica pregado por Eugene Nida. O linguista americano, conhecido por estimular a tradução da Bíblia em todo o mundo, propôs uma abordagem diferente, desviando da ideia formal de que o significado está embutido no texto original e, portanto, as traduções deveriam concentrar-se sempre em alcançar a equivalência semântica.

A sugestão de Nida com a equivalência dinâmica era enfatizar o que é natural e compreensível no idioma da tradução. Ele diria que, como não existem duas línguas idênticas ―"seja nos significados atribuídos aos símbolos correspondentes ou na maneira como esses símbolos são organizados em expressões e frases"― os tradutores nunca conseguiriam chegar a uma "correspondência absoluta" entre o idioma de partida e o idioma de chegada. Como resultado, a tradução exata é algo que não existe.

Poesia e música ― A maioria do público exclusivamente feminino presente na palestra deixou a sala arrepiada depois que Costa deu mais dois exemplos de tradução: um livro de poemas e uma letra de música.

O primeiro exemplo foi Sonetos da portuguesa, escrito em 1845 por Elizabeth Barrett Browning e publicado cinco anos mais tarde como uma coletânea de poemas inspirados no seu namoro e casamento com o escritor Robert Browning. Após uma breve lição de história sobre a vida de Elizabeth, explicando como a escritora inglesa se inspirou na obra do século XVI de Luís de Camões (daí o "portuguesa" do título), Costa pediu para uma voluntária cuja língua materna é o inglês para ler um poema no idioma original e uma voluntária de Portugal para ler a tradução correspondente. A versão em português traduzida por Leonardo Fróes parece até ter sido escrita originalmente no idioma de chegada.

Encerrando a apresentação, Costa deu seu exemplo final de tradução literária usando a música "It's De-Lovely" de Cole Porter e a versão brasileira "Que De Lindo", cantada por Caetano Veloso como bossa nova, mas mantendo o ritmo da canção original e trazendo à vida palavras arcaicas e até inventadas, tendo como cenário o Rio de Janeiro.